quarta-feira, 18 de maio de 2016

Recife, eu tinha pernas miúdas
muito antes dos porres de vinho
nas rodas punk no Antigo
muito antes do trabalho triste
de ligar para delegacias muito antes
de ver a cabeça de pedra de Bandeira
muito antes de atravessar as pontes
de madrugada e voltar para o futuro

Recife era a pequena casa de minha avó
numa travessa ali perto da Aurora
e a vida chegava com suas bagagens do incompreensível
com os garotos que cheiravam cola, com o mendigo
(que se chamava Amigão) quase sempre bêbado

e eu não pensava na morte e me deitava
no colo de epifanias nanicas

olhar por cima do muro um estacionamento
nos ombros do meu tio, receber uma fita k-7 do Pantera
gravada pelo meu primo, reparar no colorido das embalagens dos cigarros
ao ir comprar pão na padaria Aquário, logo ali na esquina

Recife, minha avó mais velhinha e minhas pernas
misturam os caminhos que me trouxeram pra cá
Rua do Sossego, Alegria, Glória, Fundição

Recife, passagem de som e sonho,
tropeção
o poema é um esporte de contato
{a continuar}

poema desentranhado de uma fala de Ian Mackaye

estamos aqui conversando
por quase duas horas

e enquanto conversamos

nas dobras do mundo
criaram poemas
e músicas

suficientes
para nos alimentar

pelo resto de nossas vidas

a new beat from a dead heart

foi depois da chuva

quando caminhei fora da
cabeça em direção à vida


e me tornei contemporâneo
das mais velhas árvores

domingo, 21 de fevereiro de 2016

ainda tenho comigo
rãs escrevendo
na água

agorinha mesmo
eu vi
rãs escrevendo
na água


rãs
não postam no facebook
não sobem vídeo pro youtube
o que escrevem
na água

respiro meus poemas
ao respirar os poemas das rãs
debaixo da água
aqui sozinho sou mais
velho que esta chuva
perdi todos os dentes
da alegria nem lembro
como escrevi as rugas

coberto de terra e cinzas
babando de ódio e preguiça
da humanidade já fui antes
um animal com a cabeça
sem piolhos e pensamentos
ranzinzas
Pernambuco, vasta fazenda
se eu me chamasse João Campos
não seria uma rima, mas teria muita renda

Pernambuco, vasta fazenda
o espírito do coronel já virou lenda
e eu continuo desempregado
levando uma vida de gado


Pernambuco, vasta fazenda
todos os animais são iguais
mas alguns são mais iguais
que os outros, riem os porcos

Pernambuco, vasta fazenda
tem gabinete e covil para um
estudante de engenharia civil
continuar no poder do atraso

Pernambuco, vasta fazenda
já é tempo de incendiar
o ócio do palácio e espalhar
as cinzas pelos campos

Pernambuco, vasta fazenda
mais vasta é a rebelião
e o coice, a foice
do vento

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

camarada cheirou loló vegano
ficou ouvindo as sirenes
da vida crua
se transformarem no chiado
de um espetinho de frango com bacon
hoje pela manhã um mendigo me salvou
com algumas baforadas e brasas
enquanto me dizia que
o gato é uma gota
de tigre

e que não há nada a pedir às deusas

nem desodorante, nem pizza
nem teto, nem saúde, nem dentes
nem viagens de ácido, nem travesseiros
projetados pela Nasa, nem pernas mecânicas
nem pastilhas para refrescar o hálito, nem pão

basta deixar os pés na poeira e fazer
a travessia

como um sabonete despreocupado com seu fim
deixando tudo cheiroso
she called pest control. não faz outra coisa senão ouvir
fIREHOSE - walking the cow no repeat, fumando cannabis
& enfiando o dedo na buceta, imaginando a vida das vacas
indo daqui pra lá, zanzando no campo
como belugas de férias
vestidas com camisas floridas
bebendo caipirinhas
e fodendo leitões nas rodoviárias
e bocas de fumo


as vacas mascando generosos montões de erva verde
comendo poeira e cachaça
não esqueço a carcaça
que arrasta mangas
pela sombra

