garrafa de urânio
e eu leio
um poema de petrônio
num mural
enquanto
alguns gnomos
distribuem gomos
de tangerina.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
domingo, 2 de setembro de 2012
amor num mar de muito
o amor enche a
barriga de grilos
(uns nove
quilos).
deixa a mente
num aquário de
aguardente.
cobre a alma
com folhas de
cobre.
morde os olhos
e os dedos,
depois cospe alguns
medos.
coloca carvão
na medula
e amarula no
coração.
assobia canções
nos ouvidos
sobre mastigar
vidros.
guarda um
jaguar
no calcanhar.
massageia as
pernas e o pescoço
e entrega água
de um poço sem
fundo.
o amor
fortalece os ossos.
domingo, 27 de maio de 2012
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Anti-Tirésias
Caminhamos sobre um abismo de imagens,
entorpecidos pelo volume assombroso de vultos e espectros cotidianos, olhos
embaciados pelas vertigens eletrônicas, virtuais; e mentes fustigadas pelas
demandas torrenciais das mediações imagéticas entre o mundo objetivo, do
espetáculo e a noz da subjetividade. Somos um batalhão de anti-tirésias,
videntes sem profecia, olhos abertos para não-ver o mundo, seguindo a corrente
sufocante da ditadura do rosto humano - já nem lido, apenas deslizado numa
superfície interpretativa, banalíssima. Apartamentos apinhados de tecnologias:
câmeras, scanners, binóculos, lupas, etc. E o que vemos? Nem a sujeira no nosso
umbigo. “Os animais entraram na imaginação primeiro com mensageiros e
promessas”.
A história de nossa espécie é permeada, costurada com nosso próprio sangue e o sangue das outras espécies, além da seiva e das matérias inorgânicas dispersas e subjugadas sob nosso sonho panóptico e de poder desmedido. Não vemos, de olhos bem abertos, a crueldade diária que se inscreve sobre os ombros da multidão sem-nome (animais e animais humanos). E a parte humana da multidão sem-nome segue comprando comida nos pet shops para gatos e cachorros, percorrendo os corredores dos supermercados para conseguir atum em lata, porcos retalhados em deliciosos pedaços de bacon, camarões congelados, bois e vacas recortados sem a memória do mugido, galinhas empacotadas no plástico onipresente retirado, desdobrado das entranhas da terra sob a forma do líquido negro vital para a sociedade de apetite insaciável. Apesar das tecnologias de “visão além do alcance”, ou justamente por elas, não percebemos a dispersão cruel das presenças animais no percurso de nossas vidas: a “redução do animal, que tem uma história teórica e econômica, é parte do mesmo processo pelo qual os homens têm sido reduzidos a unidades produtivas e consumidoras isoladas”.
Satisfeitos em nossas baias, percorrendo velozmente as estradas sofisticadas do delírio assassino e asséptico, transferido, lidamos com os animais apenas na medida de nossa fome. Mesmo que os “animais da mente” não possam ser facilmente dispersos, seguimos nossa voragem cheia de dentes, confortavelmente acomodados nos sofás, bebendo leite da cabra nunca vista, comendo carne de lata ou algum sushi. E, depois da refeição, ou ainda durante ela, ficamos nos entretendo com os desenhos do pato Donald, as aventuras da formiga atômica, as desventuras da turma do urso Zé colmeia, etc.
Eu não vejo a foto do elefante dentro do útero (apesar da insistência da National Geographic). Eu nunca vi um elefante, nem mesmo na prisão/escola/manicômio designada por zoológico. O que eu vejo, envolvido num tom róseo, sanguíneo, é um fantasma, uma lenda, um mito – aparição sobrenatural, de olhos fechados. Observo, mas sedado. “(...) animais são sempre os observados. O fato de que podem nos observar perdeu todo o significado. Eles são os objetos de nosso conhecimento sempre crescente. O que sabemos sobre eles é um índice de nosso poder, e assim é um índice do que nos separa deles. Quanto mais sabemos, mais distantes eles ficam.”
