segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Depois de tomar algumas garrafas de uísque blake label
Terceira garrafa: as visões do rio, o ruído do rio. Ouço tudo que roço, todo som tem pele. Visões da garota que se matou e o poema da garota que se matou. Sidarta quis morrer e ouviu o rio: Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm. A respiração de Brahman. A vigília, o sono e o sonho. A linguagem do absoluto, do universo: o infinito deitado. A garota se matou. Carne e osso, não há nada lá. Somente o devaneio da visão, apenas o devaneio que rasga o véu de maia e nos diz que estamos lá onde não há nada ou apenas um passo antes do abismo. A conexão com o outro, a conexão consigo, a não-conexão, a confusão, a fusão, o são. O sim e o não. O não. Como no koan do imperador que sonha ser borboleta e da borboleta que sonha ser o imperador. A lucidez de quem está para morrer, a morte de quem não delira. Como a sabedoria da pele e a corrupção do tempo. Os animais estranhos e o desajuste: tatear o lugar no mundo, a (r)existência do sentido e a vertigem do desencanto. O poema da garota que se matou e a experiência da garota que se matou, a cristalização da garota numa fotografia e a voz da garota numa fita magnética. A garota não está aqui. Outra garota virá. Eu não estarei aqui. Outro garoto virá. E.
Quarta garrafa: Uma garota dormindo. Outra entra no quarto em silêncio, na ponta dos pés. Elas se comunicam, um diálogo silencioso, como dois animais que, como dois animais quando. Escrevo um poema, escavo um poema. E logo a poesia bate asas e cria mundos. Leio um poema e rapidamente a poesia ri e fica muda. A poesia é uma orgia, um êxtase: um caroço da experiência na membrana verde do espaço. Leio Blake: energia é eterna delícia. Blake vê o infinito numa flor selvagem. Eu vejo Blake num copo de uísque e observo animais que buscam o rumo de árvores com frutas alcoólicas. O animal sem nome pintou poemas nas paredes de Lascaux. Ele viu animais. Um velho xamã pinta seu tambor cósmico e me diz do frio, do rio e do raio. O xamã toca o tambor e uma águia mítica paira acima de sua cabeça. Um homem moderno cata uma gravata e uma pedra paira acima de sua cabeça. O poema fala da pedra e da águia. Eu vejo os dois animais no espelho (eu e tu), vejo todos eles e imagino meus ossos. No bar, uma garota sorri enquanto escrevo e derrubo outro copo. À noite, falamos de Pessoa, de Blake, Shakespeare, Plath. À noite não falamos e. A poesia é o jogo, a engenharia construindo pontes, a carne habitada, o orgasmo. A garota diz que já subiu uma montanha enquanto sobe em mim. Depois lê um poema sobre a montanha: projeto meu rosto com pedras. E de repente a experiência de subir montanhas me parece com um respirar ofegante. A poesia e a experiência da poesia. O rio de palavras destes animais. Rio da palavra destes animais enquanto escrevo e rio de mim mesmo. Um poema, mesmo. A experiência, mesmo. E o silêncio: alguma imaginação. Algumas garrafas de uísque dizem o mundo que leio num poema asteca, como um vadio animal estranho. Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath estão mortos. A experiência de Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath está morta e renasce: tempo mítico, cosmogonia, via linguagem. O poema, o corpo do pouco que permanece por aqui, entre os lírios que ainda não foram queimados pelo tempo, entre os leões que nos arranham os estômagos por dentro. Ponte, parte: poema do parto: a turva visão do que foi, do que o tempo rói, a revisão do que dói. A minha experiência no mundo. Ou ficar mudo. Ou tudo. Ou tu. Absolutamente eu e tu, em tudo. E no nada. Nonada. Andada em bando. Quando? Não sei e ando, ando, ando, lendo e revirando os ossos da experiência do bando, os que viram a carcaça e já riram, sumiram nus. Enquanto não morro, ando. No bando, com sol, chuva ou nublando as nossas cabeças com o como, o porquê, o quando. Nu, ando.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
poesia: técnica do êxtase
como um leitor:
com as possibilidades
do incêncio
possesso
como uma pálpebra
coberta de árvores.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
o tempo escorrendo como uma noite doce, meu bem. meu olhos reclamam a noite e o lugar, falam do hotel perdido no tempo: feito o sono: o coice da lembrança mais distante.
