terça-feira, 7 de agosto de 2007

fale comigo a linguagem do amor e de seu sangue. me dê sua alma e deixe eu entrar

em sua casa. sou um senhor em seu mundo. essa queda ligeira. fale comigo. eu

tenho o vermelho pra nossas roupas. fale comigo a linguagem desesperada e o

delírio. como um sino. e as mãos agressivas que se repetem. eu vou te balançar

como o sino vermelho e como as roupas no varal. eu fico olhando você tomando um

choque e penso que você está seguindo o universo e vem falar comigo essas

sendas que só nós conhecemos. eu sonho o universo te fabricando e você fala

comigo sobre o que vê. e os momentos em que você cheira a garganta doce do

futuro. como um rio dentro do peito. aceso como esse olhar e essa linguagem. eu

te levo pra dançar com o universo e escrevo as canções desta noite. eu apenas sei

que você se move lentamente e não se envergonha e não vai embora. como esse sonho

saindo do que o universo pensa sobre mim. um filme nonsense sobre nós e sobre

como o escuro cobre as coisas sobre mim. e uma chuva. essa chuva que fala comigo

em tua linguagem. olhando os flashes que você projeta. e os pássaros. essas

gotas.
quando eu cair entre as rochas eu vou dizer que estava querendo caminhar por aí.

como se fosse agosto e chovesse mas o frio não me fizesse esperar o sol e eu

seguisse por aí. sem procurar as pessoas sem rosto. sem anotar os nomes sobre

nós. sem o guarda-chuva imenso da lógica. sem querer saber nada sobre nós.

deixando esse silêncio para nós. sem pedir um favor e aquecer o coração. como as

coisas que não cabem mais em nós. o último filme que fiz e esse perfume que você

levou embora. e as frutas que eu pintei sobre você sem razão. e o dia foi fumando

o que eu sei. esse silêncio eu guardei na estrada e fiz o pó te cobrir. um pé e

outro. eu num caminho sem a tua imagem e sem a voz. com a medula chorando essas

estrelas grandes como o sol. mas eu não espero nada e talvez por isso eu sangre

enquanto caminho. e às vezes eu posso dormir sobre meus olhos. e eu leio a sombra

e água e o fogo com muito amor. porque isso não diz de nós. isso é. e eu sinto

como se abrisse o estômago e a manhã pra ir me deitar. como se fosse a melhor

coisa a se pensar. um sentimento bonito. um sorriso sem direção. tateando afeto

como uma coisa que permance jovem. uma asa errando pela rua. olhando os que

passam e não tem nome. essa treva do novo como um tóxico. mas isso é a melhor

coisa a se pensar. andar sem as mãos no bolso. observando os passos. e tudo que é

outro enroscando em nossa pele. eu saio e me perco. e isso é como uma rua

estreita. e eu me encosto nos outros. reviro os abismos sem código e isso é o

melhor a se pensar. eu sinto.
nós vamos cantando
e olhando a paisagem.

ó deus como isso nos faz bem.

nós cantamos
e andamos olhando a paisagem.

e todos vão descendo e ficando bem
e se juntam a nós.

cantando e olhando a paisagem.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

rá rá rá.
correndo pelado como um
louco ou como uma
bicicleta sem rodas só
girando por aí. rá rá.
correndo pelado pelas
ruas. destruindo as avenidas
como uma bicicleta
sem rodas. rá. correndo
e queimando as ruas. r. r.
r. r. r. r. recitando
a fúria de um deus
qualquer. caindo
como um metal pesado
sobre as costas. rindo
como uma luz
cegando um rosto.

domingo, 5 de agosto de 2007

eu quebro os ossos e sonho. vou adormecendo e quebro os ossos. como se escapasse

e dissesse que (nada) tudo (nada) é tão real. mas eu tenho passos lentos e meus

olhos deixo nos bolsos pra ver tuas mãos me tocarem. é fácil cair dentro de um

som. basta cegar os olhos. e sentir cada vértebra se partindo se rompendo como

uma corda. eu cheirei o sol e (não) era real e eu não sabia mais amar. mas trouxe uns

animais comigo. eu ainda estou bem. eu permaneço. como as rochas que continuam

rolando e vão pra longe.

sábado, 4 de agosto de 2007

você ri
como quem dança
ou escuta
uma música
antiga e bonita

e eu
não tomo
o café que você bebe

mas quero
passar o inverno contigo.

terça-feira, 31 de julho de 2007

partir do alto. dentro do dentro. como numa nave. uma grande viagem sem volta. os

ossos soltos como bocas enormes. um pulo e outro. esse equilíbrio sobre a

navalha. tudo muito rápido como se fosse fogo ou coisa parecida. mas também fosse

água. caindo. e eu mergulhasse. caísse líquido feito o pássaro inconsciente. eu

fico bêdado e minhas vétebras sabem do chão. minhas histórias ficam na pele. e eu

sempre danço rápido e sem camisa. mesmo num grande silêncio. mesmo sobre a cama

ou sobre um trilho. dormindo dentro do espaço. cobrindo a rua com o antebraço

estendido. esperando a aparição. criando os jardins temporários da desordem. mas

uma coisa mansa. coisa densa feito susto. ou medo. coisa rápida como uma mente.

uma festa. ossos. ossos. uma festa rápida como ossos. e como sorrisos debaixo do

sol. gente gente gente. mãos desenhando o delírio. em todas as carnes. entrar e

sair de si. assim. feito mágica. rápida. ou lenta como uma onda violenta. e um

quarto escuro sem o nome no ouvido. sem fresta. uma nesga de luz. eu risco com

minha unha uma canção. uma palavra amarela sobre a pele. nas cicatrizes da

lentidão. como a lentidão do único, do estar-só. cubro com esse ouro pouco. esse

pó dos dentes podres. pra acender o quarto e quebrar algumas colunas. a última

lição: ouvir a reinvenção. se você prestar atenção não se divirtirá. seja um

idiota. não perca tempo com minhas costas nem com minhas mãos nem com o ouro nem

com a cicatriz nem com o líquido nem com a queda nem com nada. só dance assim.

nesse escuro sem nome sem companhia. dance sem olho. assim livre. e sem medo.