Vejo um futuro mamute, mera imagem retórica povoando algumas camisas, discursos, nomes de bandas ou qualquer outra bobagem que não possa me ferir. Apontamos nossas câmeras para os animais como se fôssemos documentaristas de zumbis, fascinados pelo dedo que aponta a lua – e sem ver sequer o lado claro da lua. Fotos, filmes, brinquedos de pelúcia, carrossel, mascotes, jogo do bicho: caricaturas sem sangue, sem possibilidade de verdadeiro encontro. “Zoológicos, brinquedos animais realistas e a difusão comercial ampla de imagística animal, tudo isso iniciou quando os animais começaram a ser afastados da vida cotidiana. Poderíamos supor que tais inovações foram compensatórias. Mas na realidade as próprias inovações pertenciam ao mesmo movimento cruel da dispersão dos animais”.
Como um exímio anti-tirésias, não vi a ausência do elefante, nem recebi uma visão profética de tempos renovados de respiração no mundo natural. O que eu vi, numa fotografia digital, foi um beco, foi um eco, pálido, de uma vida destroçada pelo vírus humano e sua jornada de câmeras, dentes, pólvora e foguetes caralhudos: arsenal de tecnologias de extermínio. Visão opaca debaixo do sol, humanos a sós.
A história de nossa espécie é permeada, costurada com nosso próprio sangue e o sangue das outras espécies, além da seiva e das matérias inorgânicas dispersas e subjugadas sob nosso sonho panóptico e de poder desmedido. Não vemos, de olhos bem abertos, a crueldade diária que se inscreve sobre os ombros da multidão sem-nome (animais e animais humanos). E a parte humana da multidão sem-nome segue comprando comida nos pet shops para gatos e cachorros, percorrendo os corredores dos supermercados para conseguir atum em lata, porcos retalhados em deliciosos pedaços de bacon, camarões congelados, bois e vacas recortados sem a memória do mugido, galinhas empacotadas no plástico onipresente retirado, desdobrado das entranhas da terra sob a forma do líquido negro vital para a sociedade de apetite insaciável. Apesar das tecnologias de “visão além do alcance”, ou justamente por elas, não percebemos a dispersão cruel das presenças animais no percurso de nossas vidas: a “redução do animal, que tem uma história teórica e econômica, é parte do mesmo processo pelo qual os homens têm sido reduzidos a unidades produtivas e consumidoras isoladas”.
Satisfeitos em nossas baias, percorrendo velozmente as estradas sofisticadas do delírio assassino e asséptico, transferido, lidamos com os animais apenas na medida de nossa fome. Mesmo que os “animais da mente” não possam ser facilmente dispersos, seguimos nossa voragem cheia de dentes, confortavelmente acomodados nos sofás, bebendo leite da cabra nunca vista, comendo carne de lata ou algum sushi. E, depois da refeição, ou ainda durante ela, ficamos nos entretendo com os desenhos do pato Donald, as aventuras da formiga atômica, as desventuras da turma do urso Zé colmeia, etc.
Eu não vejo a foto do elefante dentro do útero (apesar da insistência da National Geographic). Eu nunca vi um elefante, nem mesmo na prisão/escola/manicômio designada por zoológico. O que eu vejo, envolvido num tom róseo, sanguíneo, é um fantasma, uma lenda, um mito – aparição sobrenatural, de olhos fechados. Observo, mas sedado. “(...) animais são sempre os observados. O fato de que podem nos observar perdeu todo o significado. Eles são os objetos de nosso conhecimento sempre crescente. O que sabemos sobre eles é um índice de nosso poder, e assim é um índice do que nos separa deles. Quanto mais sabemos, mais distantes eles ficam.”
