sexta-feira, 29 de novembro de 2013

javalis bebendo água
no charco da pupila.

sol, sangue quente:
corações saudando
o vento no capim.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

serenamente incinerar
a segurança aparente
dos planejamentos.

as fobias, o caos
de cimento
e seu sufocamento ígneo
sejam apaziguados
na saliva antiga
da mãe aquática.

totem & tutano,
tu estando aqui:
tudo bem.
todo poeta
se perde com mapas,
é míope e mastiga
espinhos e pétalas.

todo poeta
está em guerra
& paz consigo,
urra e berra,
debaixo do sol,
se nutre do sangue
do umbigo da terra.

todo poeta
é uma puta
consertando
bicicleta.
todo poeta é holden
apanhando um punhado
de estrelas suicidas,
apunhalando coelhos
dos mágicos caolhos .
 

todo poeta bebe
com a morte e foge
com as equilibristas.
proponho um esquema:
troco soluço e problema
por um monte de poema.

proponho uma escama:
o silêncio, pachamama
e um verão na cama.
transmissão radiante, místicas
bolivianas partilhando bolas de gude,
crianças assobiando e o sol bebendo
e bebendo copos de suco do céu alaranjado.

fumaça azul, saudade e aeroplanos
guardados/grudados no calcanhar.

domingo, 24 de novembro de 2013

meu carma adormecido
no ovário da papoula,
cama aquecida
com o roçar
das peles.

medicina da alegria
no riso incontido:
as nuvens dizem
uns mistérios
do ar.

sábado, 23 de novembro de 2013

e fico pensando quem
vai pegar o trem
que leva a lugar
nenhum
o corpo que sente
não é uma máquina.

o corpo que santo:
sangue, seiva, ar

) o corpo ( y ) o canto (
a montanha também
tem seus pensamentos.

neblina, poeira sacudida
pelo ar, grão das vozes
de morfina da manhã.

buda deitado mascando
sementes de cânhamo,
manto das árvores
que bailam.
paz & paranóia, a máfia
lambendo os olhos solares
das vacas azuis sagradas.

lâmina do pensamento
boiando na carne do rio.

gritaria, insetos dançando
na gruta, céu da boca nublado:
plantas dos pés germinando.
teatro da música eterna, ouçam
o trabalho das fricções, a cidade
evaporando lamentos e sonhos,
assobios e assobios e assobios.

carcaça e cárcere, cachaça e sol
costurando doidices de pedra
na boca dos macacos.

ruminações, ramas
verdes, apesar.

dança rodopiante,
voz da galáxia
mais distante
do umbigo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

daqui pra lá:
prana, pular
ondas, polir
medulas.

daqui pra lá:
prumo, lar
sensível, öm,
ir até o im-
possível.
a esperança
é uma onça
subindo
em árvores

a esperança
é uma onça
nadando
n'água clara

a esperança
é uma onça,
pequenina e
forte, uma
criança.
amor divino,
divina amora:
hora da canção
de eros & aurora.
mulher azul
do horizonte,
homem verde
debaixo do chão.

vento assobiando
entre as árvores,
vento dentro
das pessoas.

ar sagrado,
ar sagrado,
ar sagrado.
tartaruga, rosa rugosa:
haverá sabedoria, sapo
batendo papo na porta
do crânio, uma magnólia
e delícia que se renova.

sábado, 5 de outubro de 2013

apropriação do relato do pato, da morte e da tulipa

não haverá lago, não haverá ego. subiremos
numa árvore e não desceremos logo.

entre os galhos, entre as folhas ficaremos
e então, iremos para as raízes, decompostos

e recompostos.

luz do sol, energia da lua:
sobre nossa carcaça surgirá
a alma de um dervixe que gira
e antecipa o vermelho da tulipa.

assim é a vida, pensou a morte.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

o riso é oração,
a razão é covarde.

a tarde da mente,
o dente do improviso.

visões, fricção
da pele com a terra,

experiência da quietude, alma
fértil para sementes de alegria.
melhor dizer amanhã,
molhar e ser a manhã.

