sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

um peixe solúvel
no copo de leite.
um silêncio de pássaro
no peito da árvore.
um pouco de neve
no vermelho da gengiva.
um macaco quieto
no umbigo da montanha.

um olho andarilho.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010











o sol lisérgico e colorido
recombina meus sentidos:
invade a janela
e meus ouvidos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

o poema se faz com o barulho
dos ossos. A poesia é distúrbio,
ruído, transgressão - os sons do corpo mamífero.

O poema cria o abismo com violinos
e a vertigem (as alucinações caóticas do deserto do real).

A poesia é o incêncio do encontro
e o acaso: olhos do nômade
na paisagem de animais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

escrevi um poema
depois que acordei
e desci do ônibus:

vi uma garota
comendo ameixas
dentro da chuva.
não demora
e a vertigem do horizonte
se instala:

numa amora
num jazz
num amor.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Depois de tomar algumas garrafas de uísque blake label

Primeira garrafa: Shakespeare, Pessoa, Blake, Plath. Alguma poesia da experiência: a experiência da poesia. Derrubo copo após copo e vou ruminando, reunindo, revirando, remoendo imagens sobre os poemas e os poetas em questão. Copo após copo e sigo minando os campos seguros da mente, da ordem lúcida: a experiência urgente do poema interrompe as freqüências do cotidiano e lança – como um lança-chamas? – luzes sobre meus movimentos-por-aqui, ou o que chamamos de existência. (r)Existo como um animal estranho em diálogo permanente com tudoaomeuredor, numa conversa com todos e todas: todocorpoquercontato. As palavras dos outros animais estranhos me dizem dos deslocamentos, dos percursos, das sendas, das trilhas na vida: as palavras dos outros me dizem das palavras dos outros: o ouro do outro: a experiência no mundo. Alguma ponte frágil entre eu e tu, via linguagem: nos peitos o poente do sentido e a aurora do significado. Eu e tu.
Segunda garrafa: Hamlet se pergunta: “ser ou não ser?”, Pessoa nos diz, grita “não sou nada”. Eu fico perdido entre não ter asas e não saber nadar. A imagem de Montaigne surge como um assombro, como o som de um assobio: ele me diz que fala do que conhece melhor = fala de si. Não sei bem se o caso é de conhecimento. Talvez seja mais pertinente dizer apenas: falar, sem espanto ou milagre, do abismo, de dentro pra fora, do eu, do ego, da pele, dos poros. A poesia (o texto criativo) é a experiência do flerte com o ambiente e com as pessoas, a poesia é o esfregar-se na carcaça do mundo, a poesia é a construção de um canto de pássaro sem pássaro. Ou um corpoemáquina. O poema, a confissão, a escrita com vida (biografia) é a procura da possibilidade da partilha do sensível. A poesia é incomunicável, a experiência é incomunicável. E deliciosamente e absurdamente o mais delicado contrário: a poesia é a orgia, a comunhão, a participação, o entredois.

Terceira garrafa: as visões do rio, o ruído do rio. Ouço tudo que roço, todo som tem pele. Visões da garota que se matou e o poema da garota que se matou. Sidarta quis morrer e ouviu o rio: Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm. A respiração de Brahman. A vigília, o sono e o sonho. A linguagem do absoluto, do universo: o infinito deitado. A garota se matou. Carne e osso, não há nada lá. Somente o devaneio da visão, apenas o devaneio que rasga o véu de maia e nos diz que estamos lá onde não há nada ou apenas um passo antes do abismo. A conexão com o outro, a conexão consigo, a não-conexão, a confusão, a fusão, o são. O sim e o não. O não. Como no koan do imperador que sonha ser borboleta e da borboleta que sonha ser o imperador. A lucidez de quem está para morrer, a morte de quem não delira. Como a sabedoria da pele e a corrupção do tempo. Os animais estranhos e o desajuste: tatear o lugar no mundo, a (r)existência do sentido e a vertigem do desencanto. O poema da garota que se matou e a experiência da garota que se matou, a cristalização da garota numa fotografia e a voz da garota numa fita magnética. A garota não está aqui. Outra garota virá. Eu não estarei aqui. Outro garoto virá. E.