como se partisse do alto. como se rodasse desde a origem. como se caísse dentro

da vertigem. como se sangrasse pelo prazer do vermelho e fosse ao chão pelo

prazer das manchas. e habitasse uma falésia pelo prazer do vôo e da aurora. mesmo

dentro do quarto escuro sem nome nem ouro nem pele nem cicatriz. na dança escura

e aberta. a dança primeira. a última lição. dança. onda. dança. líquido. e dança.

bóia no espaço, na vértebra do ar. nesse buraco no oco no ventre nessa barriga da

sala, do escuro quarto. rasga com uma faca essa música e toma um banho dentro. só

isso. correndo na pele. sem caminho definido. como uma mão querendo tomar teu

corpo. uma invasão sem linguagem. com uma mudez doce um afago feito foice

colhendo a manhã. e pondo fogo na plantação. pelo prazer da dança. dos corpos.

nesse escuro do quarto. a última lição sem linguagem. sem linguagem. sem

linguagem. sem ligai aaheuç arar hawrewoh8 gt8 wye aethapwe8yt uht et8y9ty0

apwt78y0apw7tgpa7wegtp 3498yt p4tp ya´tar7aauma asda da asfa dança sem linguagem

asoiypaethpqae i. x. . y. o. u. dança. esse corte na linguagem diz. diz que aosi

haa çu açefawur. como numa guerra. eu ouço as coisas caindo sobre mim. como se

você se derrubasse em mim. ou girasse e caísse. em mim. no escuro. sem dança.

como numa guerra. ou num esconderijo com muito medo mas divertido. como um açúcar

cego. feito formigas comendo o escuro. o abismo de toda pele. as sombras. onde

piso onde aprendo onde ando onde invento onde durmo onde sinto onde saio. essa

geografia, nome novo na boca. eu dentro do território. do breu definitivo do

outro. cortando raízes com os cabelos. e lambendo os poros. e os cheiros.

primitivo. feito dança. e silêncio. e. linguagem. e . e . .e .e e. e. e. e. .e

.e. e. e. .e. e. .e. e. e.. e. .e..e .e..e. .e. .e. e.. e.e..e ..e.

.e.e..e..ee.e.e...e som. ritmo. essa terra de dentro. isso que nos faz. e. ou.

esse sexo mudo. e tudo.
essa noite eu sonhei que corria

num campo aberto. a grama rente

sob os meus pés e o vento gelado

me levando por aí. meus sapatos

se divertem nessas horas. eu fecho os olhos

pra inventar um percurso. minha queda

é um abraço. o chão tem maneiras suaves

de lidar com quem o ama. eu sinto

que têm pessoas me olhando. é nesse momento

que eu me seguro num pássaro

e acendo meu cigarro. e quando

passo por você eu seguro a tua mão. e a gente

voa por aí. num céu aberto. com o azul

bem rente.

eu não fecho os olhos

quando vôo.

nem os poros.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

é engraçado como ainda vejo teu corpo ao meu lado. eu guardo comigo esse teu

rosto acordando e a minha mão sobre tua pele. eu te carrego comigo. você parece

uma profecia estranhamente embriagada e eu me cubro de uma fé despretensiosa e de

afeto. eu não crio abismos pra te assustar. canto o teu nome baixinho pra dizer

que sou eu que te afago e falo teu nome. e isso eu não sei dizer sem milagres.

você ri e fica um pouco longe. mas eu sei que você me entende. você segura minha

mão e olha o meu antebraço. somos esse início. a abertura. um rasgão na aurora.

algo bonito e doce como os sons dessa casa. você já sabe meu nome mas ainda não

viu a chuva comigo. então vem e fica perto. vamos amanhecer. adormecer. com a voz

descansando no rosto do outro. nesse quase-silêncio nosso. sem nome. ainda

estranhos mas alegres. e saindo como o sol e o brilho da lua. um caminho que

desenho no antebraço. pra você vir ver de novo. e de novo. como a chuva que

cai agora sobre mim.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

escondido. ou escancarado como uma chaga. uma chama. ou esse abismo que somos nós

e que é todo mundo. somos nós nosso mundo. e nos abrimos e mentimos. somos

estranhos e únicos. estamos escondidos. um dentro do outro. debaixo da pele. no

mais azul do osso. e os teus cabelos. engraçados e negros. e sinceros como o

sorriso estranho e azul, dos abismos. sinceros como coisa escrita. como coisa

vivida por acaso e vontade. essa ficção noturna. embriagada. dois corpos são dois

abismos e trezentos desconhecidos no peito. eu estou no teu silêncio e você afaga

meu tempo. estamos aqui. fora desse frio e na aurora do entre, o diálogo, a

fronteira, a conversa, esse entre-deux, entre-dois, isso nosso. e inventado como

nossos nomes e nosso futuro. e essa música baixinha e a manhã. estamos aqui e

depois. expandidos. mergulhados no outro. e no silêncio. e no azul de todo sonho.

em expansão. recriando o mar e nossos nomes. eu me chamo x. qual teu nome?

posso ler tua pele? os sinais, o afeto. esse nosso útero.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

passeio pelos campos sem me perguntar
onde vou. sei que meu passado toca a sola
de meus pés mas sigo docemente e acompanho o sol.
você sabe o que isso significa? eu não
me sinto mal. você me pergunta pela trajetória e eu digo
que meus braços são lentos e profundos
como uma alma. a paisagem me corta. o verde
sorri como uma grande criança e me arrasta dentro
dos sonhos. velozmente. os vizinhos se vestiram
para dançar. a colheita irá começar. a moça vem
com um manto e abençoa os frutos. este ano eu serei
um rei. e todos saberão meu nome. isto é um milagre
e minha filha sai do futuro e cai em meu colo. suavemente.
como a chuva. então eu vejo meu povo sorrindo
e se abraçando. essa dança difusa do amor. e as árvores
são lavadas pelas lágrimas e pela felicidade. e quando
meu pai morre. tudo ressuscita. essa é toda a verdade.
em minha aldeia.

domingo, 15 de julho de 2007

eu tenho o coração
numa gaiola e não sei
o que fazer com o brilho
cego das facas

eu apenas vivo
e me bebo
encosto
meu ouvido
em teu ouvido

pois
também quero
ouvir a noite

e os grilos
que ficam
lá dentro
as praias
permanecem (lá)

eu imagino
nossos passos (lá)
caminhando de novo

e correndo
atrás dos cometas

e fumando
todo o mar (lá)

estamos
na mesma viagem

a gente
permanece (lá)

e se aquece (lá)

todos os dias
vamos
ficar
calmo
s
esorr
i
r
estát
u
d
o
certo
outra
v
e
z
um arquivo
ao acordar
se apaga

odeio
o rio
passado

novamente.
você tem olhos pequenos e
me deixa perto de seu coração
como se colasse uns pedaços meus
junto de você.