Vejo um futuro mamute, mera imagem retórica povoando algumas camisas, discursos, nomes de bandas ou qualquer outra bobagem que não possa me ferir. Apontamos nossas câmeras para os animais como se fôssemos documentaristas de zumbis, fascinados pelo dedo que aponta a lua – e sem ver sequer o lado claro da lua. Fotos, filmes, brinquedos de pelúcia, carrossel, mascotes, jogo do bicho: caricaturas sem sangue, sem possibilidade de verdadeiro encontro. “Zoológicos, brinquedos animais realistas e a difusão comercial ampla de imagística animal, tudo isso iniciou quando os animais começaram a ser afastados da vida cotidiana. Poderíamos supor que tais inovações foram compensatórias. Mas na realidade as próprias inovações pertenciam ao mesmo movimento cruel da dispersão dos animais”.
Como um exímio anti-tirésias, não vi a ausência do elefante, nem recebi uma visão profética de tempos renovados de respiração no mundo natural. O que eu vi, numa fotografia digital, foi um beco, foi um eco, pálido, de uma vida destroçada pelo vírus humano e sua jornada de câmeras, dentes, pólvora e foguetes caralhudos: arsenal de tecnologias de extermínio. Visão opaca debaixo do sol, humanos a sós.
*os trechos entre aspas fazem parte do ensaio "por que olhar os animais?", de John Berger, no livro "Sobre o olhar".
quarta-feira, 21 de março de 2012
nós
nus
nas noites
no interior
dos corpos
no copo
das mentes
na cama
que está
no chão
no ciclo do são joão
no fôlego do sim
e no coração-cabeça.
não esqueça:
a noite e o dia:
juntos na festa, na caverna, no lago e na relva:
no ninho - caminho de palavras e línguas:
- braços e pernas:
- ossos e almas:
inventamos o território
de uma alegria e de um sorriso:
- não cessa.
nus
nas noites
no interior
dos corpos
no copo
das mentes
na cama
que está
no chão
no ciclo do são joão
no fôlego do sim
e no coração-cabeça.
não esqueça:
a noite e o dia:
juntos na festa, na caverna, no lago e na relva:
no ninho - caminho de palavras e línguas:
- braços e pernas:
- ossos e almas:
inventamos o território
de uma alegria e de um sorriso:
- não cessa.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
há um imenso trabalho
para a boca vegetal da loucura:
comboio de corças incendiadas
deusas cuspindo gafanhotos
sobre os dorsos dos tigres
imigrante chinês
traduzindo poemas anarquistas italianos
bolas de gude
feitas de pequenos sóis
palhaço ancestral
revirando as cinzas da fogueira
de ossos
gnu guardando gravetos
na gaveta do inverno.
para a boca vegetal da loucura:
comboio de corças incendiadas
deusas cuspindo gafanhotos
sobre os dorsos dos tigres
imigrante chinês
traduzindo poemas anarquistas italianos
bolas de gude
feitas de pequenos sóis
palhaço ancestral
revirando as cinzas da fogueira
de ossos
gnu guardando gravetos
na gaveta do inverno.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Visão da Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática
(...) e alguns sabem que não é preciso procurar muito tempo para encontrar, dentro da Gaveta Enferrujada, entre os bonecos dos loucos, dos bêbados e das atrizes, um carimbador patético. Ele facilmente se torna ridículo e se embriaga com qualquer porção efêmera de. Você pode notar tranquilamente que ele sofre da síndrome do pequeno poder. Como um cabo setenta borra-botas, fica mergulhado em sua jornada histérica de autoridade: com seu carimbo, despacha porções extras de amendoins para os bons-moços listados na planilha de Normas Técnicas e Bom Comportamento da Reunião da Comissão Setorial de Planejamento e Distribuição de Comidas com Flavorizantes.
O carimbador patético é um pobre-diabo, hipnotizado pela repetição robótica de seus gestos esvaziados de qualquer sentido, qualquer bom senso. Ele põe em movimento uma farsa deliberada: ao carimbar as fichas dos participantes da reunião contemplados com as porções extras de amendoins, finge para si mesmo que seus gestos são importantes e organizam os desordenamentos do mundo. Aos ajustados, amendoins.
