terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ainda estamos juntos

apesar de você praticar yoga com imigrantes vietnamitas
depois de molhar os pés nas águas do pacífico, enquanto
eu continuo catando moedas velhas nas areias sem fim
de uma praia fracassada lambida pelo atlântico -
tudo isso para entulhar a alma de ferrugem
e encher os bolsos com os avisos dos gansos.


apesar de você encontrar o táxi-chuvoso que te ilumina
e diz que todas las noches terminan en el malecón,
enquanto eu sigo enterrando chaves de fenda no fundo dos olhos
dos peixes abandonados debaixo da vaidade do sol, enquanto
eu permaneço escrevendo poemas para depósitos bancários,
poemas para trocar por lsd fajuto feito com listas telefônicas
e bastante cola branca, enquanto eu fico telefonando
para as alucinações, juntando as vísceras e os vícios
dos pardais devorados pelos banhos de soda cáustica.

apesar de você mergulhar com tubarões na polinésia
e descobrir as potências sexuais e curativas de moquecas
condimentadas com muito cravo, páprica e pimentas negras,
enquanto eu não paro de comer o pão que o diabo traz
de uma padaria tailandesa onde um anão viciado em pôquer
produz receitas tristes embalado por um tango lunático.

apesar de você amanhecer entre os dentes dos mímicos
desempregados da última turma da universidade de pequim,
enquanto eu anoiteço dentro da geladeira, ladeira abaixo,
enquanto eu anoto quase todas as frases que não me dizem
mas que eu escuto, enquanto eu estoco tristeza e feijão
debaixo das unhas - o suficiente para alimentar as canções
das baleias migrantes à procura de águas quentes.

ainda estamos juntos: somos vizinhos da enfermaria nº6.
ainda estamos juntos e jantamos os ossos da alegria e do tédio.
ainda estamos juntos e morreremos juntos e nossas juntas
serão colocadas na mesma caixa de ferro e lançadas ao mar.

 apesar de você saber assoviar, enquanto eu sei cuspir mais longe:
ainda estamos juntos e ficaremos bem velhinhos como ronnie & donnie.

grandelícia

as tristezas não sopram as retinas
cansadas da velha guerra
entre a febre
e o ouro.

à beira do abismo, uma sopa.
há uma cantoria dentro dos ossos,
há uma cantoria dentro dos nossos
dias mais esquisitos e espatifados
e espalhados pelo chão da cozinha.
na foda dos bonobos, na sinceridade
dos cinzeiros cheios de dentes,
nas bicicletas sorridentes e enferrujadas,
nas pilhas velhas, nas ilhas de cimento:
tédio, tesão
e um cheiro de caju impregnado no cu
das nove mil noites de cianureto.

sábado, 3 de janeiro de 2015

arte poética

incendiar noites e dias, a carne do mundo
lamber perambulando entre onças e pedras.
sorrir na companhia dos mendigos.

sujar as retinas, as botas, as beatas
foder. ao redor do umbigo,
cuspir.

amar a água, a égua, a águia e
comer os caminhos abertos da invisibilidade.
repartir as vísceras, próprias e alheias, entre chacais,
tanques de combustível e soluços.

voar no céu da boca, vadiar debaixo dos monturos.
perder os dentes, os dedos, poder povoar a solidão.

provocar brigas, dançar forró com garis nas madrugadas,
digerir didgeridoos, apaziguar as mortes azuis.
nascemos eu e minha morte
no azul do mesmo sopro:
pedra que o vento come,
terra cuspindo cada osso.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

poema desentranhado da fala de mestre laurentino

deus é uma banana:
nasce verde, fica amarela
e então fica boa.

a gente come.
ontem, universo
que anda na fumaça.

há peixes nos pés da manhã
ruminando rastros elétricos
do xaxado suave dos bois

irrupção do canto, aparição
dos ossos, pouso eterno
do navio nas lágrimas
do hidrante, urbe
que dorme no retorno
da amplidão: vento anônimo.

golpe de sorte, pulmão:
dois gomos de tangerina
apaixonados pelo ar.