mas eu não entendo
nada sobre você e eu.

você tem olhinhos.
a médula
o verão

a moeda
o inverno

a mudança
o outono

a moça

a primavera
fico quieto
e risco
o céu

discreto
(com as
mãos no
bolso)

depois
apago
deus

ou
cubro
com um desenho
amo
as
coisas que
se apartam


e vão pra longe.

amo

as palavras

que se afogam
no banheiro do apartamento.

amo

os dias
que são quentes

e ficam fora do quarto.

amo

o s m e u s p a s s o s
no corredor e na cozinha

amo

os jardins
fora de casa

e amo

as janelas

amo sobretudo
as janelas
eu ando por essa avenida cheia de gente rápida e feia e pergunto pelo vento que

descobre meus cabelos e me deixa e pelo sol brilhante que aquece meus passos e

desenha o chão do meu caminho e que me deixa sem fala. eu ando por essa avenida

cheia de gente máquina e foice e respondo as moças no cio que me interrrompem e

me investigam e respondo as deusas que diariamente passeiam com os mendigos e

ficam loucas. eu ando como essa dor que passeia. eu ando como um improviso. um

sem-roteiro que adentra a cidade, nu de olhos.
sem sombra
danço rápido
como um cavalo

ouço o sol
das esquinas
como um santo

incandescente

e nu.
um gato
dormente
nos olhos

me sobrevoa
e eu durmo em paz
com espinhos
deixo o corpo aberto
num rumo sem rumo

na presença do silêncio
rabisco um conto

e tiro
os passarinhos do bolso
pra pintar o vento

a noite inteira
a noite inteira
a noite inteira

e vôo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

eu escuto uma canção por teu nome nos lábios.

a mesma porta sem trinco. girando como uma lua

furando nossos olhos. nós não estamos desertos. ficamos

por perto. assim num abraço. meu amor. tudo está certo.

eu eu você e as coisas. tudo certo.

eu danço com você na estrada, meu amor. tudo em volta está escurecendo

longe de nossa dança. somos frutas abertas debaixo do sereno ou uma rama

que se espalha pelos pêlos. um coração pra os dois. nós cabemos

nesse mesmo coração. como o amor. você escuta uma canção

por minha letra. eu escrevi mas não sei tocar. mas

você escuta o que passou e sorri. eu choro sem-fim.

sou um vagabundo sentimental.

eu vou pra longe desenhar teu nome. no chão da minha pele.

com uma brasa. vermelha como o meu coração vagabundo. esse sopro, esse cais

donde eu fico acenando pra tua lembrança. eu passo por teu sono

sem dizer palavra e descanso nos teus olhos e na canção.

e o meu coração vago anda por aí. só pra ficar longe

batendo contra o sol. guardando os passos. e a voz. tudo.

nessa canção. de andar.
o tempo e a véspera do tempo. eu trago os meus sapatos nas mãos e ando descalço.

eu lembro de ter dito que a loucura é uma grande ferramenta. mas você não

acredita em milagres e não pula. eu era um rei e era o amigo. eu era o amoroso

diamante e a chuva. um caminho expresso. eu andava descalço como se fosse uma

grande criança. eu olhava em teus olhos e podia ver o açúcar de tua alma. eu

podia te cheirar e ir ver o rio. eu refletia o sol e rodava pelas esquinas. era

como se estivesse olhando um oceano. minhas memórias favoritas. as ondas indo e

vindo. a tarde atravessando todos os corpos. um barulho. algo como um mergulho

dentro de um som. ficar coberto por um som. ou como se fosse um imã. algo

divertido. o tempo é uma grande ferramenta. não preciso ter olhos. eu tenho pele.

ando descalço e mergulho. esse jardim, esse pássaro. um vento que sopra mas não

se sabe onde. a vértebra. o desvio. uma queda. a água escorrendo nos troncos das

árvores. estamos nos dias das sábias lavagens. uma época, uma terra. eu caminho

sem medo e estendo os meus braços para as pessoas estranhas. todos olham meus

pés. eu caminho descalço. os sapatos nos bolsos e os diamantes. eu escolho a

vertigem. é como se eu corresse em direção a uma parede. e ficasse tremendo. isso

passa por minha pele. fica por debaixo. uma vertigem. o tempo de vender o que

está por detrás da tarde. as garotas que vão embora. depois de olhar o temporal.

o álcool incerto dessa noite. um diamante e um oceano. navalha. sem os dentes.

sussurrando. a história das pernas. e do caminho. é como se eu fosse uma grande

criança. nesse rio. boiando. ou corrente abaixo. parece que estou numa grande

teia. numa veia. dentro dos organismos. da vida. como numa respiração. me

sinto ligado às coisas. em seu calor. como se andasse com as mãos dadas.

e descalço. como uma chuva dentro de um quarto-escuro. como se eu tivesse as

portas para ir paraqualquerlugar. como uma corrente. descendo. por vertigem.

cobrindo as minhas costas e o meu rosto. lavando o meu caminho. eu dentro do

mundo. do mundo. guardado. em movimento. uma flecha do tempo. abrindo os espaços.

inventando o eterno. o fugaz refazendo o sol a cada manhã. um rio de diamantes

trasbordando. algo sônico. tenho as imagens na camisa. eu vejo os bichos que se

alimentam da distância. eu ando com eles. descalço. existo no dentro. no junto. e

fico me repetindo e dando voltas. pra dizer o que a respiração sugere. esse

vórtice. esse grito. toda palavra que está vibrando. sem-sentido. uma torrente

despejando seus braços sobre mim. eu tenho um jardim de cores. e cheiro tudo

perto do chão. e meu corpo é coberto pela água mansa da desordem. estou junto.

alguém fica esta noite com meu corpo. e eu ando descalço. e durmo no chão. a

grande chuva cai pelos meus antebraços. permaneço. uma fera se torcendo. seu

dorso de bicho dançando. permaneço. como um volt. rindo. animal de silêncio e

corpo. linguagem de água. o barulho primeiro. pintando as paredes de minha mente.

