segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

poemas e garrafas de vinho:
intuição magnética.
eletricidade remoendo
a nuca e os calcanhares.

caminho
aberto pelo acaso.
corpojunto,
carinho.

respiração e memória.
gargalhada dos ossos, galáxia dos olhos.
energias deliciosas cobrindo pernas,
peitos, umbigos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

animais
roendo a madeira
e a imaginação

alma verde costurada
nos dentes do tigre

a lua fervendo
a linguagem das águas

crânios de ursos
e colunas de pedras:
passagens, cavalos
para escalar o azul.
chuva de ácido
sobre os cabelos
dos centauros
trotando nos travesseiros

as bochechas
do fogo comendo
insetos e certos
cantos antigos

a pança do tempo:
abrigo rigoroso
do infinito

mosquitos desenhando
sorrisos nas costas
dos crocodilos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Visão da Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática

(...) e alguns sabem que não é preciso procurar muito tempo para encontrar, dentro da Gaveta Enferrujada, entre os bonecos dos loucos, dos bêbados e das atrizes, um carimbador patético. Ele facilmente se torna ridículo e se embriaga com qualquer porção efêmera de. Você pode notar tranquilamente que ele sofre da síndrome do pequeno poder. Como um cabo setenta borra-botas, fica mergulhado em sua jornada histérica de autoridade: com seu carimbo, despacha porções extras de amendoins para os bons-moços listados na planilha de Normas Técnicas e Bom Comportamento da Reunião da Comissão Setorial de Planejamento e Distribuição de Comidas com Flavorizantes.

O carimbador patético é um pobre-diabo, hipnotizado pela repetição robótica de seus gestos esvaziados de qualquer sentido, qualquer bom senso. Ele põe em movimento uma farsa deliberada: ao carimbar as fichas dos participantes da reunião contemplados com as porções extras de amendoins, finge para si mesmo que seus gestos são importantes e organizam os desordenamentos do mundo. Aos ajustados, amendoins.

Os bêbados, os loucos, as atrizes não recebem amendoins extras, entregam os amendoins regulares e se divertem com a cena toda: como um bando de galinhas no confinamento, os ajustados bicam os grãos, com um riso de felicidade comprada no supermercado, corredor nove. Para o carimbador patético, e apenas para ele, isto soa como um juízo final, como um julgamento no qual ele é senhor. Mesmo sem ter idéia alguma de como trazer vida e mágica para seu dia estéril, entre amendoins. O carimbador patético nunca viu o amendoim na terra, uma plantação. Apenas repete os gestos para os quais finge ter vocação: confere os pacotes de porções extras, confere os cadastros com os históricos dos participantes. E carimba, carimba, carimba.

Ficou lambendo as solas dos sapatos do poder, considera que alcançou um excelente posto de trabalho, não precisa fazer mais piadas sem graça enquanto enche um copo com água, tem direito às porções extras de amendoins e ainda usa seu carimbo durante toda a jornada de trabalho – mas também fora dela. Afinal, qual a graça de ser um carimbador patético apenas na Gaveta Enferrujada do Reino da Pedra Burocrática? O carimbador não conversa com os loucos e bêbados e não trepa com as atrizes, mas sente-se vivo enquanto toca o carimbo na almofada de tinta e depois desce com força sobre as fichas cadastrais. Os idiotas herdarão os amendoins: o carimbador patético vive para cumprir isto. Os loucos, as atrizes e os bêbados dançam durante dia, tarde e noite, vivos, com uivos. O carimbador patético come amendoins.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Osso ruído


ouvir o rumor

de espíritos (tutano

inundando os lagos).


roer o ouvido

de vidro (faca

cravando na cova

do morto-vivo).


reger o umbigo

do infinito (mosca

voando sobre abismo).


umedecer as garras

do mito (máscara

fumando as visões

do esquecido).