Quarta garrafa: Uma garota dormindo. Outra entra no quarto em silêncio, na ponta dos pés. Elas se comunicam, um diálogo silencioso, como dois animais que, como dois animais quando. Escrevo um poema, escavo um poema. E logo a poesia bate asas e cria mundos. Leio um poema e rapidamente a poesia ri e fica muda. A poesia é uma orgia, um êxtase: um caroço da experiência na membrana verde do espaço. Leio Blake: energia é eterna delícia. Blake vê o infinito numa flor selvagem. Eu vejo Blake num copo de uísque e observo animais que buscam o rumo de árvores com frutas alcoólicas. O animal sem nome pintou poemas nas paredes de Lascaux. Ele viu animais. Um velho xamã pinta seu tambor cósmico e me diz do frio, do rio e do raio. O xamã toca o tambor e uma águia mítica paira acima de sua cabeça. Um homem moderno cata uma gravata e uma pedra paira acima de sua cabeça. O poema fala da pedra e da águia. Eu vejo os dois animais no espelho (eu e tu), vejo todos eles e imagino meus ossos. No bar, uma garota sorri enquanto escrevo e derrubo outro copo. À noite, falamos de Pessoa, de Blake, Shakespeare, Plath. À noite não falamos e. A poesia é o jogo, a engenharia construindo pontes, a carne habitada, o orgasmo. A garota diz que já subiu uma montanha enquanto sobe em mim. Depois lê um poema sobre a montanha: projeto meu rosto com pedras. E de repente a experiência de subir montanhas me parece com um respirar ofegante. A poesia e a experiência da poesia. O rio de palavras destes animais. Rio da palavra destes animais enquanto escrevo e rio de mim mesmo. Um poema, mesmo. A experiência, mesmo. E o silêncio: alguma imaginação. Algumas garrafas de uísque dizem o mundo que leio num poema asteca, como um vadio animal estranho. Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath estão mortos. A experiência de Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath está morta e renasce: tempo mítico, cosmogonia, via linguagem. O poema, o corpo do pouco que permanece por aqui, entre os lírios que ainda não foram queimados pelo tempo, entre os leões que nos arranham os estômagos por dentro. Ponte, parte: poema do parto: a turva visão do que foi, do que o tempo rói, a revisão do que dói. A minha experiência no mundo. Ou ficar mudo. Ou tudo. Ou tu. Absolutamente eu e tu, em tudo. E no nada. Nonada. Andada em bando. Quando? Não sei e ando, ando, ando, lendo e revirando os ossos da experiência do bando, os que viram a carcaça e já riram, sumiram nus. Enquanto não morro, ando. No bando, com sol, chuva ou nublando as nossas cabeças com o como, o porquê, o quando. Nu, ando.
memória:

plantação repleta
de gafanhotos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

poesia: técnica do êxtase

escrevo
como um leitor:

com as possibilidades
do incêncio

possesso

como uma pálpebra
coberta de árvores.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

a mudança confortável
das nuvens

revolvendo minhas lembranças
mais distantes

e o caminho
pela paisagem escura

dos olhos

abertos
pela navalha.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

tenho as botas sujas
e poucas histórias
no bolso. eu bebo
o colírio que amanhece
meus ossos. deixo ruídos
aos que passam

e um assobio

(uma guitarra acorda o pássaro).

quinta-feira, 26 de junho de 2008

anotação número 1

o tempo escorrendo como uma noite doce, meu bem. meu olhos reclamam a noite e o lugar, falam do hotel perdido no tempo: feito o sono: o coice da lembrança mais distante.

fiquei com esses versos na cabeça, desde ontem - não sei muito bem o que isso significa, ontem é muito longe daqui. eu apenas lembro que ouvia os irmãos tranquilos, os que cantam suavemente:
os irmãos soltavam balões. eu ouvia esse pássaro melancólico e escrevia numa só respiração.

poucos dias têm sido assim, penso.
escrevo bem pouco, como se fosse o velho chinês com sono, subindo montanhas.

