domingo, 4 de março de 2007


Caminho com os pés suspensos e sem controle. Às vezes eu desmaio nos trópicos e quero ver a pele mansa da desordem. Estou certo em fugir pelo rio e eu quero as flores de tua consciência, mas eu sei do riso do céu agora e deus não tem pedras nos bolsos. Bebo água e ouço o rádio. Eu durmo com o desenho de um fio que percorre minha cabeça. Você sabe fingir. O orgasmo dos olhos se revirando entre as janelas me aponta a saída do sol e o quarto das horas fica lotado com teu adeus. Nunca sairei dessa cena, ficarei me movendo como uma mão sobre a navalha.


Cometas atravessam meu cérebro e as horas me consomem como o fogo de tua pele. Uma multidão destrói meu jardim e eu invento um raio para me refugiar. A tua canção faz sombra e meus ombros te carregam por aí. A lua morta é uma pele sobre o oceano e você me entende. Eu escrevo sobre pássaros e mulheres e o tumulto me desperta com uma bebida velha. O tempo fica preso no olho do cachorro que atravessa a rua sem medo. Essa calma me atinge e tua boca revira meus ossos. Eu não esqueço a voz das esquinas e os sapatos sabem que são insignificantes.




eu quero o verde de todos séculos.

tragam rosa
colher na boca e outros poemas
o silêncio dos minerais azuis
e o abraço cego
do poeta aproximado

acendam um lampião
e risquem a minha cabeça
no chão da linguagem iluminada

bebam o vinho sangue
essa palavra doce
que escorre cedo
pela foice da lembrança

durmam longe da noite
na véspera do abismo

eu ficarei
no incêndio




tempestade
música de Satie
pela metade






estar nu
nu como um dente

estar coisa
cio S/A

estarestar

estar éter
quasar


eu sempre
 
eu sempre sei //
da sombra //
do cio das coisas //
e mais
 
eu sempre sou //
aquele azul //
o corpo nu //
e a paz
 
eu sempre saio //
invento um raio //
ilumino a noite //
e o cais

meu bem
 
meu bem, meu bem /
eu fico zen /
dançando sem /
você
 
meu bem, meu bem /
a noite vem /
não fico sem /
voar /

meu bem, meu bem /
você mantém /
sua pose, sem /
saber sambar

meu bem, meu bem /
você não tem /
suíngue nem /
a manha pra /

girar /

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Não é um suicídio

O jovem acordou

Da noite de insônia.

Escovou os dentes

Saiu de casa

Deitou-se na linha do trem

E pensou:

- Enquanto ele não vem, estou vivo!



Perdido

entre não ter asas
e não saber nadar


deixo na boca
a sugestão da tempestade

lúcido como uma navalha
só ponta

anoto
os haicais
da chuva

e recolho
o horizonte
do antebraço

estendido sobre o cais.

sábado, 3 de fevereiro de 2007




!vai dormir vagabundo!


# e entre um copo e outro de vinho ficava me girando pra saber mais.e caminhando um pouco além

nas explosões daquele vagalume-que-circula-nas-mãos redesenhava os lugares da cabeça. sabe aquela risada? não me controlava, era impossível: o perder-a-vista na praia, o vento no rosto e um assombro de idéias rápidas na mente. um dia desses ainda mergulho e fico num universo singular, paralelo a tudo, inclusive a mim. de triste só não ter força pra escrever quando me vem esse espírito-matéria. de esperança usar essa orgia-transcendente-imanente esse fruto-da-terra-dos-não-deuses como vetor pra minhas fogueiras. essa imensa gargalhada vai dando lugar a um sorriso lento (fosse assim perene). e dentro de mim, ainda o incêndio de avatares e coisas comuns a dança surreal de engolir a noite, apagando as palavras. diabo de não resistir ao silêncio e ao descanso mítico que esse pássaro me proporciona! desço ao sono, me entregando aos braços de dioniso e às pernas de gaia. me recolho ao útero-de-sempre, pra nascer pela manhã pronto pra sonhar de novo, sem o rosto sério e o relógio adiantado do des-trabalho mundano. assim vou, dormindo pra levar a vida: um leve rio de mim.

da matéria


Antes da queda: queda

Resgato enigmas em meu ventre.

Meus dentes escrevem o futuro.

A ciência não saberá o que digo.


Não sei o que digo e finjo

e uma parede de ilusões

desaba sobre mim.


A garganta esconde o grito

e meu sangue disfarça

a poeira de estrelas

de que sou feito.

A fêmea

Seu cio

Será céu?

Os anjos não sabem.

Brincam de luz.

Amenidades

Tempo de sol tempo de chuva

Tempo de sol de chuva

Tem sol em chuva

de sol

e só chuva

ssssssss chuva

chuva

caindo lá fora

(bom pra dormir)

Queda


Preso

Às rudes amarras

Da gravidade

Cai do alto

Meu corpo

Dois minutos.

Sonhar o pássaro

Que eu nunca serei.

domingo, 14 de janeiro de 2007

porodegata

palavra-partilha
assobio na saída
ponte
dicção de peixe-duplo
árvora
prafruto
tudo
se esparramando
no chão


“se come as frutas que caem do céu primeiro"
visse?

devir

aondeanda

debanda

deandada

adada

doidavaria

porodegata?

ossos


meus ossos caem

no cio das coisas

e a pálpebra imensa da chuva

é um espelho delicado

em tuas mãos

A fala

A fala vegetal de meus ossos

e a estrela bailarina

se confundem

no teu colo

e deus serve um manjar proibido

depois da anunciação

o corpo

O corpo

não canta

O corpo

não

encontra

canção

O corpo não

nu

sem voz

em vão

tenho dito

tenho dito

que a carne cobre o espaço

cumpre os dias e passa

o eterno da passagem

é sua pele