circe me disse:
tranquilo, nego.
cabeça de gelo.
fique frio,
fique freak.
segunda-feira, 23 de março de 2015
o oceano é uma
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também
nossos corpos
à deriva
vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos
os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva
uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja
nossos corpos
à deriva
tiamat nos festeja
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também
nossos corpos
à deriva
vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos
os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva
uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja
nossos corpos
à deriva
tiamat nos festeja
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
o tigre e william blake o golfinho
e dora ferreira da silva o urubu
e augusto dos anjos o corvo
e edgar allan poe o albatroz
e charles baudelaire a barata
e clarice lispector a lesma
e manoel de barros a abelha
e alice ruiz o sapo
e manuel bandeira o sapo liu-liu
e hilda hilst a rã
e matsuo bashô o cão
e alberto da cunha melo o cão
e joão cabral de melo neto o peixe
e adília lopes o cisne
e william butler yeats o pássaro
e alejandra pizarnik o pássaro
e charles bukowski o jaguar
e roberto piva o lobo
e virginia woolf o escorpião
e bruna surfistinha o puma
e hannah höch o urso
e cassiano ricardo o urso
e diane di prima o unicórnio
e audre lorde o leão
e michael mcclure o leão
e björk o gato
e maya deren o cavalo
e patti smith
e dora ferreira da silva o urubu
e augusto dos anjos o corvo
e edgar allan poe o albatroz
e charles baudelaire a barata
e clarice lispector a lesma
e manoel de barros a abelha
e alice ruiz o sapo
e manuel bandeira o sapo liu-liu
e hilda hilst a rã
e matsuo bashô o cão
e alberto da cunha melo o cão
e joão cabral de melo neto o peixe
e adília lopes o cisne
e william butler yeats o pássaro
e alejandra pizarnik o pássaro
e charles bukowski o jaguar
e roberto piva o lobo
e virginia woolf o escorpião
e bruna surfistinha o puma
e hannah höch o urso
e cassiano ricardo o urso
e diane di prima o unicórnio
e audre lorde o leão
e michael mcclure o leão
e björk o gato
e maya deren o cavalo
e patti smith
o oceano é uma
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também
nossos corpos
à deriva
vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos
os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva
uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja
nossos corpos
à deriva
tiamat nos festeja
cama larga: esta
canção é sobre
sangue sobre
tempo também
nossos corpos
à deriva
vinho e cerveja,
estamos mortos
e jamais morreremos
os ossos dos nossos
dedos batucam a pele
das águas no ritmo
destas gotas de chuva
uma delícia, este vinho
uma delícia, esta cerveja
nossos corpos
à deriva
tiamat nos festeja
nos bolsos furados da nossa memória:
as pernas quebradas, um velhinho jogando
pôquer com os pombos, um pedaço de chão
coberto de lodo onde enfiamos nosso narizes
para fugir do cheiro do barulho dos prédios,
moscas sobrevoando a paz dos pratos sujos,
livros de receitas da avó de eddie vedder,
bagas, litros de suco de pitanga com pastel,
plantas carnívoras, carcaças de canários,
gols feitos durante a fuga das aulas de língua
portuguesa, noites de vinho & vômito, visões
de naves alienígenas transformadas em bolhas
de sabão, sabedoria da velhinha que vendia
amendoins e deliciosos caldinhos de sururu,
o peixe-beta que morreu na frente do espelho,
as bolas de gude roubadas e perdidas, mangas
com sal nos terrenos baldios, deus e sua solidão.