Os bêbados, os loucos, as atrizes não recebem amendoins extras, entregam os amendoins regulares e se divertem com a cena toda: como um bando de galinhas no confinamento, os ajustados bicam os grãos, com um riso de felicidade comprada no supermercado, corredor nove. Para o carimbador patético, e apenas para ele, isto soa como um juízo final, como um julgamento no qual ele é senhor. Mesmo sem ter idéia alguma de como trazer vida e mágica para seu dia estéril, entre amendoins. O carimbador patético nunca viu o amendoim na terra, uma plantação. Apenas repete os gestos para os quais finge ter vocação: confere os pacotes de porções extras, confere os cadastros com os históricos dos participantes. E carimba, carimba, carimba.
Ficou lambendo as solas dos sapatos do poder, considera que alcançou um excelente posto de trabalho, não precisa fazer mais piadas sem graça enquanto enche um copo com água, tem direito às porções extras de amendoins e ainda usa seu carimbo durante toda a jornada de trabalho – mas também fora dela. Afinal, qual a graça de ser um carimbador patético apenas na Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática? O carimbador não conversa com os loucos e bêbados e não trepa com as atrizes, mas sente-se vivo enquanto toca o carimbo na almofada de tinta e depois desce com força sobre as fichas cadastrais. Os idiotas herdarão os amendoins: o carimbador patético vive para cumprir isto. Os loucos, as atrizes e os bêbados dançam durante dia, tarde e noite, vivos, com uivos. O carimbador patético come amendoins.
O carimbador patético é um pobre-diabo, hipnotizado pela repetição robótica de seus gestos esvaziados de qualquer sentido, qualquer bom senso. Ele põe em movimento uma farsa deliberada: ao carimbar as fichas dos participantes da reunião contemplados com as porções extras de amendoins, finge para si mesmo que seus gestos são importantes e organizam os desordenamentos do mundo. Aos ajustados, amendoins.
Os bêbados, os loucos, as atrizes não recebem amendoins extras, entregam os amendoins regulares e se divertem com a cena toda: como um bando de galinhas no confinamento, os ajustados bicam os grãos, com um riso de felicidade comprada no supermercado, corredor nove. Para o carimbador patético, e apenas para ele, isto soa como um juízo final, como um julgamento no qual ele é senhor. Mesmo sem ter idéia alguma de como trazer vida e mágica para seu dia estéril, entre amendoins. O carimbador patético nunca viu o amendoim na terra, uma plantação. Apenas repete os gestos para os quais finge ter vocação: confere os pacotes de porções extras, confere os cadastros com os históricos dos participantes. E carimba, carimba, carimba.
Ficou lambendo as solas dos sapatos do poder, considera que alcançou um excelente posto de trabalho, não precisa fazer mais piadas sem graça enquanto enche um copo com água, tem direito às porções extras de amendoins e ainda usa seu carimbo durante toda a jornada de trabalho – mas também fora dela. Afinal, qual a graça de ser um carimbador patético apenas na Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática? O carimbador não conversa com os loucos e bêbados e não trepa com as atrizes, mas sente-se vivo enquanto toca o carimbo na almofada de tinta e depois desce com força sobre as fichas cadastrais. Os idiotas herdarão os amendoins: o carimbador patético vive para cumprir isto. Os loucos, as atrizes e os bêbados dançam durante dia, tarde e noite, vivos, com uivos. O carimbador patético come amendoins.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Osso ruído
ouvir o rumor
de espíritos (tutano
inundando os lagos).
roer o ouvido
de vidro (faca
cravando na cova
do morto-vivo).
reger o umbigo
do infinito (mosca
voando sobre abismo).
umedecer as garras
do mito (máscara
fumando as visões
do esquecido).segunda-feira, 26 de setembro de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
eu vi a árvore
cujas raízes mergulham no inferno
e os galhos alcançam o céu
eu li o voo dos pássaros
e o incêndio no véu da ilusão
eu ri do exército de idiotas
batendo boca com o abismo
o tambor é um tigre
mordendo as costelas do tempo
eu vi meu esqueleto atravessar
a membrana verde do espaço
eu li as canções do vento
nas costas da deusa
eu ri da tempestade ancestral
e do caroço da verdade
o tambor é um cavalo sem sede
eu vi a garota ruiva
triturada pela indústria
eu li as tensões e fadigas
nos músculos dos primatas
eu ri do desejo pelo mar
de coisas e coisas e coisas
o tambor é um gafanhoto
roendo a mente
eu vi o dragão lambendo
o corpo nu da cidade
eu li os corações acelerados
da multidão
eu ri dos bípedes trocando
energia vital por cimento e solidão
o tambor é um macaco magnético
perambulando na noite primordial.