a canção aberta. seu ruído fundamental. um banho. essa voz sem grão. esquisita

como a de nossa infância. e como um sopro em olhos fechados. mas sem cinema. ou

linguagem. só o ruído fundamental. as pernas caminhando. e sumindo no sono. como

se o dia acabasse. e a gente fosse embora.
trago os abismos
no peito e você
se encosta em mim

queimamos nosso tempo
com os sorrisos
e nos sujamos

nas nuvens

somos raros
como um afeto
sem memória

e dançamos

l e n t a m e n t e.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

tenho dois pink floyds. eu sinto o vento gelado me cortando a espinha. é por

isso que estou aqui deitado perto de você. eu me esquento. eu cheiro o teu dorso.

um longo território de silêncio. eu tenho bastante tempo. tenho dois pink floyds.

eu comecei e não estou lento. estou só um pouco dormente. mas você me entende. é

por isso que eu estou deitado ao teu lado. você me entende? todocorpoquercontato.

eu quero tudoquesejaútero. é por isso que estou deitado ao teu lado. o calor

intra-uterino. como um grito lento. a mãe caminha suavemente e a minha pele vai

criando memória. os silêncios vão fazendo sentido. eu balanço suavemente, por

dentro. adormecido de vida. não-estou-fora. um dentro como um sonho. sem

linguagem. imagino coisa líquida como um sonho. uma coisa que flui. líquida como

um pensamento. não. menos denso. como um sonho mesmo. algo doce como a palavra

afeto e como um abraço. é justamente isso que é confortador. um abraço. essa

presença. algo doce. como a palavra afeto e teu abraço. essa intimidade. é algo

doce. é por isso que estou deitado ao teu lado. meu corpo e teu corpo. assim. um

abraço. algo doce. entre nós. somos assim: jovens e loucos como uns diamantes que

brilham. nós podemos ver os buracos negros no céu. nós somos jovens e loucos.

você sabe que é proibido crescer e desaprender o riso. é possível falar com as

estrelas quando se está assim: bilhando. como jovens. como loucos. como num

abraço. pois não é no abraço que se inventam estrelas? isto é um segredo. eu choro

para a lua. e eu sou jovem. como o esboço da noite. eu exponho meu rosto. jovem

como um diamante. um louco. eu me acompanho e permaneço por aí. eu me abrigo no

céu e em outras jovens. as. mesmo em silêncio e apartado. ou quando deito ao teu

lado. como num abraço. é por isso que eu deito ao teu lado, entende? é como no

sorriso e na palavra. como uma coisa rara. isso que não se diz nem se entende mas

que parece escrito por debaixo da pele. como a memória que se criou. o caminho

que se fez, por dentro. líquido. e por dentro. é uma coisa rara. sem linguagem.

como nosso abraço. o sorrisso é um abraço de longe. e de perto. e por dentro. ele

é algo doce. como a palavra afeto. como a repetição é doce quando sorrimos. ou

quando giramos. eu tenho bastante tempo. eu posso girar a noite toda. eu tenho

meus olhos e vejo a noite negra. eu uso os ternos feitos por minha irmã. algo

doce e negro como um corvo. ou como uma face. eu guardo meus olhos nos bolsos. e

te desejo boanoite. é por isso que eu saio do teu lado. mas estou contigo. mesmo

indo embora com a mente longe por duas semanas. eu posso te encontrar. e tenho

esquinas parecidas. como se nós fôssemos as pedras que continuam rolando. ou como

se nossos olhos se conhessecem como o instinto da pele, a memória. o útero, o

abraço. nos entendemos, não? como um sorriso e como a pele. como algo doce. e

elétrico. como uma colina com sombras. eu não preciso tomar banho sem as estrelas

nem guardar meus dentes pra noite. eu vejo o céu azul e as plantas criam a minha

mente. eu dobro as coisas e acredito que vejo. e cruzo o céu. cruzo o céu da boca.

é por isso que estou ao teu lado. elétrico. é porque cruzo o céu da tua boca. e

estou deitado ao teu lado. é por esse silêncio. por algo doce. e pelo útero. é

por isso que estou deitado ao teu lado. por teu corpo. é por você. pelo rio e a

memória que foi criada. como um útero. essa sombra. líquida e dormente. como o

tempo que não escorre. ou escorre e flui. é líquido. como uma espinha. como o

dorso. é por isso que estou deitado ao teu lado. é porque sou rio. doce e

elétrico. como um útero. é por você. sou um som. como esse rio que está dentro. o

sangue e o sonho. estão dentro e são líquidos. como o fogo pode ser líquido. é

como um sorrisso. é como sorrir. é por isso que estou deitado ao teu lado e não

choro. tenho sorrisos. é como se eu tivesse um útero. é como se fosse você. é por

isso que você está deitada ao meu lado. eu sou um útero. eu sou um rio. o tempo.

eu escorro, líquido. como um sonho. e também estou dentro. é por isso que você

está deitada ao meu lado. é como dormir. ou um sonho. algo doce. e líquido. um

útero. algo elétrico. o cio. dentro. é por isso que estamos deitados.

assimjuntos. só temos dois lados. elétricos. e doces. e sorrimos e nos abraçamos.

