domingo, 4 de novembro de 2012

trouxe
do supermercado
um pouco
do universo
em conserva,
mas esqueceu:

a erva,
um louco
e um verso
alucinado.
pensamentos descalços
num passeio de bicicleta

enquanto no coração
tosse e amor
se revezam.

oração silenciosa
da rosa rugosa:

nenhuma rusga
com o musgo.
o futuro e as formigas
cobrem minha barriga

a noite abre a boca
a boca abre a noite

hora pacífica,
asas, éter:

filme ancestral
no tornozelo.
pouco medo
instalado
na medula

fico à toa
de papo
com a papoula.
mulheres magras, bagres
revoada de tigres
e ogros.

lembrar das sombras,
treinar os ombros.
um cabrito
guarda no estômago
o capim do mito.

um cavalo
come algas e o grito
de águias.

assobio
do tambor

no tímpano.

uma xamã
sobe na árvore lilás
para amamentar
a manhã.
a loucura é um sopro
no ouvido. ovíparos
ao redor da lanterna
e um terno incendiado
azul como um domingo.

hortelã no hotel lunar,
abacaxi e papoulas.

um pomar de acerola,

pulmão cósmico generoso.

grous repartem
lagartas chapadas de haxixe.

a noite é uma formiga
de tocaia, sobre a barriga
dos últimos chimpanzés.
há uma porta
na folha: olha.

a chuva molha
a passagem.
a viagem é
torta.
vidente vagando
com um casaco arcaico

dentes estragados
e bagos de uva

óvulos, violetas
e as asas da coruja

medula, sangue

e a sabedoria da seiva

viagem vagarosa:
as pernas ouvem
o ruído da rosa.
ruminando
a grama escura
do abismo.

coração amargo:
nenhuma ameixa
me deixa sereno.

uma leoa pousou
nos meus ombros

e sumiu.

desordem do dia:
nuvens de ideias
são vespas
numa garrafa vazia.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

um macaco, uma coruja

a morte acontece,
como o dia e a noite.
palavras e dentes
caem no chão.

um pulo, um urso
o dorso de um tigre
um ogro tomando pílulas

num ônibus noturno.

um poema, um ruído
o silêncio do vidro
folhas verdes
no coração.

um macaco, uma coruja
desenhando estrelas
nas gotas da chuva.

um sussurro, um eco
um treco qualquer:
um soluço.
as ervas
me telefonam
das trevas

e desenham
a retina
do breu

antebraços
dos chimpanzés

cobrem a lua

e escondem
um carvão
entre os dentes
de deus.
de volta para o futuro recife

eu tomo um gole de ácido
tenho a gula de asas
ainda ando descalço
apesar das ruínas das casas

milhões de carros

atropelam minha alma
não tenho calma
neste inferno cheio de prédios

porcos e urubus
lotam os elevadores
a cidade arregala os dentes
e cospe em nossos amores

chove merda
nos corações dos pedestres
e a polícia toca fogo
nos bilhetes das passagens extraterrestres

as pernas saem do chão
e pisam no teto
de concreto sobre o mangue
e sua monocultura de torres

estou cego e vejo
as faíscas e lampejos
das caronas com os discos-voadores.

sábado, 22 de setembro de 2012

a pupila do afeto
desconhece teto
salta sobre o muro

o coração
é um carvão
da memória do futuro

o silêncio
é um gato
que enxerga
no escuro.
guarda gravetos
na gaveta

cospe cacos
do coração

sopra sapos
na sombra

avista alma
da avelã.
o que será
de nós
além de nus?
mantra

o que existe
é o êxtase.
doces lampejos
dos delírios

arcanjos alucinados
colhem lírios.
o vento
carrega uma canção
na barriga

as folhas
abrem a boca
do tempo

uma serpente
engole a lua


corações
cavalgam a noite
da floresta

pupilas mastigam
a escuridão.
a mandíbula
de uma estrela
adormecida

o fêmur
de um lêmure
distraído

o ouvido
de uma avenca

vesga

a ruga
de uma vespa
rindo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

lua cheia
rachou a mente
guardada nos bolsos
da garota de sorte.
garrafa de urânio
e eu leio
um poema de petrônio
num mural

enquanto
alguns gnomos
distribuem gomos
de tangerina.

domingo, 2 de setembro de 2012

cair na cama
com calma:
mergulho
n'alma.

amor num mar de muito



o amor enche a barriga de grilos
(uns nove quilos).