não tenho me alimentado.

preciso de um gravador, comprar fitas k-7.
preciso organizar isso tudo.

sábado, 21 de junho de 2008

o choro da senhora v.
abre a noite e reparte
alguns sons sobre a mesa
colocada na esquina

a senhora v.
olha o céu-acima
e volta a lembrar
do dia

sangue, alegria arriscada

canções da tempestade
invandindo o corpo duplo - a carne,
território sob a chuva colorida e rápida
do prazer: as vertigens, as vertigens.

assombro
circulando a brevidade
dos rostos sérios

desvario,
a dança desacordada,
a senhora v.

à deriva, num devir
ensolarado entre as pálpebras
de animais lentos e calmos

a senhora v. corre
e toca as passagens elétricas
das artérias do tempo: a febre, a mente.

o mantra espontâneo
da pele, das pernas
cobrindo a paisagem azul e nova:
a senhora v. não-dorme.

sábado, 14 de junho de 2008

como um dia qualquer, um domingo azul e morno. aperto os sapatos contra o chão, sorrindo docemente ao encontro de toda gente. a cidade passeia por meus pulsos. olho novamente a paisagem que me deixa livre. como uma manhã nascendo no rosto limpo do afeto. eu olhos os olhos dela com surpresa e vejo tudo claro e de outra maneira. eu caminho por entre ruas e rins, vértebras roídas pelo buraco na cabeça. os sons de um dia qualquer. a velha brincadeira de criar futuros possíveis e olhar as nuvens se desfazendo contra meu peito. um tempo perfeito e você tem um domingo e brisas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

o velho renascendo
com seus dentes cheios de tédio e raiva
(a agressão delirante de um dia qualquer).

a noite suja dentro da cabeça
rodando rodando rodando rodando

pessoas caindo
sobre o asfalto
de ontem

os carros atropelando
os sonhos mais simples

a vida seguindo
cometas absurdos na pele
do tempo

meus dedos
tocando sóis distantes

cheiro e calor, fúria dormente
da estrada.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

ps:sp XV

quero
repartir contigo
o pão e o delírio
a cada dia

registrar
estradas e assobios
no território fértil
de nosso afeto

e caminhar contigo
definitivamente dentro da vida.

ps:sp XIV

ela
ilumina
minha retina

e eu
durmo
em sua pupila.

somos raros
como um dia bissexto.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

ps:sp XIII

disse pra menina:

estou
dentro
do sonho
como vespas
entrando no céu.

ps:sp XII

a fome
de estar cego
e saber o cheiro

a fome
de relâmpagos
pintando a pele

ouvindo
as sugestões
do infinito
pelos poros

devastando
o quarto e o sossego.

ps:sp XI

preguiçosamente
deitados sobre o horizonte
comendo as frutas
do tempo

suavemente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

ps:sp X

ela escuta
uma oração lenta

meus lábios
sussurram
alguma blasfêmia
sobre o acaso

delicadeza
e assombro
sobre as mãos
riscando
poemas obscenos

na medula.
deixar pelas asas
algum desenho

sobre o vôo

ps:sp IX

uma mulher
descendo lentamente
pelo território
de minhas visões

sem dor
ou violência

azulmente

como as histórias antigas
e grandes poemas.

sem data.
livre

como
uma chance
de

livre

feito
um som
que

livre
cortando a paisagem
vermelho e breve
como um velho
espírito

correndo.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

descendo
lentamente
sobre
as cabeças
assustadas

dormindo
em aquários.
a televisão
fora do ar
e o corpo

dormente
e deitado

sobre
as costas
do tédio.

ps:sp VI

quero escrever
um poema
pra retirar
do calendário
uma moça bonita
e sair por aí
com ela

a esmo

delisiosamente
ociosos e tranquilos.
sussurou
junto a uma árvore:

vespas
na garganta
me iluminam.