pôquer com os pombos, um pedaço de chão
coberto de lodo onde enfiamos nosso narizes
para fugir do cheiro do barulho dos prédios,
moscas sobrevoando a paz dos pratos sujos,
livros de receitas da avó de eddie vedder,
bagas, litros de suco de pitanga com pastel,
plantas carnívoras, carcaças de canários,
gols feitos durante a fuga das aulas de língua
portuguesa, noites de vinho & vômito, visões
de naves alienígenas transformadas em bolhas
de sabão, sabedoria da velhinha que vendia
amendoins e deliciosos caldinhos de sururu,
o peixe-beta que morreu na frente do espelho,
as bolas de gude roubadas e perdidas, mangas
com sal nos terrenos baldios, deus e sua solidão.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
você recebe o poema pelas pernas
e então corre feito uma criança
picada por vespas amarelas
você recebe o poema pelas unhas
e então descasca as camadas
antigas de tinta sobre as pupilas
você recebe o poema pelas pálpebras,
pelas nádegas, pelas sobrancelhas,
pelas narinas, pelas virilhas, medula
você recebe o poema pela testa,
mandíbulas, o poema fura tuas bochechas,
faz tremer as tuas coxas (como numa foda)
você recebe o poema e ele quebra tuas costelas
e coloca na tua garganta as vozes das capivaras
que não escaparam de nossa sede de sangue & carne
você recebe o poema: purple haze, bike, avatar:
o poema abre tua boca, o poema deita em tua língua.
e então corre feito uma criança
picada por vespas amarelas
você recebe o poema pelas unhas
e então descasca as camadas
antigas de tinta sobre as pupilas
você recebe o poema pelas pálpebras,
pelas nádegas, pelas sobrancelhas,
pelas narinas, pelas virilhas, medula
você recebe o poema pela testa,
mandíbulas, o poema fura tuas bochechas,
faz tremer as tuas coxas (como numa foda)
você recebe o poema e ele quebra tuas costelas
e coloca na tua garganta as vozes das capivaras
que não escaparam de nossa sede de sangue & carne
você recebe o poema: purple haze, bike, avatar:
o poema abre tua boca, o poema deita em tua língua.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
os méritos do cinismo
ridiculamente tímidos e prudentes, isto que somos.
quando aprenderemos novamente a cuspir
nos rostos dos proprietários da terra?
há uma virtude restauradora nos oceanos de saliva,
uma graça infinita na aventura enlouquecida da sinceridade.
contra a hipnose do infinito, contra os freios da hipocrisia
contra os bocejos da sabedoria de palestra.
escolhemos desfilar nossa solidão em praça pública,
desafiamos a claridade barriguda dos militares.
quem escuta as respostas do lodo para questões místicas?
quem escuta nossa zombaria e latidos enquanto compra
cervejas quentes feitas de milho transgênico por bolivianos cansados?
a tarefa do poeta é bater punheta para gozar na cara
dos doutrinadores da alma & do corpo, exibir
a completa amargura e lavar os ossos
de nossa condição despojada.
"quem me dera que bastasse também
esfregar a barriga para não ter mais fome",
disse o cão celestial depois de ejacular.
condomínio de enfermos, prisioneiros da certeza,
haverá uma chuva de equívocos e sairemos bêbados
carregados pelos pontapés do nojo que o tempo nutre
de nossa miséria, nossa farsa: um rosto repugnante
que insistimos em transformar em senhor das moscas.
quando aprenderemos novamente a cuspir
nos rostos dos proprietários da terra?
há uma virtude restauradora nos oceanos de saliva,
uma graça infinita na aventura enlouquecida da sinceridade.
contra a hipnose do infinito, contra os freios da hipocrisia
contra os bocejos da sabedoria de palestra.
escolhemos desfilar nossa solidão em praça pública,
desafiamos a claridade barriguda dos militares.
quem escuta as respostas do lodo para questões místicas?
quem escuta nossa zombaria e latidos enquanto compra
cervejas quentes feitas de milho transgênico por bolivianos cansados?
a tarefa do poeta é bater punheta para gozar na cara
dos doutrinadores da alma & do corpo, exibir
a completa amargura e lavar os ossos
de nossa condição despojada.