o grande e o pequeno fiteiro do comerciante universal

vendemos um poema para cada janela
enquanto passeamos, vira-latas na via láctea,
com os olhos engolindo um pouco de luz
que escapa da fiscalização do trânsito celeste.

gigantes de pedra morreram asfixiados.
apesar disto, a erva cresce no final
do corredor. nossas dores escorrem
pelo caule da árvore, pingando por suas raízes
aéreas. esfinges fingem não roer as unhas
quando olham as ruínas da conciliação.

a pele dos prédios descama cotidianamente
e o sol retorcido das pixações faz carinho no lodo.
é possível recuperar a noite em suas entranhas,
mas comumente as mãos buscam o pão diário
para derrotar o silêncio. armadura que descansa
no colo do abismo, olho atento do lagarto, arma
que engole a frieza dos esquecidos, a moleza
das traças. refúgio da insensatez dos insetos,
peito sempre aberto nos ferros derretidos.

milagre que atravessa o século, trapo, língua lenta
da memória coberta de sal. sem pernas, viaja na carícia
desordenada e desatenta dos cadernos empoeirados.

suas penas congeladas guardam as distâncias percorridas
por fantasmas à procura de albergue. duzentos anões
adormecem debaixo dos seus cabelos. jaula ou garganta,
nenhum parentesco. arremessar os ombros contra os cantos,
amassar seus ossos de ferrugem, ele manso. guardião distraído,
silencioso, exceto quando vazio. é quando grita e derrete,
mesmo de pé. então as lesmas lambem o sangue
de seus segredos. e aranhas tratam de cobrir
sua ruína exposta ao sol.

canção de ninar n°3

então ouve a chuva cair,
ouve a chuva levantar.
lavar os ossos e partir
lá pras bandas do mar.

a chuva é um bicho tão bonito,
é quase um grito de um leão.
o chão molhado é infinito,
é o mito da barriga do grão.

Canção de ninar n°2

Lá fora a chuva cai
Lá fora a chuva cai
E eu estou aqui
E eu estou aqui
Nos braços do meu pai
Nos braços do meu pai

Eu ouço a água vem
Eu ouço a água vem
Lavar a minha alma
Lavar a minha alma
E a do meu bem
E a do meu bem

Com o tempo cresce a planta
Com o tempo cresce a planta
E o meu coração
E o meu coração
Se enche de luz e canta
Se enche de luz e canta.

canção de ninar nº 1

nós vamos de bicicletas
ou iremos de lambretas
vamos virar cambalhotas
pelas ruas, piruetas

tanta careta pra fazer
eu e você, eu e você

vicente vidente

um menino mágico,
vicente vidente: água,
água, água e amor
fluindo no ambiente
pelágico, pelado
e deitado ao meu lado
ainda sem dente.
o arranjo noturno deste grito
e a viagem lenta que manja:
o cheiro da casca da laranja,
a queda e o choro do infinito.
Irmão da poeira, beira da estrada.
Apesar do baque, mínimo breque.
Papo com o tempo, fome, trambique,
Golpe erótico contra o triste CHOQUE,
Energia de todas as peles no batuque.
arte é ponte,
sonho e cura.
parte de onte
m no peito, rua
escura lambida
pela luz da lua.
atenção sublime: ao
invés do mapa do
tesouro audição
da palavra do bes
ouro.
um jaguar perambula pela mente.
a consciência permeável se aquece
no sol e se esfria na noite de veludo verde.

grãos da sombra, grous que sobem
nos ombros do vento doido.

caminhar, quando caminhar.
sentar, quando sentar.

ouro e escuridão, a mudança
é um caminhão vazio e lento
catando desastres e gargalhadas.
cavalo do cão mijando
no caos dentro de si
para fazer nascer
uma bailarina estelar

diamantes no esterco,
papo vulgar,
popol vuh,
voilà!

as bananas
os macacos
galhos de fogo no alto
da árvore cósmica

a cena cômica, o vômito
do pássaro g i g a n t e
na cabeça do caniço pensante

frio e escuridão, baratas
num bar atômico, tempo nublado

cerveja, cervantes, outra cerveja
e o terremoto não lambe
nosso umbigo

o sol saberá o sabor
das carcaças
trazidas pela maré

cabeleiras de algas,
ossos e sangue.
a serviço
do viço
do ser

ontem totem amanhã

as bicicletas se perdem na noite,
a vida é eterna em vinte minutos.