temos o dentro. o sangue. o rio. e o útero. tenho tempo. temos tempo. somos

líquidos. como o rio e o sangue. e elétricos. temos dois pink floyds.
não tenho pátria. sem geração. ando só. só como um lobo. não estou aí nem aqui. eu não estou. como um lobo. só corro. não sou. um lobo. viro as esquinas. eu queimo o caminho. veloz. feito um fogo sem rumo. e sem fogo. eu não insisto em ser alguém. só corro. como um lobo. ir mais longe. o que eu posso andar. correr. todo o silêncio. esse dia. a bola do sol. estou só como um lobo sem sol. por que? não devo acreditar em nada. como um lobo. eu só devo mostrar os dentes. mostrar os dentes e afastar as pessoas. como um lobo. armado. mostro os dentes e recolho a alma. sem pressa. numa festa de dentes. e sangue. desalmado. como um lobo. como um azul magro. ou fosco. como a epiderme riscada pelo fósforo. liberados! o ar me cria como um lobo ou um lagarto que procura o crime. como um bastardo. um sem-sono. sem nome. um que não dorme. nem perto nem longe. os olhos abertos e os dentes à mostra. em toda a carne. a pintura. como diversão. como uns sapatos indo pra lá e pra cá. como alguma coisa roçando o chão. como as calçadas e as avenidas da cidade. essa violência. essa coisa da pele e do vermelho. todas as drogas e nossa felicidade. tudo na farmácia violenta de nossos corpos. eu lembro um lobo em tuas unhas. a noite me engana e eu corro dentro de você. sou violento. violento como um lobo. e cínico. eu gero o sol que entra nesse quarto. eu gero meus inimigos. o que está podre (não) tem razão. não quero a súplica. escondo meus dentes e minhas patas. minha cara é uma história. os irmãos não sabem das feras. eu sou um lobo. essa noite eu vou correr. riscar as ruas. ir por aí. como um espírito. sem espírito. como uma cabeça. somente a razão. ou um corpo bem assim. como se fossem os pés. indo. indo. in do. i n dd do. sem onde nem quando. como um espírito de porco. cruzando a repetição. e as ruas dobrando nos mesmos nomes e nos mesmos instantes. com um som estranho rodando na cabeça. imginando as curvas. uma boca enorme e outros espíritos. como um grito primitivo. somente um grunhido. um sem-sentido dada. avante. uma ave sem nome e sem pluma. apenas gritando. apenas. um a. um u. algo em torno da garganta, de dentro da garganta. sem hora de acordar. só o sol desse a desse u. um a. um u. aa uu. assim mesmo. de dentro. das dobras da boca de dentro. esse estômago. um a e um u. isso. um grito. de ficar cego. um a. um. um lobo. corre. um a e um u. a hora de gritar. correr. um lobo. um a e um u. um risco. esse horizonte. lá na frente, esse tempo. um a e um u. assim mesmo sem tempo pra respirar. só olhar ou correr. cruzando todas as ruas. e destruindo as igrejas com um sonoro não. um a e um u. basta pra dizer que não gostamos de bispos, padres, madres nem freis. somente um a e um u pra dizer que não gostamos do papa nem da frigidez. não gostamos da igreja. temos só a pele, os dentes e os ossos. o corpo o espírito de porco. não gostamos de deuz nem do amém. não. um nó. é um templo. a frigidez. os pés amarrados. sem festa. sem corpo e sem pés. eu não tenho religião. só. só como um lobo. eu não gosto. só de minha pele, meus dentes e meus ossos. depois o pó. o não.

terça-feira, 3 de julho de 2007

fiz
um
poema
concreto

bem
a meu jeito

com
palavras que gos
to

como açúcar
e música

e com teu
nome



pra
dizer:

que

ainda toco gaita

(e)

como
você

quinta-feira, 28 de junho de 2007

terça-feira, 26 de junho de 2007

calmo. e extremo

calmo. calmo porém extremo. é suave como há muito tempo não sinto. eu estou com você. eu

sei. e você de se encostar em mim e abrir o seu sorriso e não pára de falar contra o sol e

ao telefone. tudo desliza lentamente sobre você e eu. tão lento como nosso tempo. como

nossas mãos. o pensamento que nos atravessa. é calmo. porém extremo. eu vôo. e você se sente

como uma grande montanha e se assusta antes quando eu caio. eu sempre caio primeiro e

procuro ao longe as chamas que me atraíram. eu espero achar alguém esta noite pra procurar

comigo. nem que seja lentamente. como deve ser lento. eu procuro. nós procuramos. o que se

faz? lento. lento lento e já vai longe. e me diz. o sul desse tempo dobrando a esquina e

desamarrando nossos sapatos. eu posso ver seus movimentos. mesmo à noite. e eu ainda sinto o

teu cheiro. esse perfume novo, essa imagem. essa voz já está lenta. como aquelas que a gente

escuta só na mente, com os olhos fechados. você sabe? mas sempre tem uma música de fundo.

calma. lenta. como a chuva. esse tempo. esse breve silêncio. a música fala de nós e de como

a vida é extrema e delicada como a vida acaba em nossos rostos e como nossas canções podem

ser tristes e em como nossos antebraços estão abertos. nós temos o sol. quem caminha conosco

descobre esse perfume esse horizonte essa fresta esse rio dormente essa gente adormecida

como a noite. tudo é silêncio e esse sopro é só o som sem voz. o grão do sentido. o mínimo.

nossa menor comunicação. esses agudos. esse doce agudo e esses graves. principalmente esses

graves. toda a nossa boca. e as noites. noites. diavirá. tenho uma teoria sobre a chegada do

dia. sobre a aurora, sobre as ruas, sobre as luzes, as cores, os cheiros. eu acredito. eu

acredito em teorias que invento. eu peço o que me agrada mas eu também estou lá. eu vejo a

segunda face. esse quadro eu não interrompo com os olhos. como permanece. aceso e detrás da

coluna de fogo. é como aquilo que se esconde entre um sonho e outro. fica entre o fogo e o vôo.

como uma semente em sua vida interior. como a segunda face. eu desejo a segunda graça. como

se eu fosse voar por sobre toda gente que conhece e como se eu não parasse na dor. você

acredita? e vem? eu tomo um drink com você. a gente toca fogo nessa noite. eu posso te ver

em casa. dessa vez. como um fogo que refaz a noite. como um bar sonoro. é dentro de teu

corpo que eu durmo. essa estrada. o zen contra a chuva. eu amo as coisas. as coisas não

permanecem. e ninguém vê. eu ouço meus sorrisos pois não estou perto. as coisas boas são

como uma grande fábula. essa história. a história desta noite. mas eu não sei dançar. Você me

leva onde quer assim, eu sei. sei disso. finjo também. eu continuo com os meus pés suspensos.