fiquei com esses versos na cabeça, desde ontem - não sei muito bem o que isso significa, ontem é muito longe daqui. eu apenas lembro que ouvia os irmãos tranquilos, os que cantam suavemente:
os irmãos soltavam balões. eu ouvia esse pássaro melancólico e escrevia numa só respiração.
poucos dias têm sido assim, penso.
escrevo bem pouco, como se fosse o velho chinês com sono, subindo montanhas.
não tenho me alimentado.
preciso de um gravador, comprar fitas k-7.
preciso organizar isso tudo.
sábado, 21 de junho de 2008
abre a noite e reparte
alguns sons sobre a mesa
colocada na esquina
a senhora v.
olha o céu-acima
e volta a lembrar
do dia
sangue, alegria arriscada
canções da tempestade
invandindo o corpo duplo - a carne,
território sob a chuva colorida e rápida
do prazer: as vertigens, as vertigens.
assombro
circulando a brevidade
dos rostos sérios
desvario,
a dança desacordada,
a senhora v.
à deriva, num devir
ensolarado entre as pálpebras
de animais lentos e calmos
a senhora v. corre
e toca as passagens elétricas
das artérias do tempo: a febre, a mente.
o mantra espontâneo
da pele, das pernas
cobrindo a paisagem azul e nova:
a senhora v. não-dorme.
sábado, 14 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
com seus dentes cheios de tédio e raiva
(a agressão delirante de um dia qualquer).
a noite suja dentro da cabeça
rodando rodando rodando rodando
pessoas caindo
sobre o asfalto
de ontem
os carros atropelando
os sonhos mais simples
a vida seguindo
cometas absurdos na pele
do tempo
meus dedos
tocando sóis distantes
cheiro e calor, fúria dormente
da estrada.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
ps:sp XII
de estar cego
e saber o cheiro
a fome
de relâmpagos
pintando a pele
ouvindo
as sugestões
do infinito
pelos poros
devastando
o quarto e o sossego.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
ps:sp X
uma oração lenta
meus lábios
sussurram
alguma blasfêmia
sobre o acaso
delicadeza
e assombro
sobre as mãos
riscando
poemas obscenos
na medula.
ps:sp IX
descendo lentamente
pelo território
de minhas visões
sem dor
ou violência
azulmente
como as histórias antigas
e grandes poemas.
sem data.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
sábado, 9 de fevereiro de 2008
ps:sp VI
um poema
pra retirar
do calendário
uma moça bonita
e sair por aí
com ela
a esmo
delisiosamente
ociosos e tranquilos.
ps:sp V
uma música no rádio
ou um peixe azulado
no rio
ela
aparece de repente
com uma chuva
desvairada de alegria
caindo
sobre mim.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
ps:sp II
a órbita
do sol
em meus olhos
paisagem aberta
como uma canção
improvisada
um jazz
repentino
e alucinado
cavalgando
no peito.
domingo, 27 de janeiro de 2008
ps:sp
sem aviso
inesperada
e doce
como um jardim azul
acesa
como os sonhos
que vêm de longe
e o horizonte.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
anotações sobre ruído, loucura e afeto
espero que tenha encontrado o bilhete com o poeminha
por debaixo da porta -
poeminha que realmente te fiz, com açúcar, com afeto.
imprevistos.
te mando por aqui algumas anotações, algo que escrevo
por necessidade e vontade.
te mando por aqui alguns lampejos sobre ruído, loucura e afeto.
alguns pensamentos não necessariamente ordenados.
tem uma amiga minha que está em griva. griva.
uma pessoa com quem troquei e vivi boas experiências
sobre isso que é entredois. com ela comecei a exercitar,
vivenciar o que chamo de afeto.
ou liberdade. e a palavra, a necessidade da palavra.
explico.
uma das coisas que ela me falava era justamente isso:
o ruído é a pior forma de incomprensão,
a vida explode sempre no mais além.
é preciso falar. é preciso compreensão mútua.
não sei o que você pensou ou está pensando sobre o que fiz.
sei apenas o que penso.
e é justamente por desejar compreensão e não ruído
que falo/escrevo.
minha relação com griva é uma coisa sem nome e bonita.
é justamente a tentativa dessa vivência de algolivre,
algomais,
algonovo.
não somos nem fomos namorados (nada contra o namoro, mas não é o caso).
ela sempre esteve com outras pessoas. eu também.
ela sempre esteve comigo. e eu com ela.
a gente não delimitou o afeto*.
