Recife, eu tinha pernas miúdas
muito antes dos porres de vinho
nas rodas punk no Antigo
muito antes do trabalho triste
de ligar para delegacias muito antes
de ver a cabeça de pedra de Bandeira
muito antes de atravessar as pontes
de madrugada e voltar para o futuro
Recife era a pequena casa de minha avó
numa travessa ali perto da Aurora
e a vida chegava com suas bagagens do incompreensível
com os garotos que cheiravam cola, com o mendigo
(que se chamava Amigão) quase sempre bêbado
e eu não pensava na morte e me deitava
no colo de epifanias nanicas
olhar por cima do muro um estacionamento
nos ombros do meu tio, receber uma fita k-7 do Pantera
gravada pelo meu primo, reparar no colorido das embalagens dos cigarros
ao ir comprar pão na padaria Aquário, logo ali na esquina
Recife, minha avó mais velhinha e minhas pernas
misturam os caminhos que me trouxeram pra cá
Rua do Sossego, Alegria, Glória, Fundição
Recife, passagem de som e sonho,
tropeção
quarta-feira, 18 de maio de 2016
poema desentranhado de uma fala de Ian Mackaye
estamos aqui conversando
por quase duas horas
e enquanto conversamos
nas dobras do mundo
criaram poemas
e músicas
suficientes
para nos alimentar
pelo resto de nossas vidas
por quase duas horas
e enquanto conversamos
nas dobras do mundo
criaram poemas
e músicas
suficientes
para nos alimentar
pelo resto de nossas vidas
a new beat from a dead heart
foi depois da chuva
quando caminhei fora da
cabeça em direção à vida
e me tornei contemporâneo
das mais velhas árvores
quando caminhei fora da
cabeça em direção à vida
e me tornei contemporâneo
das mais velhas árvores
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Pernambuco, vasta fazenda
se eu me chamasse João Campos
não seria uma rima, mas teria muita renda
Pernambuco, vasta fazenda
o espírito do coronel já virou lenda
e eu continuo desempregado
levando uma vida de gado
Pernambuco, vasta fazenda
todos os animais são iguais
mas alguns são mais iguais
que os outros, riem os porcos
Pernambuco, vasta fazenda
tem gabinete e covil para um
estudante de engenharia civil
continuar no poder do atraso
Pernambuco, vasta fazenda
já é tempo de incendiar
o ócio do palácio e espalhar
as cinzas pelos campos
Pernambuco, vasta fazenda
mais vasta é a rebelião
e o coice, a foice
do vento
se eu me chamasse João Campos
não seria uma rima, mas teria muita renda
Pernambuco, vasta fazenda
o espírito do coronel já virou lenda
e eu continuo desempregado
levando uma vida de gado
Pernambuco, vasta fazenda
todos os animais são iguais
mas alguns são mais iguais
que os outros, riem os porcos
Pernambuco, vasta fazenda
tem gabinete e covil para um
estudante de engenharia civil
continuar no poder do atraso
Pernambuco, vasta fazenda
já é tempo de incendiar
o ócio do palácio e espalhar
as cinzas pelos campos
Pernambuco, vasta fazenda
mais vasta é a rebelião
e o coice, a foice
do vento
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
hoje pela manhã um mendigo me salvou
com algumas baforadas e brasas
enquanto me dizia que
o gato é uma gota
de tigre
e que não há nada a pedir às deusas
nem desodorante, nem pizza
nem teto, nem saúde, nem dentes
nem viagens de ácido, nem travesseiros
projetados pela Nasa, nem pernas mecânicas
nem pastilhas para refrescar o hálito, nem pão
basta deixar os pés na poeira e fazer
a travessia
como um sabonete despreocupado com seu fim
deixando tudo cheiroso
com algumas baforadas e brasas
enquanto me dizia que
o gato é uma gota
de tigre
e que não há nada a pedir às deusas
nem desodorante, nem pizza
nem teto, nem saúde, nem dentes
nem viagens de ácido, nem travesseiros
projetados pela Nasa, nem pernas mecânicas
nem pastilhas para refrescar o hálito, nem pão
basta deixar os pés na poeira e fazer
a travessia
como um sabonete despreocupado com seu fim
deixando tudo cheiroso
she called pest control. não faz outra coisa senão ouvir
fIREHOSE - walking the cow no repeat, fumando cannabis
& enfiando o dedo na buceta, imaginando a vida das vacas
indo daqui pra lá, zanzando no campo
como belugas de férias
vestidas com camisas floridas
bebendo caipirinhas
e fodendo leitões nas rodoviárias
e bocas de fumo
as vacas mascando generosos montões de erva verde
fIREHOSE - walking the cow no repeat, fumando cannabis
& enfiando o dedo na buceta, imaginando a vida das vacas
indo daqui pra lá, zanzando no campo
como belugas de férias
vestidas com camisas floridas
bebendo caipirinhas
e fodendo leitões nas rodoviárias
e bocas de fumo
as vacas mascando generosos montões de erva verde
dia e noite se encontram no amor? como não alimentar a ansiedade se ela é
um bicho que come de tudo, até lixo? talvez encontrando por acaso os
cantos órficos de dino campana num shopping, talvez virando fumaça na
tarde de mormaço, talvez exercitando as noventa e nove maneiras de ficar
em silêncio, talvez costurando no peito as palavras de calma da água.