a chuva aumenta a voz, reencontramos
as dúvidas e as vidas que desaparecem
no breu da fome a cada dez segundos.

há sabedoria na ira: a ventania levanta
uma comunidade em nossos peitos.

perambulamos em ambulâncias
cheios de nosso amor ambulante

entre o possível e a solidão.

slogan desviado

a grande dobra é
uivar com as pessoas

domingo, 20 de abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

cura & ri

a loucura
de lou reed

no clube do coelho azul

as garotas tocam hardcore
de topless, enquanto eu bebo
um pouco de cerveja mexicana.

o desaparecimento das vespas
e abelhas é uma coisa triste.

seguranças chineses fumam
cigarros do clã do dragão.

as rainhas das profundezas
usam enxadas para conversar
com minha mente derretida.

não perco o ônibus espacial
que atravessa a madrugada:
durmo nu, coberto de ossos.
MURDERnismo

sábado, 29 de março de 2014

O
egO
pregO
pregO
egO
O
AGORA TALVEZ AGORA AKIRA ACHE A CURA
AGORA TALVEZ A CHAVE A FENDA O FUNDO DA CHUVA
AKIRA A LAMA AGORA O LEMA DA ÁGUA O VIDRO
AGORA AKIRA TALVEZ AGRURA ADORA CABEÇA AGORA ESCURA

a dor chega. amanhece,
aconchega no peito a febre,
a lebre o livro de vento não fere
a fibra o rosto roto do resto dos dias.

sísifo, lavador de pratos

não há pedras para carregar
para o alto da montanha
todas as manhãs. apenas
uma pilha de louça suja,
uma bacia com água suja,
esponja cheia de bactérias.

não há coleira para prender
a morte junto ao poste da CELPE.
(dois cozinheiros já morreram
encostados nos fios desencapados)

sísifo lava as facas, as facas,
as facas e nunca leva a ideia adiante.
no intervalo acende um cigarro e observa
a gordura gordura gordura que entope o ralo.

lavar pratos não é trabalhar com limpeza.
apenas transferência, a imundície vai
de um lugar para outro. ouro é tolice
nos dentes do morto e na cozinha
assobios não escondem os guinchos dos ratos.

sísifo, lavador de pratos.
todas as manhãs
retorna.

não há sentido em lavar pratos,
levar nuvens no bolso.

o osso
compreende a vida ao máximo.

sísifo, se fu
deu.
uma voz do chão, sopro.
poros atentos aos movimentos
do ar. SANGUE & SONHO.

casa de parto das almas.
pernas e milagres da respiração.
útero, útero, útero: árvore
entre céu e terra.

mobilidade, luxo do fluxo
feliz da intuição. o sorriso
da mulher abre uma brecha
na realidade tagarela.

sem obra do homem,
sem manobra de kristeller.

deposição da criança no solo: somos
terra, pó, este nó incompreensível
com a poeira das estrelas.
o amor não está previsto em lei
o amor não está previsto
o amor não
o
: sabedoria :
sabre sobre
as sobras
das sombras
horrível tenebroso
simpático

patético infalível
carinhoso

agressivo suave
inábil

: sim : talvez : não

caranguejos com cérbero

eu vi o inferno e ele
começava aqui em
PERNAMBUCO.

segunda-feira, 17 de março de 2014

do verdinho, lógico.
anda logo, verdugo.

trago do cego
no cigarro
do mendigo.

corpo de fumaça
no tapete de veludo.
sombra
que é nossa
maravilha rara.

assombro no peito
de quem procura

encher a cara,
achar a cura.
laboratório
oratório
to orion.

sábado, 15 de março de 2014

estou nu e
há chá no
bule blue
a faxina do xamã
a faxina do xamã
a faxina do xamã

luz que rodopia
escuridão sombra
alma da coruja atenta

a faxina do xamã
garganta mantra

a faxina do xamã
olhos limpos, pele
lavada pela lua.