ps:sp V

como um raio
uma música no rádio
ou um peixe azulado
no rio

ela
aparece de repente
com uma chuva
desvairada de alegria

caindo
sobre mim.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

ps:sp II

reescrevo
a órbita
do sol
em meus olhos

paisagem aberta
como uma canção
improvisada

um jazz
repentino
e alucinado
cavalgando
no peito.

domingo, 27 de janeiro de 2008

ps:sp

grande tempestade
sem aviso

inesperada
e doce
como um jardim azul

acesa
como os sonhos
que vêm de longe

e o horizonte.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

domingo, 20 de janeiro de 2008

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

oh meu amor

você espalhou
alguns
segredos
pelas ruas

oh meu amor

você escondeu
cinco
canções
sobre mim.
o gato
sobre o
muro

como um
senhor

olhando
pra mim
e meus
sonhos

calmo
como quem tem
um cigarro
na mão
paisagem chinesa
alguns pássaros solenes

vastidão.

domingo, 13 de janeiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

estou perto de tu
do.
um mar ameno
esse sereno caindo no quarto sobre a gente.
eu só queria te pedir desculpa /
com uma chuva bonita em tua casa /

só pra te ver dançar /
no quintal /

eu sei que sempre vou embora /
mas mesmo longe estou aqui /
neste chão /

só pra te ver dançar /
no quintal /
engraçado
hoje eu só quero
um tigre do meu lado
não preciso
do poema
pra dizer
deixa disso
deixa isso
pra lá.
às vezes
essa dança
me cansa.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

anotações sobre ruído, loucura e afeto

espero que não esteja irritada. ou sei lá.
espero que tenha encontrado o bilhete com o poeminha
por debaixo da porta -
poeminha que realmente te fiz, com açúcar, com afeto.

imprevistos.

te mando por aqui algumas anotações, algo que escrevo
por necessidade e vontade.

te mando por aqui alguns lampejos sobre ruído, loucura e afeto.
alguns pensamentos não necessariamente ordenados.

tem uma amiga minha que está em griva. griva.
uma pessoa com quem troquei e vivi boas experiências
sobre isso que é entredois. com ela comecei a exercitar,
vivenciar o que chamo de afeto.

ou liberdade. e a palavra, a necessidade da palavra.

explico.

uma das coisas que ela me falava era justamente isso:

o ruído é a pior forma de incomprensão,
a vida explode sempre no mais além.

é preciso falar. é preciso compreensão mútua.
não sei o que você pensou ou está pensando sobre o que fiz.
sei apenas o que penso.
e é justamente por desejar compreensão e não ruído
que falo/escrevo.

minha relação com griva é uma coisa sem nome e bonita.
é justamente a tentativa dessa vivência de algolivre,
algomais,
algonovo.

não somos nem fomos namorados (nada contra o namoro, mas não é o caso).
ela sempre esteve com outras pessoas. eu também.
ela sempre esteve comigo. e eu com ela.

a gente não delimitou o afeto*.

(*afeto: está com griva, em griva, justamente um livro meu
que emprestei pra ela e que trata justamente disso, do afeto.
o ser humano busca isso, o afeto, esse útero-aqui-fora.
eu não acredito no "único", assim como não acredito no "todos" -
o que penso, sobre o afeto, é justamente isso, é sobre o "alguns",
quem me provoca, me faz sentido, me atordoa, me gira.
quem eu acredito que é e que deve ser.
um tu que me é importante, que existe.
um eu-tu com sentidos múltiplos.)

griva está vivendo livremente suas experiências
lá no mundo-outro em griva. e eu estou vivenciando
as minhas experiências nessa recificidade.
sinceramente não sei como estamos, ou se devemos estar.
nem sei que somos nesse exato momento.

intervalo. fim. começo de outro ciclo.

enfim, o que for estará ajustado no afeto, no ébomestarjunto.
gosto muito dela e tenho muito respeito por ela -
mas devo dizer que isso não representa nem nunca representou o "único".
esse posicionamento sempre foi lúcido, um sol no peito aberto.
porque é justamente isso que tenho tentado viver, o afeto entredois.

por acreditar no afeto e na lucidez, esse desejo de compreensão,
escrevi certa vez um bilhete pra griva e que agora compartilho contigo
por achar que me ajuda no que quero dizer e em ser compreendido.

eis o bilhete:

http://josemenin.blogspot.com/2007/09/um-bilhete-de-literatura-e-vida.html

é justamente pelo afeto que te escrevo, griva.
observa o comportamento humano, o meu, no caso.

tu é uma presença feliz,
uma existência feito faca que não deixa espaço para indiferença.

tu é inteligente, bonita, intrigante, atraente.
tu é. tu. tu. tu. uma graça.
uma existência que posso dizer, me faz bem, à vera.