deixa a mente
num aquário de aguardente.
cobre a alma
com folhas de cobre.
morde os olhos e os dedos,
depois cospe alguns medos.
coloca carvão na medula
e amarula no coração.
assobia canções nos ouvidos
sobre mastigar vidros.
guarda um jaguar
no calcanhar.
massageia as pernas e o pescoço
e entrega água
de um poço sem fundo.

o amor fortalece os ossos.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Anti-Tirésias



      Caminhamos sobre um abismo de imagens, entorpecidos pelo volume assombroso de vultos e espectros cotidianos, olhos embaciados pelas vertigens eletrônicas, virtuais; e mentes fustigadas pelas demandas torrenciais das mediações imagéticas entre o mundo objetivo, do espetáculo e a noz da subjetividade. Somos um batalhão de anti-tirésias, videntes sem profecia, olhos abertos para não-ver o mundo, seguindo a corrente sufocante da ditadura do rosto humano - já nem lido, apenas deslizado numa superfície interpretativa, banalíssima. Apartamentos apinhados de tecnologias: câmeras, scanners, binóculos, lupas, etc. E o que vemos? Nem a sujeira no nosso umbigo. “Os animais entraram na imaginação primeiro com mensageiros e promessas”. 

A história de nossa espécie é permeada, costurada com nosso próprio sangue e o sangue das outras espécies, além da seiva e das matérias inorgânicas dispersas e subjugadas sob nosso sonho panóptico e de poder desmedido. Não vemos, de olhos bem abertos, a crueldade diária que se inscreve sobre os ombros da multidão sem-nome (animais e animais humanos). E a parte humana da multidão sem-nome segue comprando comida nos pet shops para gatos e cachorros, percorrendo os corredores dos supermercados para conseguir atum em lata, porcos retalhados em deliciosos pedaços de bacon, camarões congelados, bois e vacas recortados sem a memória do mugido, galinhas empacotadas no plástico onipresente retirado, desdobrado das entranhas da terra sob a forma do líquido negro vital para a sociedade de apetite insaciável. Apesar das tecnologias de “visão além do alcance”, ou justamente por elas, não percebemos a dispersão cruel das presenças animais no percurso de nossas vidas: a “redução do animal, que tem uma história teórica e econômica, é parte do mesmo processo pelo qual os homens têm sido reduzidos a unidades produtivas e consumidoras isoladas”. 

Satisfeitos em nossas baias, percorrendo velozmente as estradas sofisticadas do delírio assassino e asséptico, transferido, lidamos com os animais apenas na medida de nossa fome. Mesmo que os “animais da mente” não possam ser facilmente dispersos, seguimos nossa voragem cheia de dentes, confortavelmente acomodados nos sofás, bebendo leite da cabra nunca vista, comendo carne de lata ou algum sushi. E, depois da refeição, ou ainda durante ela, ficamos nos entretendo com os desenhos do pato Donald, as aventuras da formiga atômica, as desventuras da turma do urso Zé colmeia, etc. 

Eu não vejo a foto do elefante dentro do útero (apesar da insistência da National Geographic). Eu nunca vi um elefante, nem mesmo na prisão/escola/manicômio designada por zoológico. O que eu vejo, envolvido num tom róseo, sanguíneo, é um fantasma, uma lenda, um mito – aparição sobrenatural, de olhos fechados. Observo, mas sedado. “(...) animais são sempre os observados. O fato de que podem nos observar perdeu todo o significado. Eles são os objetos de nosso conhecimento sempre crescente. O que sabemos sobre eles é um índice de nosso poder, e assim é um índice do que nos separa deles. Quanto mais sabemos, mais distantes eles ficam.” 

Vejo um futuro mamute, mera imagem retórica povoando algumas camisas, discursos, nomes de bandas ou qualquer outra bobagem que não possa me ferir. Apontamos nossas câmeras para os animais como se fôssemos documentaristas de zumbis, fascinados pelo dedo que aponta a lua – e sem ver sequer o lado claro da lua. Fotos, filmes, brinquedos de pelúcia, carrossel, mascotes, jogo do bicho: caricaturas sem sangue, sem possibilidade de verdadeiro encontro. “Zoológicos, brinquedos animais realistas e a difusão comercial ampla de imagística animal, tudo isso iniciou quando os animais começaram a ser afastados da vida cotidiana. Poderíamos supor que tais inovações foram compensatórias. Mas na realidade as próprias inovações pertenciam ao mesmo movimento cruel da dispersão dos animais”. 