cujas raízes mergulham no inferno
e os galhos alcançam o céu
eu li o voo dos pássaros
e o incêndio no véu da ilusão
eu ri do exército de idiotas
batendo boca com o abismo
o tambor é um tigre
mordendo as costelas do tempo
eu vi meu esqueleto atravessar
a membrana verde do espaço
eu li as canções do vento
nas costas da deusa
eu ri da tempestade ancestral
e do caroço da verdade
o tambor é um cavalo sem sede
eu vi a garota ruiva
triturada pela indústria
eu li as tensões e fadigas
nos músculos dos primatas
eu ri do desejo pelo mar
de coisas e coisas e coisas
o tambor é um gafanhoto
roendo a mente
eu vi o dragão lambendo
o corpo nu da cidade
eu li os corações acelerados
da multidão
eu ri dos bípedes trocando
energia vital por cimento e solidão
o tambor é um macaco magnético
perambulando na noite primordial.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
asas pequenas.
um texugo colhendo
manhãs
na fumaça das nuvens.
ilha do voo
tempo de água e lua
na garganta
do pássaro.
cem anos
fogueira & pupila
formigas cantam
nas dobras do vento
o ventre.
desenhos
e chuva (rio calmo da respiração).
peixes escrevem
as frutas vermelhas
na vértebra do sono.
ruídos e canções
de baleias
sobem em meus olhos.
sono
ninho ancestral das visões.
um texugo colhendo
manhãs
na fumaça das nuvens.
ilha do voo
tempo de água e lua
na garganta
do pássaro.
cem anos
fogueira & pupila
formigas cantam
nas dobras do vento
o ventre.
desenhos
e chuva (rio calmo da respiração).
peixes escrevem
as frutas vermelhas
na vértebra do sono.
ruídos e canções
de baleias
sobem em meus olhos.
sono
ninho ancestral das visões.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
o poema se faz
com o barulho dos ossos.
a poesia é ruído
distúrbio, transgressão
(os sons do corpo mamífero).
o poema cria
o abismo com violinos
e a vertigem
(as alucinações caóticas
do deserto do real).
a poesia é o incêndio
do encontro e o acaso:
olhos do nômade
na paisagem de animais.
a poesia é o vinho
da visão.
com o barulho dos ossos.
a poesia é ruído
distúrbio, transgressão
(os sons do corpo mamífero).
o poema cria
o abismo com violinos
e a vertigem
(as alucinações caóticas
do deserto do real).
a poesia é o incêndio
do encontro e o acaso:
olhos do nômade
na paisagem de animais.
a poesia é o vinho
da visão.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
pegou um corpo de pássaro
e colocou dentro da geladeira
de sua mente.
ouviu um ruído um ruído um ruído
e som de água correndo.
algumas nuvens
desabaram chuva sobre os olhos
da paisagem.
deitado na montanha de sonhos e devaneios
derrubando algumas constelações
no chá de ervas cósmicas.
ao redor da fogueira
escrevendo as pinturas
no chão e no abismo.
e colocou dentro da geladeira
de sua mente.
ouviu um ruído um ruído um ruído
e som de água correndo.
algumas nuvens
desabaram chuva sobre os olhos
da paisagem.
deitado na montanha de sonhos e devaneios
derrubando algumas constelações
no chá de ervas cósmicas.
ao redor da fogueira
escrevendo as pinturas
no chão e no abismo.
sexta-feira, 12 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
avenida universo
antes que o dia acabe.
antes que eu cubra o rosto.
antes que o gosto estrague.
antes que descubra um poço.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
antes que a luz se esconda.
antes que a onda passe.
antes que a foice pense.
antes que arranje um disfarce.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
antes que a cãimbra espalhe.
antes que o espelho quebre.
antes que a lebre corra.
antes que morra ou neve.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
antes que eu cubra o rosto.
antes que o gosto estrague.
antes que descubra um poço.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
antes que a luz se esconda.
antes que a onda passe.
antes que a foice pense.
antes que arranje um disfarce.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
antes que a cãimbra espalhe.
antes que o espelho quebre.
antes que a lebre corra.
antes que morra ou neve.