melhor dizer amanhã,
molhar e ser a manhã.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

nem o chumbo do passado,
nem o chumbo do futuro.

só o mambo do presente,
só o mambo do presente

e sobre a tumba do ego
uma rumba, outra rumba.
o que eu chamo
de sorte é um
toque ligeiro,

estar inteiro
numa percepção
singela:

nem lembrar
da morte

r e s p i r a n d o

no ritmo
do riso
dela.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

alegria sem causa,
amor com asas
ultrapassando
os muros das casas
dos egos feridos.

alegria sem causa,
mares e abrigos,
acolhimento
e ouvidos.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

árvores viajam nas profundezas,
raízes sondando os sonhos
da terra, paz aquática
nutrida nas delicadezas.

árvores viajam lentamente
na barriga dos pássaros,
passos firmes no céu imenso,
incenso povoando a mente.

árvores viajam no sangue,
nos guinchos dos saguis,
árvores me começam
e abraçam minhas filhas.
para ficarmos nus
é preciso desatar
todos os nós

corpos inteiros,
almas plenas
na dádiva presente

e na memória
nenhuma dor
será alimentada.

para ficarmos nus
é preciso a risada
do lótus azul.

sábado, 14 de setembro de 2013

com amor amansar
um pedaço de mundo
e nele se instalar.

inundar de sonhos a vida
numa defesa contra a morte
antes da morte, cotidiana.

sorte do louco, sorte:
ouvir muitas águas
correndo, correndo.

cultivo erótico da jornada
rumo ao umbigo do sagrado.

poesia, eco do afeto:
flutuação dos leopardos
atentos às perdas das pérolas.

experiência contínua, garota
nua comendo amoras, amores
salivando sobre as auroras.
li o silêncio todo
li o silêncio todo
li o silêncio todo

deitei, deitei e fui
coberto de lodo.

uma livre adaptação de trecho de black elk (1863 - 1950)

deixe-me ouvir
as lições escondidas
em cada folha e rocha.

eu busco forças
não para ser maior
que meu irmão e irmã

mas para lutar
contra meu maior
inimigo, eu mesmo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

estudo dos modos de nutrição dos delírios

inspira e respira, maninha,
andando para lá e para cá.

oxigênio e movimento
são levitações.

equilibra a fome de afago
sem apego, exercita o amor
entre as devastações do incêndio
e as águas calmas que excitam as almas.

grita nos ritos das grutas e das ruas,
rodando no samba das sombras.

maninha, tira cochilos na morada divina
e, ao acordar, não acompanhe a caravana
de pessoas tristes, mas cante e ame.

conseguir é seguir, maninha, com raízes
e sonhos na terra entre ervas daninhas:
a felicidade possível é uma benção,
invenção para muitas noites e dias.

delírios são flores, maninha,
no útero azul do futuro.
nossa respiração
salta o muro.
menor ideia sobre a dinâmica
da escritura do vento nos ouvidos
e espalhando meus cabelos

menor ideia sobre a distribuição
das plantas e estrelas ao redor
das fogueiras nas praias

menor ideia sobre a noite longa
que se estende nas quedas
dos anjos e das cachoeiras

menor ideia sobre a vertigem
do ego devorando as pernas
das aparições carinhosas

menor ideia sobre a gestação
dos diamantes na língua
perdida do amor

menor ideia sobre a geladeira
que acolhe as lembranças
das cidades solares

menor ideia sobre a cabeça
gigante que o martelo
do tempo acerta

domingo, 1 de setembro de 2013

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no barco bêbado da noite
embalados pelas canções
das vespas e dos estômagos.

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no tapete voador usado
que guardei como vinho
para soluços e festas.