Como um exímio anti-tirésias, não vi a ausência do elefante, nem recebi uma visão profética de tempos renovados de respiração no mundo natural. O que eu vi, numa fotografia digital, foi um beco, foi um eco, pálido, de uma vida destroçada pelo vírus humano e sua jornada de câmeras, dentes, pólvora e foguetes caralhudos: arsenal de tecnologias de extermínio. Visão opaca debaixo do sol, humanos a sós.

*os trechos entre aspas fazem parte do ensaio "por que olhar os animais?", de John Berger, no livro "Sobre o olhar".

quarta-feira, 21 de março de 2012

nós
nus
nas noites

no interior
dos corpos

no copo
das mentes

na cama
que está
no chão

no ciclo do são joão
no fôlego do sim
e no coração-cabeça.

não esqueça:
a noite e o dia:
juntos na festa, na caverna, no lago e na relva:
no ninho - caminho de palavras e línguas:

- braços e pernas:
- ossos e almas:

inventamos o território
de uma alegria e de um sorriso:

- não cessa.
árvore gigante
onde o pássaro do sonho
pousa e delira

trilha dançante
onde o peixe da visão
anda e respira

floresta e canção
onde o leão
vive e revira:

o tempojunto,
cheio de vida.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

arrancar
um a um:

os cabelos
da vertigem.

os dentes
da tempestade.

os olhos
da noite.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

bêbados traduzindo
poemas tibetanos

os sapatos roubados
dos supermercados

o vento é um cavalo:
vinho irrigando
as pupilas.

brenha cósmica,
manuscrito do mandril
no musgo.
há um imenso trabalho
para a boca vegetal da loucura:

comboio de corças incendiadas

deusas cuspindo gafanhotos
sobre os dorsos dos tigres

imigrante chinês
traduzindo poemas anarquistas italianos

bolas de gude
feitas de pequenos sóis

palhaço ancestral
revirando as cinzas da fogueira
de ossos

gnu guardando gravetos
na gaveta do inverno.
poemas e garrafas de vinho:
intuição magnética.
eletricidade remoendo
a nuca e os calcanhares.

caminho
aberto pelo acaso.
corpojunto,
carinho.

respiração e memória.
gargalhada dos ossos, galáxia dos olhos.
energias deliciosas cobrindo pernas,
peitos, umbigos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

animais
roendo a madeira
e a imaginação

alma verde costurada
nos dentes do tigre

a lua fervendo
a linguagem das águas

crânios de ursos
e colunas de pedras:
passagens, cavalos
para escalar o azul.
chuva de ácido
sobre os cabelos
dos centauros
trotando nos travesseiros

as bochechas
do fogo comendo
insetos e certos
cantos antigos

a pança do tempo:
abrigo rigoroso
do infinito

mosquitos desenhando
sorrisos nas costas
dos crocodilos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Visão da Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática

(...) e alguns sabem que não é preciso procurar muito tempo para encontrar, dentro da Gaveta Enferrujada, entre os bonecos dos loucos, dos bêbados e das atrizes, um carimbador patético. Ele facilmente se torna ridículo e se embriaga com qualquer porção efêmera de. Você pode notar tranquilamente que ele sofre da síndrome do pequeno poder. Como um cabo setenta borra-botas, fica mergulhado em sua jornada histérica de autoridade: com seu carimbo, despacha porções extras de amendoins para os bons-moços listados na planilha de Normas Técnicas e Bom Comportamento da Reunião da Comissão Setorial de Planejamento e Distribuição de Comidas com Flavorizantes.

O carimbador patético é um pobre-diabo, hipnotizado pela repetição robótica de seus gestos esvaziados de qualquer sentido, qualquer bom senso. Ele põe em movimento uma farsa deliberada: ao carimbar as fichas dos participantes da reunião contemplados com as porções extras de amendoins, finge para si mesmo que seus gestos são importantes e organizam os desordenamentos do mundo. Aos ajustados, amendoins.

Os bêbados, os loucos, as atrizes não recebem amendoins extras, entregam os amendoins regulares e se divertem com a cena toda: como um bando de galinhas no confinamento, os ajustados bicam os grãos, com um riso de felicidade comprada no supermercado, corredor nove. Para o carimbador patético, e apenas para ele, isto soa como um juízo final, como um julgamento no qual ele é senhor. Mesmo sem ter idéia alguma de como trazer vida e mágica para seu dia estéril, entre amendoins. O carimbador patético nunca viu o amendoim na terra, uma plantação. Apenas repete os gestos para os quais finge ter vocação: confere os pacotes de porções extras, confere os cadastros com os históricos dos participantes. E carimba, carimba, carimba.