a faxina do xamã
língua do sol,
língua do sol no ventre.

espírito sereno, viajante.
a faxina do xamã, o jantar
pronto, comida fresca,
folha dos sonhos.

a faxina do xamã
não há mais doentes

dentes tintos de vinho
dos totens, coração
mordido.

a faxina do xamã
a aurora, o poente
água do rio corrente

alegria, entusiasmo
a lebre diz: entre.

no sanitário do sanatório

anônimo e anêmico,
o ânimo do homem
biônico se restabelece
ao tocar fogo nos rolos
de papel higiênico.

bombeiro afastado
por piromania, não perdi
a mira.

todo dia desafio
o sonho velho
e mijo no espelho.

as chamas
me contam segredos,
papo solto nos saltos.

só depois a urina
no fogo, a fumaça.
cachorro, alma
cínica sem mordaça.

terça-feira, 11 de março de 2014

esta cidade atropela

ninguém pelado:
vestem os ferros
de seus carros.

um poeta olha
para os dois lados
e atravessa para molhar
a língua na zona escura da lua.

sempre atropelado,
nunca lido.

não duvido,
sua calma subiu aos céus.

homem lento, passeia
com a tartaruga pelo vento.

domingo, 9 de março de 2014

ateu místico, o chacal,
caolho e terno, colhe
as canções do orvalho.

saliva também molha
folhas da cannabis sativa.

psicoterapia das plantas,
cochilo nas sombras,
dia morno: memória
das águas, eterno retorno.

poema tirado da notícia da morte de leopoldo maría panero

loucura, sombra
onde germina
grão da voz doce
e terrível.

ternura insuportável
da menina tagarelando
sobre abismos.

tesoura vermelha,
imaginação sem contornos.

dragão saudando poemas
do manicômio de mondragón.

caprichosa perambulação,
vespas e papoulas circulando
no sangue dos gigantes cegos.

animal não tem nome

milhões de caminhos
para o batuque.

alma & sopro.

som das respirações,
saberes que sondam
e sonham as mortes.

...

não há
estatísticas
sobre o labirinto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

música, tarô e mímica. BATUQUE
na constelação. OSSOS quebrados,
crânios transbordando as águas
do batismo: boletim visionário
lavando com sangue a escuridão.
o segredo das avencas,
fotografia bêbada
de tuas ancas.

sísifo, ventilador no mormaço.

fome diante do fogo,
nome diante da fuga.

solidão, ilha de aço.
abraço, riso da beluga.

pirro

não fazer coro
ao riso e ao choro.

deitado no barco:
observar a careta
da anta, qualquer
semblante: feito
por nuvens,
um desenho.

uma tempestade
agita o mar:
paz no corpo
& na alma:
o porco
tem calma.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

satwa

tudo respira, a pilha
rayovac, lanternas
e automóveis
de pedra.

apesar do terror,
a lua sopra
as marés.

animais insistem:
movimento do vento
irrigando almas
sobre o asfalto.

a fogueira ainda fala.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

domingo no parque industrial

temos lanches telefônicos,
urnas funerárias eletrônicas.

os soldadinhos de chumbo
lambem brilhantes botas de couro
e odeiam bailarinas e odeiam bailarinas.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

satori da pesada

depois do êxtase, o detetive
axel foley lava a roupa suja.

uma gargalhada, tudo está
como está: poeira e água.

música quente embalando
o coração do malandro
que varre o pátio.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

paisagem com fantasmas e laranjas

talvez jamaica, espírito confortável
do coelho gordo chupando mangas.
ska soprando no radinho de pilha
esquecido sobre o balanço da árvore.

pablo e sua escaleta, deusas
descansando na sombra generosa.

fumaça dos dias refrescantes, água
das palavras delicadas e gentis.
falarei do vento, do vinho mediterrâneo,
da estrela molhada na saliva do leopardo.

filho da brasa, ando em trapos
enquanto minha alma se despede
nos aeroportos de teus olhos bêbados.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

bilhete para leopoldo

dos favores que prometi,
te devo a loucura.