há moedas de dez centavos observando as chuvas, há um rádio de pilha
sintonizado numa transmissão de futebol de cegos, há fantasmas
balançando na rede. aí batem na porta testemunhas de jeová. é a segunda
vez que aparecem este mês e virão novamente. fiz com que a conversa
girasse sobre alienígenas, poesia e o planeta terra. eu não sei de muita
coisa, mas desconfio que é suficiente tomar cerveja em boa companhia
para que o mundo continue rodopiando. e logo dobraremos as esquinas em
que um abraço apaga as perguntas. e será carnaval e nossas bocas tocarão
asas vivas.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
não conheço poeta
mais talentoso no exercício
de alteridade, invenção
e vida dupla
que oscar maroni
ele coloca um óculos escuro, cata uma bengala
e sai do bahamas hotel club para lamber os pés
de gorilas e garis e açougueiros e dos motoboys
com cicatrizes nos tornozelos e aí ficar fungando
as frieiras, o chulé, mordiscando os bichos de pé
que andarão entre linhas de seus próximos sonetos
velhinho porreta animal com a língua
numa xota numa glande em qualquer cu
encontrando a zona de sombra entre
o que fede e o que é sublime e cheiroso
como glauco mattoso
mais talentoso no exercício
de alteridade, invenção
e vida dupla
que oscar maroni
ele coloca um óculos escuro, cata uma bengala
e sai do bahamas hotel club para lamber os pés
de gorilas e garis e açougueiros e dos motoboys
com cicatrizes nos tornozelos e aí ficar fungando
as frieiras, o chulé, mordiscando os bichos de pé
que andarão entre linhas de seus próximos sonetos
velhinho porreta animal com a língua
numa xota numa glande em qualquer cu
encontrando a zona de sombra entre
o que fede e o que é sublime e cheiroso
como glauco mattoso
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
hoje li no outdoor de uma empresa
de cerâmicas azulejos e privadas
que o ponto de partida é acreditar
então eu tô
fudido
coração cheio de dúvidas mais pesado
que um lutador de sumô nas férias
estou desempregado numa cidade nova e nenhum
poema abriu uma porta de emprego nem
bateu um prego numa barra de sabão
nenhuma mágoa, a vida é coice no queixo
e eu deixo algumas moedas de sorte
no concurso que farei para coveiro
ou isto ou fazer renda num táxi alugado pela madrugada
ou o sol quente debaixo do qual irei rasgar poemas
e perambular de bicicleta vendendo água
de cerâmicas azulejos e privadas
que o ponto de partida é acreditar
então eu tô
fudido
coração cheio de dúvidas mais pesado
que um lutador de sumô nas férias
estou desempregado numa cidade nova e nenhum
poema abriu uma porta de emprego nem
bateu um prego numa barra de sabão
nenhuma mágoa, a vida é coice no queixo
e eu deixo algumas moedas de sorte
no concurso que farei para coveiro
ou isto ou fazer renda num táxi alugado pela madrugada
ou o sol quente debaixo do qual irei rasgar poemas
e perambular de bicicleta vendendo água
orinoco, nictógrafo
olhando aqui no quarto um documentário
a respeito da vida de jim tully
o jogo de pernas e os diretos junto
com os vagabundos dos vagões
dos pátios ferroviários e dos portos
aos 14 viu sua irmã sendo salva de um afogamento
aos 19 roubava carros e circulava por aí
até acabar a gasolina, escrevia poemas
e contos e os espalhava entre os refrigerantes
e os chocolates dos supermercados enquanto
seus bolsos conheciam queijos e vinhos
acontece que o mais importante
e o que mais me transtorna
é quando falam que ele não sabia de sua força
nem que tinha um coração bondoso
hernán gutierrez (1942-1972)
poeta uruguaio radicado no janga do fim de 1967
até seu desaparecimento no mar, em 1972.
a respeito da vida de jim tully
o jogo de pernas e os diretos junto
com os vagabundos dos vagões
dos pátios ferroviários e dos portos
aos 14 viu sua irmã sendo salva de um afogamento
aos 19 roubava carros e circulava por aí
até acabar a gasolina, escrevia poemas
e contos e os espalhava entre os refrigerantes
e os chocolates dos supermercados enquanto
seus bolsos conheciam queijos e vinhos
acontece que o mais importante
e o que mais me transtorna
é quando falam que ele não sabia de sua força
nem que tinha um coração bondoso
hernán gutierrez (1942-1972)
poeta uruguaio radicado no janga do fim de 1967
até seu desaparecimento no mar, em 1972.
dogen disse: desejo tem mais cabeças
que tiamat em caverna dos dragões
volúpia, vontade
são siamesas
não param de rodar
numa roda punk
todo desejo é inadiável, falou
entre uma chicotada e outra
minha vizinha dominadora
praticante de bondage
"dentro do contexto
sadio, seguro e consensual",
ela acrescentou
incendiar farmácias, cuspir nos próprios pés
a força maluca do inadiável como uma coceira no cu
que tiamat em caverna dos dragões
volúpia, vontade
são siamesas
não param de rodar
numa roda punk
todo desejo é inadiável, falou
entre uma chicotada e outra
minha vizinha dominadora
praticante de bondage
"dentro do contexto
sadio, seguro e consensual",
ela acrescentou
incendiar farmácias, cuspir nos próprios pés
a força maluca do inadiável como uma coceira no cu
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