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no elefante perguntando
ao pó sobre nossos dias
entre cinzas e sonhos.

sábado, 31 de agosto de 2013

o xamã virou um sapo
e continuou batendo papo
sobre a coragem do primeiro pássaro.

amanhã eu vou lá ontem, disse.

eu fiquei tentando ler a fumaça
que subia e dançava sobre sua cabeça.

a fogueira iluminava as pupilas, panteras
mordiam as tristezas e as carregavam para longe.

vi uma estrela sortuda caindo na língua do sapo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

a rã é a mãe
da montanha.

aranha, mãe
da manhã.

avelã, olho
do deus caolho.

ovelha, telha
dos dias frios, lã.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

gatas alucinadas mascando menta:
as sete irmãs do sono.

elefantes embriagados
vivendo de cervejas
e laranjas.

lebres, sonhos doidos,
gotas da chuva.

lagartas azuis penduradas
nos telefonemas da grande calma.
seja como água, meu amigo,
disse bruce lee sorrindo.

dobrando, esticando, tudo
se move e canta e fica mudo.

seja como água, fluindo,
indo embora toda hora
sem sair do umbigo
do agora.

seja como água, sumindo
no ouro do outro, rindo
das cascas das formas.

seja como água, água
de beber, camarada,
água do banho nu
no rio da madrugada.

seja como água, vazio
é forma, forma é vazio.
seja como água, seja
quente, quente, frio.
ritual,
ri tua alma.

tesoura da vontade,
tesouro do vento de
agosto com saudade
do besouro desatento.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

dormem bem, seguem
tranquilos papeando
a noite inteira em sonhos
com fantasmas e grilos.

abandonaram a paranóia,
esta sensação velha,
de tentar obter uma jóia
polindo uma telha.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

o silêncio do grilo pesa
pouco mais que uma
tonelada de linho.

lembrando beto barbosa

a garota grita, berra
a garota urra, brada

dançando lombrada,
dançando lombrada.

(repete enquanto
houver canto)
mago lombra
quase não
faz sombra,
tão esguio.

mago lombra
pouco lembra
da viagem,
tanto frio.

mago lombra
vai embora
de lambre-
ta, sumiu.

domingo, 25 de agosto de 2013

via expressa para teu esqueleto,
amores e amoras, ataraxia.

roubaremos as cargas do trem,
montaremos cometas prateados.

bolsos furados pelo fogo, logo
cantaremos os mantras das lontras.

garota, gritaremos pelas ilhas por
diversão e nus apreciaremos o silêncio.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

tranquilidade, somos
poeira cósmica,
maninha.

que os olhos não cansem
e as almas guardem
trampolins do espanto.

o ouro é colisão.
tanto brilha, cega.
deitemos no telhado,
observando o céu.

sejamos humildes, maninha,
feito escaravelhos sagrados
que embolam bosta orientados
pelas luz das estrelas.
não morra antes
de morrer, não
corra antes de
ouvir o vento
chegar, não
jorra vinho
antes da
(se)mente
mirar: chão.
vai, abraça e ama:
a lua, a lua brilha
na poça de lama.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

amar
a mulher
e o mar:

desatino,
destino.

enigma do sol,
enigma do sal,
enigma do sul
dos corpos.
pedaço de aço
em flor convertido
pela senhora vida
com seu capricho.

tudo renasce, respira.
e o presente, mesmo
com este dente
no pescoço, é
uma maravilha: seibá
do sabiá da sabedoria.

domingo, 11 de agosto de 2013

o céu e a carcaça
a praça e o umbigo
o inimigo e a criança
a esperança e o amargo
o embargo e a bonança
a pança e o esquelético
o profético e a dança

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

coragem, meu bem, coragem:
eu sei que a viagem é longa.
te prepara, descansa, alonga.
beijo tuas pernas, faço massagem.

atravessaremos as madrugadas,
viraremos pelo avesso as estradas:
todas as trilhas, sendas, entradas
nos levarão para longe das ciladas.

tenha fé, seguiremos a pé, tenha fé:
há festa e felicidade, aprendizados
dos ritmos, audições do rio, nós rimos.

nadaremos, meu bem: a água educa
nossa cuca cansada, lábios, olhos, almas.