na ladeira e doidas, as pernas
na alegria e coices, os sonhos

o que é a vida senão um vapor
barato de carnaval, cabelo
branco do recém
nascido
as conversas os amores
com suas delícias
ainda escapam
às tecnologias?
agora mesmo, augusto, é só isto:
a mão que afoga é a mesma que apedreja
dia e noite se encontram no amor? como não alimentar a ansiedade se ela é um bicho que come de tudo, até lixo? talvez encontrando por acaso os cantos órficos de dino campana num shopping, talvez virando fumaça na tarde de mormaço, talvez exercitando as noventa e nove maneiras de ficar em silêncio, talvez costurando no peito as palavras de calma da água. há moedas de dez centavos observando as chuvas, há um rádio de pilha sintonizado numa transmissão de futebol de cegos, há fantasmas balançando na rede. aí batem na porta testemunhas de jeová. é a segunda vez que aparecem este mês e virão novamente. fiz com que a conversa girasse sobre alienígenas, poesia e o planeta terra. eu não sei de muita coisa, mas desconfio que é suficiente tomar cerveja em boa companhia para que o mundo continue rodopiando. e logo dobraremos as esquinas em que um abraço apaga as perguntas. e será carnaval e nossas bocas tocarão asas vivas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

não conheço poeta
mais talentoso no exercício
de alteridade, invenção
e vida dupla

que oscar maroni

ele coloca um óculos escuro, cata uma bengala
e sai do bahamas hotel club para lamber os pés
de gorilas e garis e açougueiros e dos motoboys
com cicatrizes nos tornozelos e aí ficar fungando
as frieiras, o chulé, mordiscando os bichos de pé
que andarão entre linhas de seus próximos sonetos

velhinho porreta animal com a língua
numa xota numa glande em qualquer cu
encontrando a zona de sombra entre
o que fede e o que é sublime e cheiroso

como glauco mattoso
nada disto estaria
acontecendo se
eu fosse, ao menos hoje,
grigori rasputin ou mc
bin laden

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

hoje li no outdoor de uma empresa
de cerâmicas azulejos e privadas
que o ponto de partida é acreditar

então eu tô
fudido


coração cheio de dúvidas mais pesado
que um lutador de sumô nas férias

estou desempregado numa cidade nova e nenhum
poema abriu uma porta de emprego nem
bateu um prego numa barra de sabão

nenhuma mágoa, a vida é coice no queixo
e eu deixo algumas moedas de sorte
no concurso que farei para coveiro

ou isto ou fazer renda num táxi alugado pela madrugada
ou o sol quente debaixo do qual irei rasgar poemas
e perambular de bicicleta vendendo água

orinoco, nictógrafo

olhando aqui no quarto um documentário
a respeito da vida de jim tully

o jogo de pernas e os diretos junto
com os vagabundos dos vagões
dos pátios ferroviários e dos portos

aos 14 viu sua irmã sendo salva de um afogamento
aos 19 roubava carros e circulava por aí
até acabar a gasolina, escrevia poemas
e contos e os espalhava entre os refrigerantes
e os chocolates dos supermercados enquanto
seus bolsos conheciam queijos e vinhos

acontece que o mais importante
e o que mais me transtorna
é quando falam que ele não sabia de sua força
nem que tinha um coração bondoso

hernán gutierrez (1942-1972)
poeta uruguaio radicado no janga do fim de 1967
até seu desaparecimento no mar, em 1972.
dogen disse: desejo tem mais cabeças
que tiamat em caverna dos dragões

volúpia, vontade
são siamesas

não param de rodar
numa roda punk

todo desejo é inadiável, falou
entre uma chicotada e outra
minha vizinha dominadora
praticante de bondage
"dentro do contexto
sadio, seguro e consensual",
ela acrescentou


incendiar farmácias, cuspir nos próprios pés
a força maluca do inadiável como uma coceira no cu
antes tudo ar
ou mar

antes tudo lar
e deriva

força viva
não se amarra
nem fica
cativa