isso você não vê mas eu posso contar num dia de domingo. eu descubro algumas flores em tua

pele e escuto esse poema escrito em teu corpo. teus cabelos são os sonhos desta noite. são

negros. e dançam. eles caem. dançam entre os meus dedos. acima das horas, como se fossem

suicidas ou pássaros. eles caminham sobre os sorrisos que te distribuo. as coisas falam de

mim e eu me comovo. você está linda está noite. vamos cantar uma canção? me acompanha. eu

também vou escrever a letra. me acompanha. essa esquina o século a rebelião e os processos

do tempo o vento que não se move as nove noites da praia e os ônibus que descem leves pelo

céu. é disso que eu falo. em silêncio. mas eu imagino que você percebe. as minhas mãos são

um oceano de segredos e linguagens. você no céu do norte. eu tenho um longo tempo longe dos

teus passos. eu não caminho para o azul. mas sou como uma onda que se arrebenta contra os

muros das vanguardas. essa liberdade eu carrego como um raio na boca e outro nos olhos. você

deve ter visto e se aproximado. você parece com esse inverno. ou como o cinza aceso das

emoções. é preciso estar perto. como uma fênix. ou se espalhando pelo chão desse céu do

norte. eu caminho. nunca estou perto o suficiente. mas a véspera é sempre alegre. eu sempre

estou. eu me demoro. eu crio o som dessa passagem. essa vértebra. escuta. esquece os olhos. o

cheiro. escuta. na derme, escuta. viu? essa memória da pele acende. basta encostar. é como o

acaso. basta ter os antebraços abertos, os braços abertos. é como um afago. como um útero. já

imaginou uma coisa como o útero? eu queria dormir com você esta noite. eu escrevo histórias

com os nomes que estão perto de mim. o teu. o teu tem histórias. você tem idéia? não. não sabe.

mas dia desses tu lê. pode ter sido agora. o que tu acha? seria legal se tu soubesse o nome da

música. diz. só tem uma resposta. diz. então? isso. é tempo de estar junto de mim. me arrodear

com seus olhos, dobrar meus sonhos e cubri-los com a minha mente. é tempo de estar comigo,

correndo pela noite. como num dia de chuva ou numa floresta imaginada. como as ondas

curtas. como podem ser? é tempo de voar livre e nu. é, já disse. tempo de estar comigo. você

consegue me entender. eu não sei falar de outra forma. eu só mudo os tons. e eu gosto de verde.

e de gaita. ah, claro, eu gosto de te ver. e também de escrever e mudar os tons. de sentar ao teu

lado e mudar os tons, as peles, os tempos. é como revirar a terra. como cavar o dia e levantar

uma árvore com os dedos. é tempo de estar junto de mim. recolhe em meus olhos teu cansaço e

teu medo. derruba teu corpo contra meus braços. é tempo de estar comigo. você escuta essa

canção e fuma comigo. estamos nesse mesmo oceano. eu te abraço. é tempo. umbeijo. começa

outra música. eu deixo os teu olhos me dizerem uma teoria para o dia de ontem. e outra sobre os

dias que seguem. mesmo aqueles de chuva. os dias sem-tempo-certo. me conta sobre os teus

ossos. e sobre tua infância. e sobre todas as vezes em que você percebeu que era você. assim.

como? o eu. o teu. isso. esse outro de mim. esse tu. conta. é bonito de se ouvir a tempestade

cobrindo os lírios. correm e dançam como se festejassem o dia do rei ou a grande colheita. como

um deus numa ilha. só. partindo de um lado ao outro da liberdade. sem vigias. o sumiço do outro.

o silêncio que é pra mim. a noite vem vindo como se o dia se fosse. eu vejo o fogo crescendo sobre

os montes. eu me vou. num giro. ou no rio. e você, vê o dia indo embora? eu vou caminhar por aí.

você vem? me acompanha. segue a música. é como um pássaro surfar. é simples. você pode até

ver. eu não duvido. é rara. é simples me seguir. eu sempre estou aqui. e caminho por lá. você

vem.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

I

tenho
uma teoria
sobre o alecrim

sua presença frágil
engolida pela noite
sua rebelião discreta
e o riso aberto
seu perfume aceso
como uma brasa
contra o céu.

II

tenho
uma teoria
sobre o alecrim:

afeto e silêncio.

sábado, 23 de junho de 2007

ai tupi or not. eu sou um garoto. até amanhã. quero gritos, o sexo esquisito contra a fé no amanhã. eu não me espero até amanhã. o que faço, como volta, o que faço, como volta. o garoto gordo me espera do outro lado com seus dentes abertos, loucos, seus dentes, sua raiva. as pernas falam, passam sobre o tempo. ou dançam. as pernas dançam. um terror. as pernas dançam. mas eu grito. eu grito. acredito nos ossos. só sei que os olhos sabem do que se esconde. se estiver sozinho eu não falo nomes. o a. o aaaa. o aa aa aaa a a. eu preciso de mais tempo. você se recompõe com os seus amigos. é possuído que vou loonge. se escurece eu quero tudo. a garganta. o túmulo. a queda. o escárnio. o que foge. o que brilha. o que diz que eu não passo. que eu não prendo. que eu não prenso as coisas. que se fazem contra o tédio. eu não sei do tédio. tudo gira. tudo gira. quando as palavras serão ossos. pergunta. é preciso criarmos o dissenso. serei uma maça podre. a margem. podemos mudar de assunto? a pergunta. o sinal. o sinal que fala da pergunta. esse silêncio. exatamente. o que se faz com o ódio. o que se faz. eu me perco. os dedos. o que escapa. aperto esc. esc. esc. esc. correr é uma coisa de não se desaprender. o que se faz, corre. eu sei. o susto que tomo eu tomo. o que escapa. como um assassino. o que se diz das palavras. o que as palavras. se me seguem como um ramo. como o sol. como os olhos. se movem com o que se quebra. eu preciso de rochas. como o que se quebra e desfaz. virá. contra a palavra. o que parte. o que é um sim. é tudo muito real. eu não aprendo a só perceber. se encolher num vôo é quase voltar pra parar. o salto. o susto. o sussuro. é como brincamos de rir. e ficar louco. ficar louco é tão absurdo. absurdo e comum. o que faz sorrir quando escrevo. o que não escrevo e fica só até onde vou sorrir. fica comigo. esta noite ela fica comigo. a palavra. a segurança da boca contra o abismo de existir. fora. no espaço no e s s s pa aaaa a a ço. o que voa. fora. dentro do longe. habitar o longe. o que se esconde no horizonte da boca. digo sim. falo das coisas que se vê no céu. tudo é real. às vezes até o meu pensamento. como um grande sim. destava. eu páro. posso por abaixo tudo que digo. o que sobra. o que fica na senda, o que o incêndio fabrica. segue. o que é caminho. eu tenho medo das ruas. não tenho medo das ruas. eu tenho medo das ruas como eu não tenho medo das ruas. a dor. o que penetra. fere. faz. fica. fixa. foice. vértice. desenho. mão. tudo a mão alcança. tudo que não pensa. isso é muito feio. isso aí. isso. você já saiu com isso. eu corro. eu corro. eu invento e toco fogo. eu destruo contra meus braços. eu distraio o tempo. invento sombra e pernas. você vê tudo que está atrás de você. geração. não tenho geração. eu estou só. e é tempo de estar só. eu me mexo. deslizo e caio no ar. passo as férias. dentro. mergulho. sou todo política. investigo. como um trilho. eu gosto de você como um trilho que sempre está lá. eu vou passar por aí. pisarei por aí. neles. neles. neles. eu durmo depois de você e sei do que fala. o sono. essa guitarra líquida. essa vértebra. o que como. que costuma cair. criar. cia. o cio. o ócio e a revolução. o que a boca alcança. só acredito em revoluções que alcanço com a boca. estou quente. e nas ruas. estou quente e não descanso nas sombras. passo férias na coluna. me dispenso. o poente. o presente é só um passo. um além de si. algo assim. o que cresce. o presente é o caroço. o grão. o que cai. a a queda. do alto. e rápido. como se o rio descesse sobre tuas colunas e não te despedassassem mas só te levassem por aí. uma viagem. o que se diz pra domingo. eu corro pela cidade pra comprar flores. eu não compro flores à tarde. a noite tem coxas e a pele está lisa como o céu. esse azul. azul estúpido. sem direção. um azul sem direção. é exatamente isso que não gosto. um azul sem direção.