corpos e almas em suspensão

ávidos de vida, entre
idas e vindas, dentes
e danças nos fogos,
madrugadas, línguas
fervendo nossos corpos
(mapas): dois primatas
no cio das matas.

meu frágil calcanhar:
abocanhar teus mamilos.
viro jaguar, vários felinos
na folia das lambidas.
olhos de tigre, trago
teus sussurros e gemidos
para festa dos meus ouvidos.

linda e nua, debaixo da lua
você me alegra, você me alaga
a boca quando louca usa
as mãos agitadas e ternas
para grudar ainda mais
minha cabeça entre as
tuas pernas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

não sei, mas tudo bem.
não quero ser sabido.
quero sentir os pulsos
da vida. sem dúvidas
receber as dádivas:
amor e lágrimas.
curioso com o que manjas:
som das orquestras de banjos,
inúmeras aparições de anjos
e deliciosos sucos das laranjas.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

o incendiário e as gérberas

elas estão vivas, vermelhas
e quebram as telhas
da cidade cinza.

vai, macaco do fogo sagrado,
incendeia os contratempos
e aprende as gargalhadas
das espantosas gérberas.

desculpa não é olá, bom dia.
use com cautela e aprecie
a noite fria.

sopra um grilo, talvez
sibila, no ouvido:

dizer o que não pensa
para ouvir o que quer
é uma estratégia triste.

alimenta o tigre que existe
em teu peito e paira
acima do juízo.

sorri, sorri bastante,
seja mutante, tonto.
tanto afeto sem teto
comunica com as estrelas.

respire e lembre:
a vida é rio, raio
cruzando o céu
da boca.
nove noites, nove dias.
pele enrugada dos primatas.
autorretrato debaixo d'água:
aprendizado e alegrias.

fluir, fluir sempre no sopro
do espanto. coração chuvoso,
orações: palavras líquidas e magias.

haja em mim o saber do sim,
cheiro de alecrim e renovado encanto.

hoje eu vim de peito aberto
como o rio, esperto para o riso
e para o pranto.
flor de lótus
brotou no umbigo
do lodo.

dispenso motos.
a pé respiro
o TODO.
há muito troquei
a miséria da telefonia
por simpatia e telepatia.

não há contas da celpe
para meus sonhos elétricos

e a compesa não toca
na água dos meus olhos.
gosto dos gestos lentos
de tuas pernas enquanto
caminhas para os sonhos.

observo teu sono, sinto
as vibrações sutis dos olhos.

ouvidos povoados pela respiração:
mãos no calor da caverna de fricções
e afetos enroscados entre beijos, abraços.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

enquanto o barulho da chuva
flutua, enquanto o amor não
cega, enquanto o silêncio é
compreendido, enquanto
anões gritam poemas.

enquanto as frutas adoçam
a boca, enquanto a língua
passeia cometas, enquanto
a fome acelera a vertigem.

enquanto o equilíbrio educa
a alma, enquanto a cuca se
infiltra nos cheiros, enquanto
a vida é sangue e gozo, fôlego.

enquanto o fogo é bicho solto,
enquanto foge uma multidão,
sapatos incendiados, enquanto
os abraços fazem nascer florestas.
coincidência:
com isso dance,
insert coin!

terça-feira, 16 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

monkey

a monkey:
amo(r) ---
------ key.

ogro sapiens

batendo a cabeça contra o tronco
da árvore mais próxima.

papo macaco com cupins,
disputa de gritos, mais braços
que shiva para matar mosquitos.

poucos dentes, muitos doentes.
por vezes, não conhece o que é bom.
quase não esquece de si e se perde
entre o depois, o durante e o antes
e seus desodorantes são da baygon.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

um banjo

o que você quer?,
ela perguntou.

te ajudar a rir,
a gozar e a ficar
bem, eu disse.

e rimos, gozamos
e ficamos bem.

sem compromisso,
ela comentou. com
improviso, eu combinei.