(*afeto: está com griva, em griva, justamente um livro meu
que emprestei pra ela e que trata justamente disso, do afeto.
o ser humano busca isso, o afeto, esse útero-aqui-fora.
eu não acredito no "único", assim como não acredito no "todos" -
o que penso, sobre o afeto, é justamente isso, é sobre o "alguns",
quem me provoca, me faz sentido, me atordoa, me gira.
quem eu acredito que é e que deve ser.
um tu que me é importante, que existe.
um eu-tu com sentidos múltiplos.)
griva está vivendo livremente suas experiências
lá no mundo-outro em griva. e eu estou vivenciando
as minhas experiências nessa recificidade.
sinceramente não sei como estamos, ou se devemos estar.
nem sei que somos nesse exato momento.
intervalo. fim. começo de outro ciclo.
enfim, o que for estará ajustado no afeto, no ébomestarjunto.
gosto muito dela e tenho muito respeito por ela -
mas devo dizer que isso não representa nem nunca representou o "único".
esse posicionamento sempre foi lúcido, um sol no peito aberto.
porque é justamente isso que tenho tentado viver, o afeto entredois.
por acreditar no afeto e na lucidez, esse desejo de compreensão,
escrevi certa vez um bilhete pra griva e que agora compartilho contigo
por achar que me ajuda no que quero dizer e em ser compreendido.
eis o bilhete:
http://josemenin.blogspot.com/2007/09/um-bilhete-de-literatura-e-vida.html
é justamente pelo afeto que te escrevo, griva.
observa o comportamento humano, o meu, no caso.
tu é uma presença feliz,
uma existência feito faca que não deixa espaço para indiferença.
tu é inteligente, bonita, intrigante, atraente.
tu é. tu. tu. tu. uma graça.
uma existência que posso dizer, me faz bem, à vera.
é justamente por isso que te escrevo, tento te explicar que passa comigo.
por ter afeição por tu, te achar uma guria extremamente interessante
(um abismo: eu gosto de abismos,
esses desconhecidos absurdamente delirantes e sedutores e belos.
tu é um abismo.).
afeto, moça. afeto. é isso. quero estar contigo.
e não deixaria em silêncio ou ruído a minha posição -
pois não acredito mais no ruído, esse danado.
espero que tu perdoe minha loucura.
minha loucura tem nome: afeto.
gostaria muito de te ouvir. espero que não esteja irritada.
deixo umbeijo
por dois andares e mais.
por afeto.
hasta.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
domingo, 30 de dezembro de 2007
zero-oito
desenhou isso na parede e ficou pensando num outro ano.
todos sabem que ele não acredita em revoluções.
pensou noutro ano, dormente, com uma lâmina.
ficava riscando o quarto - dizem que até criou uma série de
desenhos baseados no susto que teve noite passada.
mas já cobriu com alguma tinta vermelha esquecida
pelo antigo morador chinês.
ficou disfarçando o cansaço e a tristeza com um outro ano riscado
e um vídeo barato sobre elefantes e tartarugas.
não gosta de bichos e com força lembra o nome de alguma espécie.
gato.
não gosta de gatos e da presença macia, sem vertigem.
os gatos não gostam dele.
pássaro.
teve uns dois presos e engolidos pelo tempo. não lembra a cor.
não terá novos pássaros. nunca teve.
gafanhoto.
gosta da cor e da música. não encontrou muitos na vida.
pato.
não sabe desenhar. não atirou em nenhum. nunca comeu.
vê na tv. anda como um.
viu um comercial sobre pós-utopia.
desde então dorme embaixo da cama e nunca acende a luz.
achou os antigos dentes.
disse que a boca é um um desvario,
alguma brincadeira sem início.
esqueceu o outro ano em cima do cinzeiro, em brasas.
então soprou o chão como se fosse canção-sem-data.
adormece com a poeira. não sonha.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
sábado, 6 de outubro de 2007
domingo, 30 de setembro de 2007
e sobre eu não usar armas.
eu olho a lua e penso
que sou criança, como dizíamos.
eu saio
do controle mas me lembro
de correr olhando para
você. você sabe onde eu me escondo
no céu e nas noites sem choro.
o brilho do sol mostra
quem eu sou. o que eu
sinto e o que eu sei
estão passando
por debaixo da ponte e da porta
que eu abri pra você.
o que ainda está comigo
e que dorme e me lembra
o jeito como você anda.
ela gosta de me ver dormir
sobre o chão de estrelas.
o que está na tempestade.