é justamente por isso que te escrevo, tento te explicar que passa comigo.
por ter afeição por tu, te achar uma guria extremamente interessante

(um abismo: eu gosto de abismos,
esses desconhecidos absurdamente delirantes e sedutores e belos.
tu é um abismo.).

afeto, moça. afeto. é isso. quero estar contigo.
e não deixaria em silêncio ou ruído a minha posição -
pois não acredito mais no ruído, esse danado.

espero que tu perdoe minha loucura.
minha loucura tem nome: afeto.

gostaria muito de te ouvir. espero que não esteja irritada.

deixo umbeijo
por dois andares e mais.

por afeto.
hasta.
afeto
e chuva silenciosa
fogem de meus bolsos

a infância
não dorme em meu peito

minha desordem amanhece.
eu vôo
a s s o m b r a d o
e nu
sobre os telhados
da solidão.
como esse coice
como os frutos
esse desvario
dançando sobre a mente

e a queda.
não saio do tempo
sem lavar as mãos
por dentro
lembrar que
depois do caos
meu corpo cai
em si

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

o sabor delicado
do grito

esse sussuro sem vértebra
adentrando o oco da alma

no escuro.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

dizem que dona maria de lourdes
fica ausente como uma noite sem grande mistério.

cigarras e enormes mosquitos pendurados na janela
e os cabelos no vendaval de um sorriso.

lourdes acende um cigarro

solta a fumaça
como num eterno adeus.

domingo, 30 de dezembro de 2007

dois-zero
zero-oito

desenhou isso na parede e ficou pensando num outro ano.
todos sabem que ele não acredita em revoluções.
pensou noutro ano, dormente, com uma lâmina.
ficava riscando o quarto - dizem que até criou uma série de
desenhos baseados no susto que teve noite passada.
mas já cobriu com alguma tinta vermelha esquecida
pelo antigo morador chinês.

ficou disfarçando o cansaço e a tristeza com um outro ano riscado
e um vídeo barato sobre elefantes e tartarugas.

não gosta de bichos e com força lembra o nome de alguma espécie.


gato.

não gosta de gatos e da presença macia, sem vertigem.
os gatos não gostam dele.

pássaro.

teve uns dois presos e engolidos pelo tempo. não lembra a cor.
não terá novos pássaros. nunca teve.

gafanhoto.

gosta da cor e da música. não encontrou muitos na vida.

pato.

não sabe desenhar. não atirou em nenhum. nunca comeu.
vê na tv. anda como um.



viu um comercial sobre pós-utopia.
desde então dorme embaixo da cama e nunca acende a luz.

achou os antigos dentes.
disse que a boca é um um desvario,
alguma brincadeira sem início.


esqueceu o outro ano em cima do cinzeiro, em brasas.
então soprou o chão como se fosse canção-sem-data.

adormece com a poeira. não sonha.
cruel
como os lindos olhos
do passado

devastando o sossego.
o sol esquartejado
sobre os ombros de meu amor
e a faca lúcida
em sua pele.
a música possível
da medula

elétrica e doce
como uma grande chuva
sem memória

incinerando
os pensamentos mais leves.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

vejo mulheres chorando violinos
e alguns sapos

breves soluços sagrados do ventre

a maternidade é uma ilha.
morrer lentamente
como uma grande estrela agonizante

dentro do tempo.