a noite chegou
e as pernas dela
foram para longe.

e eu, bem, eu
dormi feito um banjo.

aurora

aurora é uma rua,
aurora é uma senhora
que serve café de graça
para os bêbados, pela manhã.

aurora é uma cigana,
aurora é uma coletora
de frutas e raízes e sonhos,
aurora é uma deusa.

aurora é uma arte marcial,
aurora é agora e sempre,
aurora é uma oração.

aurora é uma música,
aurora é uma viagem,
aurora é uma sacanagem
entre o sol e a lua, escuridão
quase pelo avesso, quasar.

aurora é uma passagem
para a origem dos tempos.

terça-feira, 9 de julho de 2013

rodeados da bem-aventurança do Grande Mistério

não há cadeados para o afeto, a respiração segue
envolvendo a montanha e os ciclos lunares. ergue
os olhos e vê os vultos das plantas professoras,
árvores ensinando em silêncio, cio lento da seiva.

vai, seja a poeira e os pés, pêndulos pendurados
no teto do mundo, oscilando entre o riso e o choro.
mastiga as flores e as raízes, escapa das tocas
do egoísmo: há sabedoria selvagem no encontro.

almas incendiadas se olham longamente, riem
enquanto amanhece, enroscam mãos e pernas,
beijam os pés, as costas, os antebraços, línguas
andam na origem do mundo em seus corpos nus.

águas cristalinas nas retinas, breu da voz na garganta:
gemidos, sussurros, posições das estrelas do fogo.
aurora e abertura da aventura. ciclistas que furam
os bloqueios e fluem por lugares sem nome, sonham.

carvão e car vão

tem o carvão
e tem o car
vão.

respiro e canto

saudação da chuva sobre meus cabelos:
eu respiro e canto a divindade interior
e respiro e canto as divindades na teia do planeta.

sol e lua, leões comendo as papoulas da primavera.
o cansaço não estará nos esperando após o despertar.
a manhã é uma benção e as estrelas são buracos
no chão do paraíso, pássaros que nos carregam no ar.

alegria rodopiante de milhões de crianças, krishna
tocando flauta madrugada adentro: cavalgaremos
os tigres envolvidos nas potências da energia criativa.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

bilhete estelar do iogue

senso de humor
deliciosamente tolo
vale bem mais que ouro,
eu sei e sinto e sigo.

foi um iogue
que me disse,
catando um bilhete
nas estrelas:

o riso não envelhece,
tolices são preces
infantis e loucas
e bêbadas.

absurdo, poeira
no umbigo: dentes
de orelha a orelha
tirando as telhas
da razão. velhas
rindo na tempestade
sem nenhuma saudade
do ego, do abrigo.

domingo, 7 de julho de 2013

leão na lua

há um leão na lua,
vejo a olho nu.

caminha lentamente
como se soubesse
para onde vai, mas
não sabe.

urra para não errar.
o dia e seu sangue
amanhecem.

bebe água no rio,
sim, existe água na lua.

tem medo, mas desde cedo
sabe que o medo é um inseto
que faz barulho voando perto
dos ouvidos, mas não sabe nadar.

então, o leão mergulha na água.

escambo

troco todos
os joguinhos
do meu ego
por peças
coloridas
de lego.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ferver

ferver, forever,
sem frivolidades.

rodopiar para longe
dos mapas das cidades.

queimar calcinhas e cuecas,
queimar, decididamente, as cucas.

subir as montanhas, dedicar
nove canções para as manhas
da natação dos jacarés, os pés
batendo no chão fazendo tremer
os mundos vermelhos de todo coração.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

lua no céu da manhã

chove e eu
sou um lobo.

estou vivo
e uivo.

a água
sabe todos
os meus segredos

e o sorriso que vejo
é a lua no céu da manhã.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

em silêncio, como
se fôssemos desconhecidos.
mas, então, a voz dela
em meus ouvidos:

tudo bom?
tudo bem, eu disse.

mas queria contar
uma piada para
que ela risse
e assim eu visse
o sorriso dela.