Ficou lambendo as solas dos sapatos do poder, considera que alcançou um excelente posto de trabalho, não precisa fazer mais piadas sem graça enquanto enche um copo com água, tem direito às porções extras de amendoins e ainda usa seu carimbo durante toda a jornada de trabalho – mas também fora dela. Afinal, qual a graça de ser um carimbador patético apenas na Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática? O carimbador não conversa com os loucos e bêbados e não trepa com as atrizes, mas sente-se vivo enquanto toca o carimbo na almofada de tinta e depois desce com força sobre as fichas cadastrais. Os idiotas herdarão os amendoins: o carimbador patético vive para cumprir isto. Os loucos, as atrizes e os bêbados dançam durante dia, tarde e noite, vivos, com uivos. O carimbador patético come amendoins.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Osso ruído


ouvir o rumor

de espíritos (tutano

inundando os lagos).


roer o ouvido

de vidro (faca

cravando na cova

do morto-vivo).


reger o umbigo

do infinito (mosca

voando sobre abismo).


umedecer as garras

do mito (máscara

fumando as visões

do esquecido).

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

a cabeça encostada
na árvore.
meu reino
por um punhado de alucinações.
garotas nuas distribuem panfletos
anarquistas. uma multidão
canta as novidades lunares.

eu andarei sobre o rio
congelado da memória
atravessando a noite e o dia.

entregarão meu cadáver
aos abutres do himalaia.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

eu vi a árvore
cujas raízes mergulham no inferno
e os galhos alcançam o céu

eu li o voo dos pássaros
e o incêndio no véu da ilusão

eu ri do exército de idiotas
batendo boca com o abismo

o tambor é um tigre
mordendo as costelas do tempo

eu vi meu esqueleto atravessar
a membrana verde do espaço

eu li as canções do vento
nas costas da deusa

eu ri da tempestade ancestral
e do caroço da verdade

o tambor é um cavalo sem sede

eu vi a garota ruiva
triturada pela indústria

eu li as tensões e fadigas
nos músculos dos primatas

eu ri do desejo pelo mar
de coisas e coisas e coisas

o tambor é um gafanhoto
roendo a mente

eu vi o dragão lambendo
o corpo nu da cidade

eu li os corações acelerados
da multidão

eu ri dos bípedes trocando
energia vital por cimento e solidão

o tambor é um macaco magnético
perambulando na noite primordial.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

derrubar estrelas
sobre nossa aldeia

descobrir idéias
numa fruta que apodrece

dissolver a imagem
deste ego breve

descascar as sombras
que envolvem a pele

duvidar do sol.
como um corpo
deitando na lama:
cama calma
para a alma em chamas.

como um corvo
desviando da sombra.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

mordendo:

as pernas do medo
os olhos da vida
as uvas do tempo.
uma navalha, uma pupila
um gole de vinho no escuro

um corpo deitado
sobre cacos de vidro:

a respiração do futuro.
procurar uma montanha
que manteha acesa
minha lua no peito
e que ponha um segredo
sob as unhas do vento.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

cachorros e antenas digitais
um gole de vinho
perto do abismo

a noite temperada
e o incêndio ancestral
(a boca da terra)

palavras & desordem:
garimpo da alma

a Mulher Que Ri
e um babuíno num colchão
na casa da árvore.
um mosquito
engole o infinito

o sol espalha brasas
nos telhados das casas

calço os sapatos
costurados pelos ratos

a chuva renova
as flores da cova

há um leão
no ventre do grão.
deitado
junto das vacas verdes
com os dentes
mordendo a alma

árvores
nos ensinam canções

e nossos corações e o sonho
mugem dentro da sombra.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

sonho com sóis
saindo da selva

saúdo as sombras
serenas do sexo

sopro as seivas
secretas do sonho

sementes sangrando
séculos de saliva

e um símio com sabre
seccionando o sublime.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

a mente
é uma asa

roendo o espaço
azul

cavalos
comendo a lua

a água
desaba
sobre as pernas
do tempo

hipnotizando
fêmeas ancestrais.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

asas pequenas.
um texugo colhendo
manhãs
na fumaça das nuvens.

ilha do voo
tempo de água e lua
na garganta
do pássaro.

cem anos
fogueira & pupila

formigas cantam
nas dobras do vento

o ventre.

desenhos
e chuva (rio calmo da respiração).

peixes escrevem
as frutas vermelhas
na vértebra do sono.

ruídos e canções
de baleias
sobem em meus olhos.

sono
ninho ancestral das visões.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

o poema se faz
com o barulho dos ossos.

a poesia é ruído
distúrbio, transgressão
(os sons do corpo mamífero).

o poema cria
o abismo com violinos
e a vertigem
(as alucinações caóticas
do deserto do real).