cair friamente
no esquecimento do século

e dormir.
coração ameno
desde menino.
conversando
com o vento

erguendo um
espírito novo
sobre os braços.
desconcerto e piedade

alguns sussuros por esta noite

e um aceno

algo sereno para o passado

a sabedoria doce dos pássaros

novas mãos caminhando por mim


assobios.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

samambaias e os ciclos solares
sobre meu ego.

saudades eletrônicas
e a atividade. pequena memória de esgrimas.

meu grande amor
rasgando camisas debaixo do céu

e esses uivos essa sede
a saliva

os nomes doces
da noite.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

alimento
alguns mitos e sonhos
com minha carne
num mar de mudanças

e inundo os vales.
correndo
pelo avesso do céu
sem tropeçar em verdades.

o destino azul e sem luz.

sábado, 6 de outubro de 2007

permaneço
no ar

limpo
feito
o fogo

desses dias.

como
um anjo
sem asas.
achar perto
da pele

o ouro.
procurar abrindo
fendas no esquecimento
e caminhar sem dor

a força do gato.
posso ouvir a terra
se movendo como uma criança enorme

e vejo os teus dedos
brincando com o céu.
criando umas frutas novas.

elas permanecem lá
eu posso ver por algum tempo.

antes do susto.
dançando

livremente
sobre
a lua

livremente sobre.
bons amigos espalhados pela neve
e os intintos
me protegendo da noite
como da última vez
em que estive dormindo como os fios
suspensos sobre a grande vida

a viagem
que ele desenhou
como o sol
poderoso

o movimento pelo ar
caindo como um pequeno mosquito

sem céu


eu não sei
onde estou.

domingo, 30 de setembro de 2007

nublado
como esses dias

o azul do chumbo
esse cinza

meus olhos
caminhando
contra o horizonte

mirando
a origem
da noite

vigiando
lentamente
a manhã

lentos
abertos como os poros.
você sabe de mim
e sobre eu não usar armas.
eu olho a lua e penso
que sou criança, como dizíamos.

eu saio
do controle mas me lembro
de correr olhando para
você. você sabe onde eu me escondo
no céu e nas noites sem choro.

o brilho do sol mostra
quem eu sou. o que eu
sinto e o que eu sei
estão passando
por debaixo da ponte e da porta
que eu abri pra você.

o que ainda está comigo
e que dorme e me lembra
o jeito como você anda.

ela gosta de me ver dormir
sobre o chão de estrelas.

o que está na tempestade.

sonhando que está coberto
pelo segundo perdão.
você pode me ouvir?
peço por favor a segunda graça.
a segunda face. esse longe que eu pude ver
sobre a grama tão distante.

deitado e calmo como uma estrela.
tranquilo como um sol novo.

os retratos em azul espalhados
pela cidade. você abre sua boca
e explica os caminhos difíceis

de voar.
eu não tenho gatos
e sei sorrir
como um garoto
sem os brinquedos antigos
chorei
debaixo do céu noturno
e não esqueci
o teu rosto louco.

eu queimei o inverno
e meu humor.
dispersei tudo sobre o chão.

eu fiquei esperando
um sonho do outro lado do jardim.

mas dispersei tudo
sobre o espelho

e esqueci o azul.
perdi o azul.
as flores
sem data
estão enterradas
no coração

e os filhos.
algo
que ninguém sabe
nem sente

algo
que não se
move

algo
que nega
o céu

algo
que é noturno
e palavra

algo
que seja.
a semente
a vertigem de futuro
a paisagem sem olhos

esse longe.
eu espero que você me ache
antes da chuva. estou vagando
lentamente pelas ruas do teu sonho.

você tem fogo?

joga teu nome sobre os muros
dos novos dias. tu é doce
e o riso que se move. como
eu gosto de ouvir e cheirar tua pele.

o rádio que deixo dormir
dentro de mim.

como esse sol.
a imagem desse sol.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O sujeito pós-moderno é um sujeito, para dizer o mínimo, descentrado. Seu pensamento é rizomático. Afirmar um "eu" depois das ondas do freudismo, do marxismo e do darwinismo é um interessante desafio ocidental e literário. Ou mesmo existencial. Se tivesse lido Hermann Hesse a pouco tempo, mais especificamente "O Lobo da Estepe", poderia dizer, com um pouco de inclinação oriental, que o "eu", esse "eu" único, centrado, não existe. Ou melhor, não é uno, unívoco; poderia dizer que sou muitos, várias almas no mesmo peito, ou trezentos como pretendeu o poeta. Ou talvez não seja nada disso, seja só um inquieto. Um apenas.