bêbado de vida
e não de morte,
um pássaro.

nunca sabemos
o que diz o céu.

há vinho suficiente
nos lábios da mulher que ri.
enquanto é vento, desejo
de ser pele azulada
decifrando as rasuras
do infinito celeste
(seu reflexo).

ruídos da cidade sem ar.
lugares abandonados,
aquecidos pelo silêncio.

um cavalo mastiga capim
do medo nas brechas
das calçadas e dispara
veloz pela sombra.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

um mercenário do império
pisa sobre o lírio, furta
o empório e zarpa
pra mercúrio.

sábado, 18 de janeiro de 2014

floresta aleatória, sombras
e nossas razões cochilando.

faça amigos com a montanha,
eles disseram. não haverá
sirenes nos perseguindo.

esta é apenas uma canção
chamada fogo, brilho
das estrelas azuladas.

não escrevemos
nossos nomes nas árvores,
mas deitamos
sobre suas raízes.
mensagens telepáticas
de nossos informantes
tibetanos, ilustrações
de cogumelos gigantes
e o acordo espontâneo
e místico entre nossas
pálpebras e as zebras.

sábado, 21 de dezembro de 2013

linha escura no espectro solar

relembrando o futuro, nove
garçons comentam sobre
os cães latindo & o anjo
da morte rondando a cidade.

vermes, vírus, vassouras
passeando na cabeça
dos advogados batedores
de prego e suas pragas.

máquina do fluxo, luxo
do corpo em obras, dobras
do coração sideral roncando
entre os motores e as macas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

restam cinco
folhas, claro
mais tarde,
lua rosa.

eu fui
lentamente
acolher vagalumes
sobre meu chapéu.
beat bipolar, polegares
pedindo caronas
para cavalos,
coçando os olhos
da sombra.

nunca aprendi a pousar,
disse o iogue para o tiê-sangue.
é preciso olhar os dentes
dos cavalos doidos

cavar poços d'água
na terra escura
da consciência

conversar
com o carvão
em suas jornadas
de morte e respiração

visitar a mata fechada
das emoções

enquanto os pés
cantam tranquilos
as sombras das curvas
coração de vidro,
a chuva fica lá fora.

não há chave de fenda
ou imã, coração de vidro.

movimentos de baixo impacto
da hidroginástica, manhãs:

os cachorros da lua patrulham
as despedidas dos cedros.

coração de vidro, malandro
que perambula pela floresta
de arrepios em seu escafandro.

domingo, 8 de dezembro de 2013

o tempo também
tem joelhos
doloridos.

telhados verdes
onde deitamos
para compreender
o silêncio da lua.

televisões eternamente
fora do ar, mulheres & ilhas
de perfumes brutais.

espíritos molhados
na saliva das jovens deusas.

curvas e mistérios, tempestades
de sons que invadem a caixa preta
do crânio & seus sonhos mais secretos.
a noite não tem idade:
sangue que o tempo
não envelhece,
trampo nenhum
devora.

a noite não tem idade:
boca do deserto, paciência
dos ruminantes, orelhas
frias do silêncio
vital.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

as paisagens devastadas,
histórias de uma vida
atravessada por mordidas.

não há malas suficientes
para carregar uma música
que o solo está cantando.

descalço: a contemplação
das formigas não acumula
poeira nos depósitos da alma.
cadeira e calor,
mosquito.

infinito,
beleza e amor.

sábado, 30 de novembro de 2013

papeando com pasolini

descanso todo dia
e à noite perambulo
como um bacurau
catando insetos.

uma sugestão:
santificada seja
a escuridão.

respondo aos olhos
estranhos tranquilamente.

contemplo minha abolição
com a coragem sutil de um sábio.

aparência de raiva, estes são versos
de atenção amorosa e paciente.

jovens e velhos autoritários
são formas da tristeza mais cruel.

outra vez como um pássaro:
tudo vejo, voando.

mente serena, levo no coração
a consciência que amanhece.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

qualquer coisa que escapa, um tipo
de loucura incendiando automóveis.

chuva ácida, psicodélica e doce
quando o céu acaba numa piada zen.