(sutil detalhe que a deixa
ainda mais bela)

em silêncio, novamente.
mundo estranho, animais
enterrados nos umbigos.

há vários futuros, possíveis,
de muitos tamanhos, artimanhas,
diversas manhãs. num amanhecer
ela sorri e está junto de mim.

noutros sequer há retratos.
apenas os tragos num quarto
escuro, cheirando a vinho:
o que não voa no ninho.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

arquivo cósmico do coelho mágico:
terapia lunar da mística pantera:
hidroginástica no útero sagrado:
levitação magnética ancestral:
peixes, crocodilos, cavalos:
rãs, patos, onças, crianças:
vegetação, cantos das nove
mulheres nuas, noites nuas.
ânimo, animal anônimo.
bem-vinda sejas, minha
louca inocente, a noite
dorme no colo da mãe.

no ventre da floresta
a lua desenha marés
de vida e morte e vida,
sopros dos ciclos das
ressurreições, sangue
que inunda o tempo.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Senhora das Coisas Selvagens

nove horas mascando raízes e folhas
e ouvindo a sabedoria dos fungos.

inspiração? uns vapores que sobem
pelas narinas quando mastigamos
alguns cogumelos.

dançando ao redor da fogueira a noite
inteira, antenas do espaço vibrando nos
músculos, mentes surfando no cinema
do Templo das Mães Ácidas.

curiosas corujas sobre os ombros,
mugidos das vacas e didgeridoos,
sombras que sobem até os céus
e se enfiam como sementes na terra.

alfabeto das árvores, multidão de vozes
nas vizinhanças dos grunhidos e urros.
beleza do êxtase azul que se espalha
no chão das almas cobertas de papoulas.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

zeus está morto.

eu fui o que aprendeu
com árvores e rochas:
lábios não dizem
a idade do céu.

eu fui o que deixou
pelos bolsos as ametistas,
pedras do vinho.

eu fui o que ficou
embriagado pelas auroras.

eu fui o que retornou
para casa carregado
pelos ventos.

domingo, 23 de junho de 2013

e dizem
que os jambos
mais suculentos
estão nos cemitérios
cujas árvores deitam
suas raízes até a boca
de cada cadáver.
chave de fenda,
lenda da chuva.
shiva na senda,
tenda da saúva.
não tenho palavras
para os pensamentos
dos pássaros, sonho
através das fogueiras.

os viajantes não retornam
e dormem nos ventres
das serpentes.

trovões entrevistam
hienas alegres, incubam
nas barrigas dos malabaristas
as escadas dos ventos, folhas
da árvore do abismo celeste.
minha cabeça
é um animal
feito em pedaços
por mulheres
delirantes
pelos sons
da montanha
de fumaça
e cogumelos.

sábado, 22 de junho de 2013

nunca vi um corvo, nunca.
pernas inventam caminhos,
as curvas. os braços não
descansam, cavam covas.

cibele, deusa-leoa, toca
harpa e alimenta harpias:
música da urgência das orgias.

gregor samsa ainda sonha
com birutas indicando
passeios dos quatro ventos.

tigelas dos monges mendicantes
cheias de arroz e silêncio.

há um sofá, perto da árvore.
em noite de lua, milarepa
esquece a vingança e lança
canções no ar para as formigas.

pela manhã, de três sendas,
uma é certa: o profeta
amanheceu morto, louco
ou se tornou poeta.