a poesia é o incêndio
do encontro e o acaso:
olhos do nômade
na paisagem de animais.

a poesia é o vinho
da visão.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

em memória de rafael banana

a grande boca
do incompreensível
mordeu meu amigo
no peito

e me deixou aqui
no abismo.

sábado, 5 de junho de 2010

os dedos
inventando
a respiração
do fruto

tocando
fogo na noite

ouvindo
as palavras
que a terra
tatua
no corpo
do entusiasmo

doidos cometas
das visões
saltando nas pupilas
e formigas
comendo as passagens
da lua.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

noo telum

vaniali vaniali
tinub olori

golub golub

tivuna fuli
pice donula
ine ine ine
devimo amba
ponure ponure
lit teg teg teg

blub blub nut

nia zast

tulima tulima
rung rung peri tialo
totemoc totemoc

ishi nai zaden
ishi nai zaden

gampera
golivu nobi.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

um dia cinza:
fatigado & gordo.

noite & noise:
instigado mordo.
tempo cósmico
ruminando as entranhas do animal.
e mergulho da sombra
no lago.
pegou um corpo de pássaro
e colocou dentro da geladeira
de sua mente.

ouviu um ruído um ruído um ruído
e som de água correndo.

algumas nuvens
desabaram chuva sobre os olhos
da paisagem.

deitado na montanha de sonhos e devaneios
derrubando algumas constelações
no chá de ervas cósmicas.

ao redor da fogueira
escrevendo as pinturas
no chão e no abismo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

avenida universo

antes que o dia acabe.
antes que eu cubra o rosto.
antes que o gosto estrague.
antes que descubra um poço.

eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo


antes que a luz se esconda.
antes que a onda passe.
antes que a foice pense.
antes que arranje um disfarce.

eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo

eu deitarei na avenida universo

antes que a cãimbra espalhe.
antes que o espelho quebre.
antes que a lebre corra.
antes que morra ou neve.

eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo
eu deitarei na avenida universo

eu deitarei na avenida universo

terça-feira, 2 de março de 2010

o homem se encontrará como a água num desfiladeiro
e do qual poderá sair se, assim como a água, mantiver a conduta correta.

segunda-feira, 1 de março de 2010



















ela me disse: desmantelado.

e logo me vi
como um inseto verde e gigante
voando sem direção numa floresta tropical.

e logo me vi
como um personagem de um conto
do velho buk: copo de uísque
na mão e a viagem de ácido
na cabeça. procurando numa pilha
de papéis um poema anotado
na noite anterior no interior terno
do quarto desfigurado.

desmantelado:
o pensamento perambulando por paisagens
incineradas. a risada diante do agente
cartesiano. o cotidiano transfigurado
numa fábula fantástica. a enigmática
equação do comportamento íntimo.

desmantelado: eu estarei por aí
na vertigem da questão: a verei do meu lado?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

prévert quintana

deitado no infinito
comendo uva
vejo um tigre de Bengala
e um gato de guarda-chuva

desenho um mosquito
numa gruta escura
escondo os meus olhos
nos bolsos da loucura

registro assobios
numa fita magnética
escrevo no teu corpo
uma história erótica

enterro canções do sol
no ventre da memória
queimo as roupas no varal
(as cinzas contam a história)

cheiro a alma dela
toda a madrugada
mergulhamos nos abismos
e criamos a estrada

o mantra da vertigem
move nossa viagem:
o que existe
é o êxtase.
ecos e alucinações
os minérios da memória:

chuva e peixes
dentro dos bolsos.

história escrita
no voo da árvore.

vertigem e
música do sangue.

um pássaro
inventa o mar.

magma de imagens
na alma elétrica.
um peixe solúvel
no copo de leite.
um silêncio de pássaro
no peito da árvore.
um pouco de neve
no vermelho da gengiva.
um macaco quieto
no umbigo da montanha.

um olho andarilho.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010











o sol lisérgico e colorido
recombina meus sentidos:
invade a janela
e meus ouvidos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

o poema se faz com o barulho
dos ossos. A poesia é distúrbio,
ruído, transgressão - os sons do corpo mamífero.

O poema cria o abismo com violinos
e a vertigem (as alucinações caóticas do deserto do real).

A poesia é o incêncio do encontro
e o acaso: olhos do nômade
na paisagem de animais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

escrevi um poema
depois que acordei
e desci do ônibus:

vi uma garota
comendo ameixas
dentro da chuva.
não demora
e a vertigem do horizonte
se instala:

numa amora
num jazz
num amor.