domingo, 20 de maio de 2007

e perco horas com o silêncio.

e penso que sonhar é pouco.

como estender as asas para ir se deitar no horizonte?

acho que esqueci o rosto de minha infância.

(as fotografias espalhadas sobre a mesa não falam de mim

suas luzes acusam outro universo

imagino que se trate de antimatéria)

as longas noites como abismo passam se não pouso os pés.

(que disse? me reviro sobre a cama e mergulho no outro de mim)

vou deixar as palavras entre os lírios para que o sol as alimente

dentro da alma que irei inventar agora.

Bum!

não me esperem (eu digo isso pra mim).

--- correr, correr, correr

vai, menino!

é preciso perder o medo do acaso

do sorriso e da garganta do futuro

(entro em espelhos, meus olhos se tingem de segredos

comungados por sussurros. desejo que me escutem)

pular para (...)

# estar-no-mundo

Benção para um Lêmure

que tu acenda o verde de todos o séculos

que a tua cabeça tenha ninho de coração

que tu aprenda e desaprenda por prazer infantil

que tu vá e volte

que tu seja

que tu alimente um pássaro perdido

que tu alimente um pássaro achado

que tu fale com crianças se levantando até elas

que os velhinhos continuem sendo brilhos nos teus olhos

que buda seja uma flor em tuas mãos

que tu invente o dia

que a lembrança de tudo seja boa

que o sorriso seja um doce, um brigadeiro

que a palavra acerte e erre

que a noite também seja tua amiga

que tu não olhe o horizonte com indiferença

que tu saiba das plantas, ainda mais

que tu sinta das plantas, ainda mais

que tu seja junto com os outros animais (inclusive comigo)

que tu não adiante o tempo - só o entorte vez por outra

que tu ouça o rio da felicidade - mas saiba mergulhar e não morrer afogado

que tu permaneça voando por todo tempo

que tu acompanhe a partida das velas

que tu pise nas nuvens e dance em cima dos muros

que tu se reinvente, sempre

que tu esteja em paz


que tuas mãos sejam ágeis para amar e tardas pra odiar


que tu não dê a outra face, mas saiba dar uma gargalhada


que tu acolha o pequeno príncipe no teu coração


que nas tuas costas nenhum deus se atrapalhe (nelas só o vento)


que tu dê as mãos a muitos deuses e a muitos humanos


que tu aprenda com estranhos sobre a possibilidade e sobre o acaso


que tu tome sorvete só por que é frio e engraçado


que até chegue a encostar o sorvete na testa


que pedro seja mais velho que tu


que tu vire água


que tu seja um lago, à tarde e pela manhã, uma cachoeira


que seja tudo - até o brega


que tu perca o medo do brega e do trivial


que tu se suje de cotidiano - mas cotidiano sublime


que tu enxergue a ponte que liga os seres humanos


que tu me perdoe


que tu esteja lá


que tu não olhe o sol com tanto raiva ou tanta coragem


que coloque as asas de cera


que tu tire as asas de cera


que tu escreva e não escreva


que tu vá


que tu se enrole de futuro - mas viva pra agora


que tu se despeça dos relógios


que tu se atrase


que tu saiba dormir e saiba acordar


que tu goste de beber água


que tu goste


que tu aprenda a fazer comidas boas


que tu ressuscite o afeto de todos


que tu seja tu


e que, repito, tu vá

aí seremos abençoados

pela noite e pelo dia

por todos os pares

por todas as faces

que tu caminhe sem pressa, mas sem demora

e que tu carregue papel e caneta - pra me explicar o mundo,

por teus olhos, por teu cinema

e que tu adormeça na vida e acorde na vida


e que tu OM


OM

OM

OM

(...)

por meus poros

por-me us poros

p or me usp oros

pormeu sp oros

p o r m e u s p o r o s

po r meu spor os

p orme us po ro s

pormeusp o r o s

p o r m eu spo ros

porm eus p o r o s

pormeuspo r o s

pormeusporos

põe as auroras

sobre a mesa

enquanto toma

um café amargo


devolve a luz

que o horizonte

deixou embaixo

dos lençóis


apaga a palavra

(rejuvenesce)

escrita dentro

da terra

e mergulha

na garganta

das passagens


apodrece e

cria os musgos

que não sabem

de teu rosto

ouço

o que roço


/ ruído

/ palavra

/ barulho


todo som

tem pele.

estamos

no Monte da Aranha

e vemos o mundo.


acima do tempo

nossos avós

se divertem.

debaixo do rio

nossas crianças

invertem

o curso

das águas

com sorrisos.


a terra é uma benção

e estamos

dentro

de sua respiração.

e o cheiro do sol

cobre

de ouro

meus olhos.


e a órbita do breu

é breve

e escorre

por meus poros.

não ilumino a noite com

todos os fogos o fogo.


a cabeça pousa

numa pedra:

a rebelião.


esse silêncio

que resiste e

se aninha no

ventre:

a rebelião.


desrumo

atravessado

de inícios.


não.

atiro contra o céu

o peito aberto

o sangue a

gengiva e

todo medo

é sobre

os escombros que

caminho

toda ruína

é imagem.