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
terça-feira, 2 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010

ela me disse: desmantelado.
e logo me vi
como um inseto verde e gigante
voando sem direção numa floresta tropical.
e logo me vi
como um personagem de um conto
do velho buk: copo de uísque
na mão e a viagem de ácido
na cabeça. procurando numa pilha
de papéis um poema anotado
na noite anterior no interior terno
do quarto desfigurado.
desmantelado:
o pensamento perambulando por paisagens
incineradas. a risada diante do agente
cartesiano. o cotidiano transfigurado
numa fábula fantástica. a enigmática
equação do comportamento íntimo.
desmantelado: eu estarei por aí
na vertigem da questão: a verei do meu lado?
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
prévert quintana
deitado no infinitocomendo uva
vejo um tigre de Bengala
e um gato de guarda-chuva
desenho um mosquito
numa gruta escura
escondo os meus olhos
nos bolsos da loucura
registro assobios
numa fita magnética
escrevo no teu corpo
uma história erótica
enterro canções do sol
no ventre da memória
queimo as roupas no varal
(as cinzas contam a história)
cheiro a alma dela
toda a madrugada
mergulhamos nos abismos
e criamos a estrada
o mantra da vertigem
move nossa viagem:
o que existe
é o êxtase.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Depois de tomar algumas garrafas de uísque blake label
Primeira garrafa: Shakespeare, Pessoa, Blake, Plath. Alguma poesia da experiência: a experiência da poesia. Derrubo copo após copo e vou ruminando, reunindo, revirando, remoendo imagens sobre os poemas e os poetas em questão. Copo após copo e sigo minando os campos seguros da mente, da ordem lúcida: a experiência urgente do poema interrompe as freqüências do cotidiano e lança – como um lança-chamas? – luzes sobre meus movimentos-por-aqui, ou o que chamamos de existência. (r)Existo como um animal estranho em diálogo permanente com tudoaomeuredor, numa conversa com todos e todas: todocorpoquercontato. As palavras dos outros animais estranhos me dizem dos deslocamentos, dos percursos, das sendas, das trilhas na vida: as palavras dos outros me dizem das palavras dos outros: o ouro do outro: a experiência no mundo. Alguma ponte frágil entre eu e tu, via linguagem: nos peitos o poente do sentido e a aurora do significado. Eu e tu.
Segunda garrafa: Hamlet se pergunta: “ser ou não ser?”, Pessoa nos diz, grita “não sou nada”. Eu fico perdido entre não ter asas e não saber nadar. A imagem de Montaigne surge como um assombro, como o som de um assobio: ele me diz que fala do que conhece melhor = fala de si. Não sei bem se o caso é de conhecimento. Talvez seja mais pertinente dizer apenas: falar, sem espanto ou milagre, do abismo, de dentro pra fora, do eu, do ego, da pele, dos poros. A poesia (o texto criativo) é a experiência do flerte com o ambiente e com as pessoas, a poesia é o esfregar-se na carcaça do mundo, a poesia é a construção de um canto de pássaro sem pássaro. Ou um corpoemáquina. O poema, a confissão, a escrita com vida (biografia) é a procura da possibilidade da partilha do sensível. A poesia é incomunicável, a experiência é incomunicável. E deliciosamente e absurdamente o mais delicado contrário: a poesia é a orgia, a comunhão, a participação, o entredois.