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

a cabeça encostada
na árvore.
meu reino
por um punhado de alucinações.
garotas nuas distribuem panfletos
anarquistas. uma multidão
canta as novidades lunares.

eu andarei sobre o rio
congelado da memória
atravessando a noite e o dia.

entregarão meu cadáver
aos abutres do himalaia.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

eu vi a árvore
cujas raízes mergulham no inferno
e os galhos alcançam o céu

eu li o voo dos pássaros
e o incêndio no véu da ilusão

eu ri do exército de idiotas
batendo boca com o abismo

o tambor é um tigre
mordendo as costelas do tempo

eu vi meu esqueleto atravessar
a membrana verde do espaço

eu li as canções do vento
nas costas da deusa

eu ri da tempestade ancestral
e do caroço da verdade

o tambor é um cavalo sem sede

eu vi a garota ruiva
triturada pela indústria

eu li as tensões e fadigas
nos músculos dos primatas

eu ri do desejo pelo mar
de coisas e coisas e coisas

o tambor é um gafanhoto
roendo a mente

eu vi o dragão lambendo
o corpo nu da cidade

eu li os corações acelerados
da multidão

eu ri dos bípedes trocando
energia vital por cimento e solidão

o tambor é um macaco magnético
perambulando na noite primordial.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

derrubar estrelas
sobre nossa aldeia

descobrir idéias
numa fruta que apodrece

dissolver a imagem
deste ego breve

descascar as sombras
que envolvem a pele

duvidar do sol.
como um corpo
deitando na lama:
cama calma
para a alma em chamas.

como um corvo
desviando da sombra.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

mordendo:

as pernas do medo
os olhos da vida
as uvas do tempo.
uma navalha, uma pupila
um gole de vinho no escuro

um corpo deitado
sobre cacos de vidro:

a respiração do futuro.
procurar uma montanha
que manteha acesa
minha lua no peito
e que ponha um segredo
sob as unhas do vento.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

cachorros e antenas digitais
um gole de vinho
perto do abismo

a noite temperada
e o incêndio ancestral
(a boca da terra)

palavras & desordem:
garimpo da alma

a Mulher Que Ri
e um babuíno num colchão
na casa da árvore.
um mosquito
engole o infinito

o sol espalha brasas
nos telhados das casas

calço os sapatos
costurados pelos ratos

a chuva renova
as flores da cova

há um leão
no ventre do grão.
deitado
junto das vacas verdes
com os dentes
mordendo a alma

árvores
nos ensinam canções

e nossos corações e o sonho
mugem dentro da sombra.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

sonho com sóis
saindo da selva

saúdo as sombras
serenas do sexo

sopro as seivas
secretas do sonho

sementes sangrando
séculos de saliva

e um símio com sabre
seccionando o sublime.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

a mente
é uma asa

roendo o espaço
azul

cavalos
comendo a lua

a água
desaba
sobre as pernas
do tempo

hipnotizando
fêmeas ancestrais.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

asas pequenas.
um texugo colhendo
manhãs
na fumaça das nuvens.

ilha do voo
tempo de água e lua
na garganta
do pássaro.

cem anos
fogueira & pupila

formigas cantam
nas dobras do vento

o ventre.

desenhos
e chuva (rio calmo da respiração).

peixes escrevem
as frutas vermelhas
na vértebra do sono.

ruídos e canções
de baleias
sobem em meus olhos.

sono
ninho ancestral das visões.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

o poema se faz
com o barulho dos ossos.

a poesia é ruído
distúrbio, transgressão
(os sons do corpo mamífero).

o poema cria
o abismo com violinos
e a vertigem
(as alucinações caóticas
do deserto do real).

a poesia é o incêndio
do encontro e o acaso:
olhos do nômade
na paisagem de animais.

a poesia é o vinho
da visão.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

em memória de rafael banana

a grande boca
do incompreensível
mordeu meu amigo
no peito

e me deixou aqui
no abismo.