sonhando que está coberto
pelo segundo perdão.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
O sujeito pós-moderno é um sujeito, para dizer o mínimo, descentrado. Seu pensamento é rizomático. Afirmar um "eu" depois das ondas do freudismo, do marxismo e do darwinismo é um interessante desafio ocidental e literário. Ou mesmo existencial. Se tivesse lido Hermann Hesse a pouco tempo, mais especificamente "O Lobo da Estepe", poderia dizer, com um pouco de inclinação oriental, que o "eu", esse "eu" único, centrado, não existe. Ou melhor, não é uno, unívoco; poderia dizer que sou muitos, várias almas no mesmo peito, ou trezentos como pretendeu o poeta. Ou talvez não seja nada disso, seja só um inquieto. Um apenas.
Começar com um parágrafo sobre pós-modernidade, um tanto de sociologia e filosofia e um outro tanto de literatura, ceticismo e contradição diz muito sobre mim. Sou um inquieto. E romântico. Daí a paixão pelo jornalimo. Acredito, como jornalista e como cidadão, que o jornalismo - e a comunicação de maneira mais ampla - é o lugar do conflito, da dúvida, da inquietação, da crítica. Jornalismo é (ou ao menos deve ser) sempre subversão e reflexão, investigação e ceticismo. E, principalmente, o lugar da contradição, onde se desenrolam os jogos de interesse, as argumentações e contra-argumentações. Uma arena ou uma ágora - as faces-irmãs de um mesmo ambiente.
Criar um metatexto diz muito sobre mim. Gostar do movimento dada (ou revivê-lo) também. Gostar da escrita em primeira pessoa, escrever contos, poemas, realizar curtas-metragens, tudo diz muito sobre mim - ou sobre esses diversos no mesmo peito. Tudo diz muito sobre mim, assim como diz muito sobre o jornalismo que crio, que realizo e com o qual dialogo. Acredito que o interessante seja escrever nessas fronteiras, nesses indefinidos: o jornalismo e o cinema, a literatura, a música, a tecnologia, etc. O jornalismo na vida, na vida mesmo, sendo algo orgânico. A comunicação fundamental, fundante. O jornalismo é o lugar do outro.
Sou um jornalista. E também sou um escritor, um poeta, um videasta, um realizador, em suma. E ainda sou nada disso e o contrário. Guardo no meu peito essas teses, antíteses e sínteses. Como disse Maurice Maeterlinck, começamos a vida por afirmar, depois negamos, para finalmente acolher tudo numa síntese. Como eu penso, o jornalismo (e o jornalista) mistura tudo em sua origem, em sua formação e vivência. O movimento descrito por Maeterlinck, nos jornalistas não sucede em etapas, mas é um "vivendo", um "agora", de sua prática. Buda diria que é o caminho do meio. E poderíamos dizer também dos extremos (como o santo e o libertino). Sou um jornalista. Esse é o meu caminho do meio. Sou um jornalista. Esse é o meu extremo.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
esse gato sem olhos
o azul dessa hora
o silêncio confortável
e as ruas as ruas as ruas
riscar meu peito, a dor
essa planta estranha
o fogo das esquinas
o ruído sem plumas
e os pés os pés os pés
riscar meu peito, a estrada
essa vértebra doce
o depois da noite
o horizonte de foices
e as bocas as bocas as bocas
riscar meu peito, o diamante
o espelho atrasado
o relógio sem alma
e os rostos sérios, sérios
domingo, 23 de setembro de 2007
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
um bilhete de literatura e vida
um bilhete. pra dizer: gosto de tu. tenho afeto e afeição. gosto. e me repito dizendo isso. só mudo o suporte. mas acho que é preciso dizer isso. gosto de tu. muito. me sinto bem contigo. e vejo que somos (eu acho) diferentes. raros. você é rara. e também uma barra, como diz. e isso é parte de tua beleza. gosto de teu cheiro e das pequenas mitologias que criamos, como um anel pirata esquizo, poemas, cheiros e quetais. te acho linda, e tu sabe. gosto de tu e gosto de estar contigo.
eu não entendo intimidade como contrário de liberdade. acho que tudo está no afeto. nesse "ser bom/fazer bem/gostar". tu diz que gosta disso da não-cobrança. de eu ser diferente. e eu acho que é isso, sabe. ser diferente. viver afetos sem dor. e é isso que sempre tento deixar claro. mas as pessoas são lindos problemas. e abismos.
por isso este bilhete. e um punhado de equívocos.