"quem me dera que bastasse também
esfregar a barriga para não ter mais fome",
disse o cão celestial depois de ejacular.
condomínio de enfermos, prisioneiros da certeza,
haverá uma chuva de equívocos e sairemos bêbados
carregados pelos pontapés do nojo que o tempo nutre
de nossa miséria, nossa farsa: um rosto repugnante
que insistimos em transformar em senhor das moscas.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria parado na frente de um rinoceronte
fumando um fininho californiano encontrado
entre sapatos abandonados e hare krishnas.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria o dia inteiro enfiando álcool e gasolina
nos tanques de combustível dos carros currados
por motoristas sem imaginação, depois do polimento.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu ainda estaria trabalhando na televisão
ligando para delegacias à procura de prisões
e assassinatos interessantes para nossos abutres.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu permaneceria eternamente vendendo cópias
dos desenhos dos cavaleiros do zodíaco
para crianças cegas, anões e ninjas aposentados.
eu estaria parado na frente de um rinoceronte
fumando um fininho californiano encontrado
entre sapatos abandonados e hare krishnas.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu estaria o dia inteiro enfiando álcool e gasolina
nos tanques de combustível dos carros currados
por motoristas sem imaginação, depois do polimento.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu ainda estaria trabalhando na televisão
ligando para delegacias à procura de prisões
e assassinatos interessantes para nossos abutres.
não fosse a escrita, na melhor das hipóteses
eu permaneceria eternamente vendendo cópias
dos desenhos dos cavaleiros do zodíaco
para crianças cegas, anões e ninjas aposentados.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
ainda estamos juntos
apesar de você praticar yoga com imigrantes vietnamitas
depois de molhar os pés nas águas do pacífico, enquanto
eu continuo catando moedas velhas nas areias sem fim
de uma praia fracassada lambida pelo atlântico -
tudo isso para entulhar a alma de ferrugem
e encher os bolsos com os avisos dos gansos.
apesar de você encontrar o táxi-chuvoso que te ilumina
e diz que todas las noches terminan en el malecón,
enquanto eu sigo enterrando chaves de fenda no fundo dos olhos
dos peixes abandonados debaixo da vaidade do sol, enquanto
eu permaneço escrevendo poemas para depósitos bancários,
poemas para trocar por lsd fajuto feito com listas telefônicas
e bastante cola branca, enquanto eu fico telefonando
para as alucinações, juntando as vísceras e os vícios
dos pardais devorados pelos banhos de soda cáustica.
apesar de você mergulhar com tubarões na polinésia
e descobrir as potências sexuais e curativas de moquecas
condimentadas com muito cravo, páprica e pimentas negras,
enquanto eu não paro de comer o pão que o diabo traz
de uma padaria tailandesa onde um anão viciado em pôquer
produz receitas tristes embalado por um tango lunático.
apesar de você amanhecer entre os dentes dos mímicos
desempregados da última turma da universidade de pequim,
enquanto eu anoiteço dentro da geladeira, ladeira abaixo,
enquanto eu anoto quase todas as frases que não me dizem
mas que eu escuto, enquanto eu estoco tristeza e feijão
debaixo das unhas - o suficiente para alimentar as canções
das baleias migrantes à procura de águas quentes.
ainda estamos juntos: somos vizinhos da enfermaria nº6.
ainda estamos juntos e jantamos os ossos da alegria e do tédio.
ainda estamos juntos e morreremos juntos e nossas juntas
serão colocadas na mesma caixa de ferro e lançadas ao mar.
apesar de você saber assoviar, enquanto eu sei cuspir mais longe:
ainda estamos juntos e ficaremos bem velhinhos como ronnie & donnie.
depois de molhar os pés nas águas do pacífico, enquanto
eu continuo catando moedas velhas nas areias sem fim
de uma praia fracassada lambida pelo atlântico -
tudo isso para entulhar a alma de ferrugem
e encher os bolsos com os avisos dos gansos.