domingo, 22 de abril de 2007

e me escondo em silêncio

pra florescer

além desta noite

serei a mágica de algum deus-menino

me universalizarei de máquina

assumindo o lirismo difícil das manhãs

(é o futuro – fechem os olhos)

a primavera me assusta

com seu perfume

inesperado e novo

minha alma não sapateia

eu preciso

abandonar o velho corpo

e tocar fogo em minha cabeça

para acordar

o século e atrair

os leopardos


Segundo a crença mais comum, divulgada pelo livro lunar, os seibás eram crianças que caíram do céu, provocando histeria nas pernas dos deuses mais espantados. A queda fez com que suas palavras ganhassem um doce vento azul, o mesmo do estômago da origem. Desde então, fala-se que os seibás desinventam a memória que o sol cria no corpo. Usam profecias de acordo os espíritos de ontem, mas olham para o futuro como se o próprio-fosse quando. Para as mentes sem delírio, os seibás eram apenas visões rarefeitas na parede do século ou flores que as mãos não sabem desenhar. Raramente se atinge um consenso sobre os registros deixados pelas coletividades seibás. Os animais se esforçam por. Os seibás caminham no rio, diz o Cristo. À sombra constroem, diz o Buda. Krishna geralmente fica em silêncio rindo ou dançando na lua. Do canto da cabeça, os seibás.


fico assim

de silêncio comigo mesmo

domingo, 4 de março de 2007


Caminho com os pés suspensos e sem controle. Às vezes eu desmaio nos trópicos e quero ver a pele mansa da desordem. Estou certo em fugir pelo rio e eu quero as flores de tua consciência, mas eu sei do riso do céu agora e deus não tem pedras nos bolsos. Bebo água e ouço o rádio. Eu durmo com o desenho de um fio que percorre minha cabeça. Você sabe fingir. O orgasmo dos olhos se revirando entre as janelas me aponta a saída do sol e o quarto das horas fica lotado com teu adeus. Nunca sairei dessa cena, ficarei me movendo como uma mão sobre a navalha.


Cometas atravessam meu cérebro e as horas me consomem como o fogo de tua pele. Uma multidão destrói meu jardim e eu invento um raio para me refugiar. A tua canção faz sombra e meus ombros te carregam por aí. A lua morta é uma pele sobre o oceano e você me entende. Eu escrevo sobre pássaros e mulheres e o tumulto me desperta com uma bebida velha. O tempo fica preso no olho do cachorro que atravessa a rua sem medo. Essa calma me atinge e tua boca revira meus ossos. Eu não esqueço a voz das esquinas e os sapatos sabem que são insignificantes.




eu quero o verde de todos séculos.

tragam rosa
colher na boca e outros poemas
o silêncio dos minerais azuis
e o abraço cego
do poeta aproximado

acendam um lampião
e risquem a minha cabeça
no chão da linguagem iluminada

bebam o vinho sangue
essa palavra doce
que escorre cedo
pela foice da lembrança

durmam longe da noite
na véspera do abismo

eu ficarei
no incêndio




tempestade
música de Satie
pela metade






estar nu
nu como um dente

estar coisa
cio S/A

estarestar

estar éter
quasar


eu sempre
 
eu sempre sei //
da sombra //
do cio das coisas //
e mais
 
eu sempre sou //
aquele azul //
o corpo nu //
e a paz
 
eu sempre saio //
invento um raio //
ilumino a noite //
e o cais

meu bem
 
meu bem, meu bem /
eu fico zen /
dançando sem /
você
 
meu bem, meu bem /
a noite vem /
não fico sem /
voar /

meu bem, meu bem /
você mantém /
sua pose, sem /
saber sambar

meu bem, meu bem /
você não tem /
suíngue nem /
a manha pra /

girar /

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Não é um suicídio

O jovem acordou

Da noite de insônia.

Escovou os dentes

Saiu de casa

Deitou-se na linha do trem

E pensou:

- Enquanto ele não vem, estou vivo!



Perdido

entre não ter asas
e não saber nadar


deixo na boca
a sugestão da tempestade

lúcido como uma navalha
só ponta

anoto
os haicais
da chuva

e recolho
o horizonte
do antebraço

estendido sobre o cais.

sábado, 3 de fevereiro de 2007




!vai dormir vagabundo!


# e entre um copo e outro de vinho ficava me girando pra saber mais.e caminhando um pouco além

nas explosões daquele vagalume-que-circula-nas-mãos redesenhava os lugares da cabeça. sabe aquela risada? não me controlava, era impossível: o perder-a-vista na praia, o vento no rosto e um assombro de idéias rápidas na mente. um dia desses ainda mergulho e fico num universo singular, paralelo a tudo, inclusive a mim. de triste só não ter força pra escrever quando me vem esse espírito-matéria. de esperança usar essa orgia-transcendente-imanente esse fruto-da-terra-dos-não-deuses como vetor pra minhas fogueiras. essa imensa gargalhada vai dando lugar a um sorriso lento (fosse assim perene). e dentro de mim, ainda o incêndio de avatares e coisas comuns a dança surreal de engolir a noite, apagando as palavras. diabo de não resistir ao silêncio e ao descanso mítico que esse pássaro me proporciona! desço ao sono, me entregando aos braços de dioniso e às pernas de gaia. me recolho ao útero-de-sempre, pra nascer pela manhã pronto pra sonhar de novo, sem o rosto sério e o relógio adiantado do des-trabalho mundano. assim vou, dormindo pra levar a vida: um leve rio de mim.

da matéria


Antes da queda: queda

Resgato enigmas em meu ventre.

Meus dentes escrevem o futuro.

A ciência não saberá o que digo.


Não sei o que digo e finjo

e uma parede de ilusões

desaba sobre mim.


A garganta esconde o grito

e meu sangue disfarça

a poeira de estrelas

de que sou feito.

A fêmea

Seu cio

Será céu?

Os anjos não sabem.

Brincam de luz.

Amenidades

Tempo de sol tempo de chuva

Tempo de sol de chuva

Tem sol em chuva

de sol

e só chuva

ssssssss chuva

chuva

caindo lá fora

(bom pra dormir)

Queda


Preso

Às rudes amarras

Da gravidade

Cai do alto

Meu corpo

Dois minutos.

Sonhar o pássaro

Que eu nunca serei.