quando falei contigo, era com esse intento. e por gostar de estar contigo e querer estar contigo. e escrevo agora com o mesmo sentido. e diante dos equívocos que a linguagem fundou. não sei como você entendeu o que disse. é complicado ler silêncios. tudo que é entredois já é tão complicado. por isso tento evitar os ruídos, o que prejudica o entendimento, a não-permanência da incompreesão mútua. por isso tento estar claro para que não deixe de ser por alguma razão desconhecida, por um silêncio, por um mal-entendido, ruídos, essa eterna "incompreesão mútua" entre as pessoas. principalmente debaixo do afeto.
por isso o poema e a conversa. porque não queria deixar de estar contigo por alguma coisa não-dita, alguma falta de entendimento. com a distância, pensei que o que incomodava você era certo "ar de compromisso", ou seriedade em mim. e não era. nem é. mas também é errado imaginar que isso exclua a existência desse afeto, desse "eu-me-sentir-bem-contigo". pois há. e tu sabe disso, eu acho.
tenho medo de incompreensões. não entendi bem, por exemplo, você não ter me beijado da última vez que nos vimos. foi estranho isso (eu que comecei achando estranho, por não costumar viver esse hábito, mas que me habituei e gostava de me cumprimentar assim contigo, mesmo que o gesto pudesse ser visto como algum compromisso. mas isso não seria um problema e não via incomodos nisso. pois sabíamos de nós. era um gesto de afeto. pessoas que se gostam) justamente pelo fato de ter vindo temporalmente depois da conversa. pra mim foi como uma resposta silenciosa e triste. mas uma resposta ambígua também. não sei. não entendi o que você entendeu. nem o que sente. daí esse bilhete ter uma outra coisa.
outra coisa desse bilhete. tua voz. se existe uma cobrança possível, é esta: querer ouvir tua voz e tu dizer tuas teorias. o que tu pensa sobre isso. sobre esse "a gente/nós" que houve. poucas vezes tu falou. está perdido em minha memória o dia que tu falou. que disse algumas poucas impressões sobre mim e sobre estarmos ficando juntos. tu tem histórias pra os outros. e essas histórias eu nem ouvi, por mais banais ou corriqueiras que fossem. queria te ouvir.
esse é um desejo lúcido. e que espero não seja tomado como cobrança ou qualquer coisa mais grotesca. é unicamente porque gosto de você e por alguns instantes acho que você também. eu me sinto bem contigo e não queria perder isso por alguma coisa que já citei, algum tipo de distância sem razão.
tem um verso de bandeira assim: "a vida que poderia ter sido e que não foi". é de uma tristeza sem-fim pra mim. e é muito forte, pavoroso. guardadas as proporções, é assim em todos os nossos atos e com todos os nossos sonhos e desejos. é assim com nosso afeto. não queria imaginar um sefosseassim se posso ter um invetamosassim, éisso, criamosevivemosessesmomentos, temosissoagora.
eu gosto de tu, barra. te estimo, à vera.
e por isso,
os poemas
os encontros
o bilhete
o que foi. e que pode ser. ainda ser. ou ainda é. ou será.
esse nósgostamoseestamos
que não sei como vai (ou se já não "foi").
por isso o bilhete. por isso querer te ouvir.
esse é um desejo sincero. sem jogo. nem medo. nem do ridículo.
pois te estimo. gosto de tu.
mas também imagino como eco um longo silêncio. ou não.
espero compreensão. estar contigo. como estivemos. mas nem sei.
gosto de tu. essa é minha teoria. e isso não tem nada a ver com supressão da liberdade ou algo assim nem também com algo como tantofaz. você é um açúcar - e isso quer sempre dizer algo bom em meus poemas. é isso. para fugir de toda possibilidade de incompreensão. mesmo correndo na beira do insano. ou do assustador. e possa ser lido e colocado no lugar do riso.
como escrevo por vezes, tu diz. me diz. dessa loucura.
esse bilhete.
a gente.
umbeijo.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
outro lado.
escrevi sobre esse outrolado. eu vi você faminta e especialmente sombria.
eu conheço o caminho e minhas pernas me levam
para debaixo da mesa e do sonho.
embaixo do sol eu reconheço o rosto do horizonte e a fome
dos olhos pelas cenas
repetidas. uma grande agonia para os pés que caminham
na lua. e ouvem a música
antiga do amor e do afeto. esse território sem pegadas e livre
de toda linguagem
corrompida. esse lago sem mapa. o açúcar das eras e a margem
do espírito.