apesar de você encontrar o táxi-chuvoso que te ilumina
e diz que todas las noches terminan en el malecón,
enquanto eu sigo enterrando chaves de fenda no fundo dos olhos
dos peixes abandonados debaixo da vaidade do sol, enquanto
eu permaneço escrevendo poemas para depósitos bancários,
poemas para trocar por lsd fajuto feito com listas telefônicas
e bastante cola branca, enquanto eu fico telefonando
para as alucinações, juntando as vísceras e os vícios
dos pardais devorados pelos banhos de soda cáustica.
apesar de você mergulhar com tubarões na polinésia
e descobrir as potências sexuais e curativas de moquecas
condimentadas com muito cravo, páprica e pimentas negras,
enquanto eu não paro de comer o pão que o diabo traz
de uma padaria tailandesa onde um anão viciado em pôquer
produz receitas tristes embalado por um tango lunático.
apesar de você amanhecer entre os dentes dos mímicos
desempregados da última turma da universidade de pequim,
enquanto eu anoiteço dentro da geladeira, ladeira abaixo,
enquanto eu anoto quase todas as frases que não me dizem
mas que eu escuto, enquanto eu estoco tristeza e feijão
debaixo das unhas - o suficiente para alimentar as canções
das baleias migrantes à procura de águas quentes.
ainda estamos juntos: somos vizinhos da enfermaria nº6.
ainda estamos juntos e jantamos os ossos da alegria e do tédio.
ainda estamos juntos e morreremos juntos e nossas juntas
serão colocadas na mesma caixa de ferro e lançadas ao mar.
apesar de você saber assoviar, enquanto eu sei cuspir mais longe:
ainda estamos juntos e ficaremos bem velhinhos como ronnie & donnie.
grandelícia
as tristezas não sopram as retinas
cansadas da velha guerra
entre a febre
e o ouro.
cansadas da velha guerra
entre a febre
e o ouro.
à beira do abismo, uma sopa.
há uma cantoria dentro dos ossos,
há uma cantoria dentro dos nossos
dias mais esquisitos e espatifados
e espalhados pelo chão da cozinha.
na foda dos bonobos, na sinceridade
dos cinzeiros cheios de dentes,
nas bicicletas sorridentes e enferrujadas,
nas pilhas velhas, nas ilhas de cimento:
tédio, tesão
e um cheiro de caju impregnado no cu
das nove mil noites de cianureto.
há uma cantoria dentro dos ossos,
há uma cantoria dentro dos nossos
dias mais esquisitos e espatifados
e espalhados pelo chão da cozinha.
na foda dos bonobos, na sinceridade
dos cinzeiros cheios de dentes,
nas bicicletas sorridentes e enferrujadas,
nas pilhas velhas, nas ilhas de cimento:
tédio, tesão
e um cheiro de caju impregnado no cu
das nove mil noites de cianureto.
sábado, 3 de janeiro de 2015
arte poética
incendiar noites e dias, a carne do mundo
lamber perambulando entre onças e pedras.
sorrir na companhia dos mendigos.
sujar as retinas, as botas, as beatas
foder. ao redor do umbigo,
cuspir.
amar a água, a égua, a águia e
comer os caminhos abertos da invisibilidade.
repartir as vísceras, próprias e alheias, entre chacais,
tanques de combustível e soluços.
voar no céu da boca, vadiar debaixo dos monturos.
perder os dentes, os dedos, poder povoar a solidão.
provocar brigas, dançar forró com garis nas madrugadas,
digerir didgeridoos, apaziguar as mortes azuis.
lamber perambulando entre onças e pedras.
sorrir na companhia dos mendigos.
sujar as retinas, as botas, as beatas
foder. ao redor do umbigo,
cuspir.
amar a água, a égua, a águia e
comer os caminhos abertos da invisibilidade.
repartir as vísceras, próprias e alheias, entre chacais,
tanques de combustível e soluços.
voar no céu da boca, vadiar debaixo dos monturos.
perder os dentes, os dedos, poder povoar a solidão.
provocar brigas, dançar forró com garis nas madrugadas,
digerir didgeridoos, apaziguar as mortes azuis.
Assinar:
Postagens (Atom)