pulos do macacos, moquecas de peixe
com amendoim e exercícios telepáticos.

sons dos pés batendo firme sobre o chão,
grão das gritarias noturnas, abdução.
pupilas, papoulas,
papo com doulas
e noites de chás.
desejo da eternidade,
despejo da eternidade.

ninharias, palavras, coices:
murro no escuro da caverna:
nenhuma prisão, flor, perna
esconderá a mordida das foices.
javalis bebendo água
no charco da pupila.

sol, sangue quente:
corações saudando
o vento no capim.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

serenamente incinerar
a segurança aparente
dos planejamentos.

as fobias, o caos
de cimento
e seu sufocamento ígneo
sejam apaziguados
na saliva antiga
da mãe aquática.

totem & tutano,
tu estando aqui:
tudo bem.
todo poeta
se perde com mapas,
é míope e mastiga
espinhos e pétalas.

todo poeta
está em guerra
& paz consigo,
urra e berra,
debaixo do sol,
se nutre do sangue
do umbigo da terra.

todo poeta
é uma puta
consertando
bicicleta.
todo poeta é holden
apanhando um punhado
de estrelas suicidas,
apunhalando coelhos
dos mágicos caolhos .
 

todo poeta bebe
com a morte e foge
com as equilibristas.
proponho um esquema:
troco soluço e problema
por um monte de poema.

proponho uma escama:
o silêncio, pachamama
e um verão na cama.
transmissão radiante, místicas
bolivianas partilhando bolas de gude,
crianças assobiando e o sol bebendo
e bebendo copos de suco do céu alaranjado.

fumaça azul, saudade e aeroplanos
guardados/grudados no calcanhar.

domingo, 24 de novembro de 2013

meu carma adormecido
no ovário da papoula,
cama aquecida
com o roçar
das peles.

medicina da alegria
no riso incontido:
as nuvens dizem
uns mistérios
do ar.

sábado, 23 de novembro de 2013

e fico pensando quem
vai pegar o trem
que leva a lugar
nenhum
o corpo que sente
não é uma máquina.

o corpo que santo:
sangue, seiva, ar

) o corpo ( y ) o canto (
a montanha também
tem seus pensamentos.

neblina, poeira sacudida
pelo ar, grão das vozes
de morfina da manhã.

buda deitado mascando
sementes de cânhamo,
manto das árvores
que bailam.
paz & paranóia, a máfia
lambendo os olhos solares
das vacas azuis sagradas.

lâmina do pensamento
boiando na carne do rio.

gritaria, insetos dançando
na gruta, céu da boca nublado:
plantas dos pés germinando.
teatro da música eterna, ouçam
o trabalho das fricções, a cidade
evaporando lamentos e sonhos,
assobios e assobios e assobios.

carcaça e cárcere, cachaça e sol
costurando doidices de pedra
na boca dos macacos.

ruminações, ramas
verdes, apesar.

dança rodopiante,
voz da galáxia
mais distante
do umbigo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

daqui pra lá:
prana, pular
ondas, polir
medulas.

daqui pra lá:
prumo, lar
sensível, öm,
ir até o im-
possível.
a esperança
é uma onça
subindo
em árvores

a esperança
é uma onça
nadando
n'água clara

a esperança
é uma onça,
pequenina e
forte, uma
criança.
amor divino,
divina amora:
hora da canção
de eros & aurora.
mulher azul
do horizonte,
homem verde
debaixo do chão.

vento assobiando
entre as árvores,
vento dentro
das pessoas.

ar sagrado,
ar sagrado,
ar sagrado.
tartaruga, rosa rugosa:
haverá sabedoria, sapo
batendo papo na porta
do crânio, uma magnólia
e delícia que se renova.

sábado, 5 de outubro de 2013

apropriação do relato do pato, da morte e da tulipa

não haverá lago, não haverá ego. subiremos
numa árvore e não desceremos logo.

entre os galhos, entre as folhas ficaremos
e então, iremos para as raízes, decompostos

e recompostos.

luz do sol, energia da lua:
sobre nossa carcaça surgirá
a alma de um dervixe que gira
e antecipa o vermelho da tulipa.