varrendo a vizinhança das estrelas mais próximas

balão é o nome do peixe, peixe é o nome da gata,
gata é o nome do vento, vento é o nome do cavalo,
cavalo é o nome da luta, luta é o nome do sonho,
sonho é o nome do corpo, corpo é o nome da criação,
criação é o nome da vaca, vaca é o nome do sítio,
sítio é o nome da manhã, manhã é o nome do pássaro,
pássaro é o nome do besouro, besouro é o nome do mel,
mel é o nome da música, música é o nome da alma,
alma é o nome da fome, fome é o nome do delírio,
delírio é o nome do ônibus, ônibus é o nome do começo,
começo é o nome do dia, dia é o nome da memória,
memória é o nome da loucura, loucura é o nome da dança,
dança é o nome da fé, fé é o nome do estômago,
estômago é o nome da rã, rã é o nome do silêncio,
silêncio é o nome da noite, noite é o nome da mudança,
mudança é o nome do sal, sal é o nome do bilhete,
bilhete é o nome do vinagre, vinagre é o nome do céu,
céu é o nome da invenção, invenção é o nome do osso,
osso é o nome do macaco, macaco é o nome do amor,
amor é o nome da rua, rua é o nome do universo,
universo é o nome da cozinha, cozinha é o nome da canção,
canção é o nome da liberdade, liberdade é o nome da puta,
puta é o nome do agricultor, agricultor é o nome do chão,
chão é o nome da cidade, cidade é o nome do gari,
gari é o nome do movimento, movimento é o nome do presente,
presente é o nome do balão, balão é o nome do peixe, peixe,
peixe, peixe, gata, gata, gata e todo o lixo espalhado agora
dentro do caminhão verde que mastiga, mastiga, mastiga
rumina, rumina e transforma num chorume cósmico
todos os nomes que a vassoura alcança enquanto.
a cabeça aérea, não há teto,
há estrelas sobre os ombros.
os vaga-lumes ninjas do afeto,
pés e coração entre escombros.

dentes do presente no pescoço,
lençóis de veludo sobre a cama.
pólvora que carrego no meu osso,
sem soníferos, virá a que me ama.
medita, macaco, medita
e pratica o primeiro amor.
se algum idiota te irrita
pratica o nonsense, humor.

medita, macaco, medita
mergulha no olho da flor.
anda por aí pelado e evita
o orgulho, avareza, rancor.

medita, macaco, medita
na mordida, disco voador.
ferve teu sangue e acredita
no afeto, no afago aonde for.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

rasgar, romper, ferir
as ideias confortáveis.
pensamentos ao ar livre,
balbucios, gagueiras, gritos.

poema feito a partir do sangue
que segue a gravidade e corre
do joelho para o chão, como chuva
que se joga dos joelhos celestes.

sensações carregadas, ações
escorregadias sobre o lodo
que se acumula debaixo dos
pés de nossos hábitos diurnos:
a flor de lótus nascerá.

um coice do poema no peito
desavisado e o mundo será
menos inocente e o leitor
hipócrita, quem sabe,
deixará de ser um futuro
carrasco da humanidade.
podem me deixar naquele asteroide
enquanto o vento sopra as vacas
numa tarde molenga, enquanto
me invade um desejo repentino
e imprescindível de uivar e ouvir
as frutas tagarelando sobre a morte.

podem me deixar naquele vulcão
enquanto os cigarros estão acesos
nos bicos dos pássaros, enquanto
me informo sobre a última corrida
dos unicórnios e os vinhos baratos
colorem as cuspidas dos profetas.

podem me deixar naquele abrigo
nuclear revestido pelas carapaças
das baratas, enquanto as formigas
me trazem jornais com tirinhas do
laerte, bagos de uva verde, enquanto
observo um robô mágico e barbudo
derrubando grades de cerveja no espaço.

quase miro no breu

ah, como tenho saudade
das lambidas da aurora.
os átomos das lembranças
provocam choques agora.