Começar com um parágrafo sobre pós-modernidade, um tanto de sociologia e filosofia e um outro tanto de literatura, ceticismo e contradição diz muito sobre mim. Sou um inquieto. E romântico. Daí a paixão pelo jornalimo. Acredito, como jornalista e como cidadão, que o jornalismo - e a comunicação de maneira mais ampla - é o lugar do conflito, da dúvida, da inquietação, da crítica. Jornalismo é (ou ao menos deve ser) sempre subversão e reflexão, investigação e ceticismo. E, principalmente, o lugar da contradição, onde se desenrolam os jogos de interesse, as argumentações e contra-argumentações. Uma arena ou uma ágora - as faces-irmãs de um mesmo ambiente.

Criar um metatexto diz muito sobre mim. Gostar do movimento dada (ou revivê-lo) também. Gostar da escrita em primeira pessoa, escrever contos, poemas, realizar curtas-metragens, tudo diz muito sobre mim - ou sobre esses diversos no mesmo peito. Tudo diz muito sobre mim, assim como diz muito sobre o jornalismo que crio, que realizo e com o qual dialogo. Acredito que o interessante seja escrever nessas fronteiras, nesses indefinidos: o jornalismo e o cinema, a literatura, a música, a tecnologia, etc. O jornalismo na vida, na vida mesmo, sendo algo orgânico. A comunicação fundamental, fundante. O jornalismo é o lugar do outro.

Ser um jornalista ou se definir como um é procurar a interlocução, a voz do outro e as mediações. A comunicação é dialógica, como pensou e pregou Martin Buber. Isso não diz respeito apenas ao estatuto de nossa profissão, mas às nossas existências. Ou ao menos à minha. A comunicação é dissonância e também harmonia. É o lugar para todos e de todos. Acreditar que o jornalismo também seja o lugar de todos e para todos seria ingênuo ou utópico. E é por isso que a contradição é importante. A ingenuidade está a um passo do ceticismo e a utopia nos embala na mais doce letargia. E o inverso.

Sou um jornalista. E também sou um escritor, um poeta, um videasta, um realizador, em suma. E ainda sou nada disso e o contrário. Guardo no meu peito essas teses, antíteses e sínteses. Como disse Maurice Maeterlinck, começamos a vida por afirmar, depois negamos, para finalmente acolher tudo numa síntese. Como eu penso, o jornalismo (e o jornalista) mistura tudo em sua origem, em sua formação e vivência. O movimento descrito por Maeterlinck, nos jornalistas não sucede em etapas, mas é um "vivendo", um "agora", de sua prática. Buda diria que é o caminho do meio. E poderíamos dizer também dos extremos (como o santo e o libertino). Sou um jornalista. Esse é o meu caminho do meio. Sou um jornalista. Esse é o meu extremo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

riscar meu peito, o medo
esse gato sem olhos
o azul dessa hora
o silêncio confortável
e as ruas as ruas as ruas

riscar meu peito, a dor
essa planta estranha
o fogo das esquinas
o ruído sem plumas
e os pés os pés os pés

riscar meu peito, a estrada
essa vértebra doce
o depois da noite
o horizonte de foices
e as bocas as bocas as bocas

riscar meu peito, o diamante
o espelho atrasado
o relógio sem alma
e os rostos sérios, sérios

domingo, 23 de setembro de 2007

talvez eu corte o cabelo
ou viaje pro mississipi
talvez eu quebre o espelho
ou acorde com uma gripe

talvez eu veja você
ou fuja do meu país
talvez eu ligue a tv
ou finja que sou feliz

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

porque
trago no peito
uma moça que dorme
com as canções de janeiro

e essa incrível dor.