assim é a vida, pensou a morte.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

o riso é oração,
a razão é covarde.

a tarde da mente,
o dente do improviso.

visões, fricção
da pele com a terra,

experiência da quietude, alma
fértil para sementes de alegria.
melhor dizer amanhã,
molhar e ser a manhã.

melhor dizer amanhã,
molhar e ser a manhã.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

nem o chumbo do passado,
nem o chumbo do futuro.

só o mambo do presente,
só o mambo do presente

e sobre a tumba do ego
uma rumba, outra rumba.
o que eu chamo
de sorte é um
toque ligeiro,

estar inteiro
numa percepção
singela:

nem lembrar
da morte

r e s p i r a n d o

no ritmo
do riso
dela.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

alegria sem causa,
amor com asas
ultrapassando
os muros das casas
dos egos feridos.

alegria sem causa,
mares e abrigos,
acolhimento
e ouvidos.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

árvores viajam nas profundezas,
raízes sondando os sonhos
da terra, paz aquática
nutrida nas delicadezas.

árvores viajam lentamente
na barriga dos pássaros,
passos firmes no céu imenso,
incenso povoando a mente.

árvores viajam no sangue,
nos guinchos dos saguis,
árvores me começam
e abraçam minhas filhas.
para ficarmos nus
é preciso desatar
todos os nós

corpos inteiros,
almas plenas
na dádiva presente

e na memória
nenhuma dor
será alimentada.

para ficarmos nus
é preciso a risada
do lótus azul.

sábado, 14 de setembro de 2013

com amor amansar
um pedaço de mundo
e nele se instalar.

inundar de sonhos a vida
numa defesa contra a morte
antes da morte, cotidiana.

sorte do louco, sorte:
ouvir muitas águas
correndo, correndo.

cultivo erótico da jornada
rumo ao umbigo do sagrado.

poesia, eco do afeto:
flutuação dos leopardos
atentos às perdas das pérolas.

experiência contínua, garota
nua comendo amoras, amores
salivando sobre as auroras.
li o silêncio todo
li o silêncio todo
li o silêncio todo

deitei, deitei e fui
coberto de lodo.

uma livre adaptação de trecho de black elk (1863 - 1950)

deixe-me ouvir
as lições escondidas
em cada folha e rocha.

eu busco forças
não para ser maior
que meu irmão e irmã

mas para lutar
contra meu maior
inimigo, eu mesmo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

estudo dos modos de nutrição dos delírios

inspira e respira, maninha,
andando para lá e para cá.

oxigênio e movimento
são levitações.

equilibra a fome de afago
sem apego, exercita o amor
entre as devastações do incêndio
e as águas calmas que excitam as almas.

grita nos ritos das grutas e das ruas,
rodando no samba das sombras.

maninha, tira cochilos na morada divina
e, ao acordar, não acompanhe a caravana
de pessoas tristes, mas cante e ame.

conseguir é seguir, maninha, com raízes
e sonhos na terra entre ervas daninhas:
a felicidade possível é uma benção,
invenção para muitas noites e dias.

delírios são flores, maninha,
no útero azul do futuro.
nossa respiração
salta o muro.
menor ideia sobre a dinâmica
da escritura do vento nos ouvidos
e espalhando meus cabelos

menor ideia sobre a distribuição
das plantas e estrelas ao redor
das fogueiras nas praias

menor ideia sobre a noite longa
que se estende nas quedas
dos anjos e das cachoeiras

menor ideia sobre a vertigem
do ego devorando as pernas
das aparições carinhosas

menor ideia sobre a gestação
dos diamantes na língua
perdida do amor

menor ideia sobre a geladeira
que acolhe as lembranças
das cidades solares

menor ideia sobre a cabeça
gigante que o martelo
do tempo acerta

domingo, 1 de setembro de 2013

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no barco bêbado da noite
embalados pelas canções
das vespas e dos estômagos.

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no tapete voador usado
que guardei como vinho
para soluços e festas.

conte-me dos horrores,
não recuarei. seguiremos
no elefante perguntando
ao pó sobre nossos dias
entre cinzas e sonhos.