Terceira garrafa: as visões do rio, o ruído do rio. Ouço tudo que roço, todo som tem pele. Visões da garota que se matou e o poema da garota que se matou. Sidarta quis morrer e ouviu o rio: Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm. A respiração de Brahman. A vigília, o sono e o sonho. A linguagem do absoluto, do universo: o infinito deitado. A garota se matou. Carne e osso, não há nada lá. Somente o devaneio da visão, apenas o devaneio que rasga o véu de maia e nos diz que estamos lá onde não há nada ou apenas um passo antes do abismo. A conexão com o outro, a conexão consigo, a não-conexão, a confusão, a fusão, o são. O sim e o não. O não. Como no koan do imperador que sonha ser borboleta e da borboleta que sonha ser o imperador. A lucidez de quem está para morrer, a morte de quem não delira. Como a sabedoria da pele e a corrupção do tempo. Os animais estranhos e o desajuste: tatear o lugar no mundo, a (r)existência do sentido e a vertigem do desencanto. O poema da garota que se matou e a experiência da garota que se matou, a cristalização da garota numa fotografia e a voz da garota numa fita magnética. A garota não está aqui. Outra garota virá. Eu não estarei aqui. Outro garoto virá. E.
Quarta garrafa: Uma garota dormindo. Outra entra no quarto em silêncio, na ponta dos pés. Elas se comunicam, um diálogo silencioso, como dois animais que, como dois animais quando. Escrevo um poema, escavo um poema. E logo a poesia bate asas e cria mundos. Leio um poema e rapidamente a poesia ri e fica muda. A poesia é uma orgia, um êxtase: um caroço da experiência na membrana verde do espaço. Leio Blake: energia é eterna delícia. Blake vê o infinito numa flor selvagem. Eu vejo Blake num copo de uísque e observo animais que buscam o rumo de árvores com frutas alcoólicas. O animal sem nome pintou poemas nas paredes de Lascaux. Ele viu animais. Um velho xamã pinta seu tambor cósmico e me diz do frio, do rio e do raio. O xamã toca o tambor e uma águia mítica paira acima de sua cabeça. Um homem moderno cata uma gravata e uma pedra paira acima de sua cabeça. O poema fala da pedra e da águia. Eu vejo os dois animais no espelho (eu e tu), vejo todos eles e imagino meus ossos. No bar, uma garota sorri enquanto escrevo e derrubo outro copo. À noite, falamos de Pessoa, de Blake, Shakespeare, Plath. À noite não falamos e. A poesia é o jogo, a engenharia construindo pontes, a carne habitada, o orgasmo. A garota diz que já subiu uma montanha enquanto sobe em mim. Depois lê um poema sobre a montanha: projeto meu rosto com pedras. E de repente a experiência de subir montanhas me parece com um respirar ofegante. A poesia e a experiência da poesia. O rio de palavras destes animais. Rio da palavra destes animais enquanto escrevo e rio de mim mesmo. Um poema, mesmo. A experiência, mesmo. E o silêncio: alguma imaginação. Algumas garrafas de uísque dizem o mundo que leio num poema asteca, como um vadio animal estranho. Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath estão mortos. A experiência de Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath está morta e renasce: tempo mítico, cosmogonia, via linguagem. O poema, o corpo do pouco que permanece por aqui, entre os lírios que ainda não foram queimados pelo tempo, entre os leões que nos arranham os estômagos por dentro. Ponte, parte: poema do parto: a turva visão do que foi, do que o tempo rói, a revisão do que dói. A minha experiência no mundo. Ou ficar mudo. Ou tudo. Ou tu. Absolutamente eu e tu, em tudo. E no nada. Nonada. Andada em bando. Quando? Não sei e ando, ando, ando, lendo e revirando os ossos da experiência do bando, os que viram a carcaça e já riram, sumiram nus. Enquanto não morro, ando. No bando, com sol, chuva ou nublando as nossas cabeças com o como, o porquê, o quando. Nu, ando.