à sombra, num tapete no quintal,
eu a chupava e chupava manga,
ela chupava e lambia meu pau.

língua de sabedoria selvagem
e sensível, fazia malabares
com o imprevisível. dos pés
à nuca, nunca esqueceu:
mensagens elétricas,
massagens secretas,
histórias eróticas.

sempre perdíamos a hora
do trabalho, enquanto ela
cavalgava em meu caralho.

gostávamos da luz da lua.
eu pelado, ela nua,
dois espíritos animais
inundados por ancestrais.

gastávamos as fibras do dia.
eu urrava, ela ria,
dois incêndios cósmicos
narrados por mímicos.

ah, como tenho saudade
das lambidas da aurora.
entre a multidão e a maldade
o cheiro de manga me devora.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

poema sem título a partir de conversa com Lizandra Santos

o amor é grão, poeira,
cisco nos olhos, madeira
pegando fogo onde crianças
acendem as bombas de são joão.

vou fazer um barulho fantasma,
assustar o amor pelos ares
e torcer por outras eras
em que o amor viva
mais que aos pares.

terça-feira, 4 de junho de 2013

furacões passeando pelo ferro-velho,
rinocerontes bêbados de vinho tinto,
diamantes largados nas calçadas
por dias e dias e dias até serem
varridos pela chuva para o esgoto.

os filhos do ciclope bebendo chope
na esquina do jardim das delícias.

pianos, sanfonas, águias velozes
rompendo as couraças e as barrigas
das cidades fantasmas do amor.

uma guitarra na fogueira, moedas
voando, mancos pedindo cigarro
para todos os faróis dos carros.

sangue das vacas nas ruas de lama,
pombos pensativos, vitrolas vazias
do velho e gordo sol, sombras das
potências escondidas no grão, no
grou, no guru com gengivas azuis.
a eternidade é um longo cochilo,
papo de zappa com isaías,
corações dos tigres
devorados pelas
papoulas.

a eternidade é um longo cochilo,
disfarce do lobo trapaceiro,
nenhum nervosismo
dos amantes
no frio.

a eternidade é um longo cochilo,
acaso feliz & ajuda mútua,
moitas para as orgias
dos primatas
surpresos.

a eternidade é um longo cochilo,
húmus das árvores lunares,
massagem e respiração
aliviada no banho
com as águas
quentes.

mel & gafanhotos na noite deserta

e assim foi, disse.

eu vi, ouvi, revirei
os ossos entre as
cinzas da fogueira.

nove dias com a febre,
nove noites com a lebre.

a velha e o corvo, água
correndo, curva do rio.

eu vi, ouvi, revivi o fogo
enterrado no ventre do
animal de sangue quente.

mãe de mistérios, terra
da colheita do amor, nus
os olhos do vento, asas.

apesar de casado com
a filha caçula do sol,
pesava na barriga
uma lua pequenina.

a árvore não morre,
o urro do coiote é azul.

e assim foi, disse.
e voltou a nascer.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

equívocos maravilhosos

a tarde de marduk
com o leopardo.

a passagem de volta
da mão de kishar.

a audácia de javalis
com a cachaça.

a leitura do tao
da mímica.

ridendo castigat mores

ah, coração, que engano.
não me diga que nada
arrebenta a hipocrisia
e o aço.

pois minha irmãzinha sorri,
sem briga, sem embaraço.
apronta as tintas e tonta
diz: palhaço.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

não, não sou simpático
a nenhuma supremacia.

gosto do território tático
da pele dela super macia.
sensações, sensações:
que os sons nunca cessem.

sanda, sendas, sondas.

ondas que o duende compreende
calmo na cama de lama de sua alma.
a lua anda
comigo.

crescente,
cheia, nova,
minguante.

a lua, um abrigo.
irrigo devaneios,
no bingo não brigo.

numa de suas crateras,
esqueço meu umbigo.
usamos telepatia, mas
vez ou outra ainda ligo.

no dia que perguntei: qual
o número de teu céu, lua?
ela disse, e ainda falou: I go, contigo.
você cometeu harakiri e o show
ainda não chegou na metade.
teus amigos fodem cabras,
fabricam uísque, usam máscaras
de jorge ben 10. talvez seja
tempo de passear num carrossel,
visitar a república tcheca, deitar
no gramado nos ombros de tua irmã.

explosão nas trevas

clarão de afetos sábios,
grandes e pequenos lábios:
com mamífera no chão de casa.

brasa donde bebo, longo amor
que sinto. não nos falta pernas,
almas, tonéis de vinho tinto.