Terceira garrafa: as visões do rio, o ruído do rio. Ouço tudo que roço, todo som tem pele. Visões da garota que se matou e o poema da garota que se matou. Sidarta quis morrer e ouviu o rio: Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm, Ôm. A respiração de Brahman. A vigília, o sono e o sonho. A linguagem do absoluto, do universo: o infinito deitado. A garota se matou. Carne e osso, não há nada lá. Somente o devaneio da visão, apenas o devaneio que rasga o véu de maia e nos diz que estamos lá onde não há nada ou apenas um passo antes do abismo. A conexão com o outro, a conexão consigo, a não-conexão, a confusão, a fusão, o são. O sim e o não. O não. Como no koan do imperador que sonha ser borboleta e da borboleta que sonha ser o imperador. A lucidez de quem está para morrer, a morte de quem não delira. Como a sabedoria da pele e a corrupção do tempo. Os animais estranhos e o desajuste: tatear o lugar no mundo, a (r)existência do sentido e a vertigem do desencanto. O poema da garota que se matou e a experiência da garota que se matou, a cristalização da garota numa fotografia e a voz da garota numa fita magnética. A garota não está aqui. Outra garota virá. Eu não estarei aqui. Outro garoto virá. E.
Quarta garrafa: Uma garota dormindo. Outra entra no quarto em silêncio, na ponta dos pés. Elas se comunicam, um diálogo silencioso, como dois animais que, como dois animais quando. Escrevo um poema, escavo um poema. E logo a poesia bate asas e cria mundos. Leio um poema e rapidamente a poesia ri e fica muda. A poesia é uma orgia, um êxtase: um caroço da experiência na membrana verde do espaço. Leio Blake: energia é eterna delícia. Blake vê o infinito numa flor selvagem. Eu vejo Blake num copo de uísque e observo animais que buscam o rumo de árvores com frutas alcoólicas. O animal sem nome pintou poemas nas paredes de Lascaux. Ele viu animais. Um velho xamã pinta seu tambor cósmico e me diz do frio, do rio e do raio. O xamã toca o tambor e uma águia mítica paira acima de sua cabeça. Um homem moderno cata uma gravata e uma pedra paira acima de sua cabeça. O poema fala da pedra e da águia. Eu vejo os dois animais no espelho (eu e tu), vejo todos eles e imagino meus ossos. No bar, uma garota sorri enquanto escrevo e derrubo outro copo. À noite, falamos de Pessoa, de Blake, Shakespeare, Plath. À noite não falamos e. A poesia é o jogo, a engenharia construindo pontes, a carne habitada, o orgasmo. A garota diz que já subiu uma montanha enquanto sobe em mim. Depois lê um poema sobre a montanha: projeto meu rosto com pedras. E de repente a experiência de subir montanhas me parece com um respirar ofegante. A poesia e a experiência da poesia. O rio de palavras destes animais. Rio da palavra destes animais enquanto escrevo e rio de mim mesmo. Um poema, mesmo. A experiência, mesmo. E o silêncio: alguma imaginação. Algumas garrafas de uísque dizem o mundo que leio num poema asteca, como um vadio animal estranho. Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath estão mortos. A experiência de Blake, Pessoa, Shakespeare, Plath está morta e renasce: tempo mítico, cosmogonia, via linguagem. O poema, o corpo do pouco que permanece por aqui, entre os lírios que ainda não foram queimados pelo tempo, entre os leões que nos arranham os estômagos por dentro. Ponte, parte: poema do parto: a turva visão do que foi, do que o tempo rói, a revisão do que dói. A minha experiência no mundo. Ou ficar mudo. Ou tudo. Ou tu. Absolutamente eu e tu, em tudo. E no nada. Nonada. Andada em bando. Quando? Não sei e ando, ando, ando, lendo e revirando os ossos da experiência do bando, os que viram a carcaça e já riram, sumiram nus. Enquanto não morro, ando. No bando, com sol, chuva ou nublando as nossas cabeças com o como, o porquê, o quando. Nu, ando.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
poesia: técnica do êxtase
escrevo
como um leitor:
com as possibilidades
do incêncio
possesso
como uma pálpebra
coberta de árvores.
como um leitor:
com as possibilidades
do incêncio
possesso
como uma pálpebra
coberta de árvores.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
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