segunda-feira, 30 de julho de 2007

é engraçado como ainda vejo teu corpo ao meu lado. eu guardo comigo esse teu

rosto acordando e a minha mão sobre tua pele. eu te carrego comigo. você parece

uma profecia estranhamente embriagada e eu me cubro de uma fé despretensiosa e de

afeto. eu não crio abismos pra te assustar. canto o teu nome baixinho pra dizer

que sou eu que te afago e falo teu nome. e isso eu não sei dizer sem milagres.

você ri e fica um pouco longe. mas eu sei que você me entende. você segura minha

mão e olha o meu antebraço. somos esse início. a abertura. um rasgão na aurora.

algo bonito e doce como os sons dessa casa. você já sabe meu nome mas ainda não

viu a chuva comigo. então vem e fica perto. vamos amanhecer. adormecer. com a voz

descansando no rosto do outro. nesse quase-silêncio nosso. sem nome. ainda

estranhos mas alegres. e saindo como o sol e o brilho da lua. um caminho que

desenho no antebraço. pra você vir ver de novo. e de novo. como a chuva que

cai agora sobre mim.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

escondido. ou escancarado como uma chaga. uma chama. ou esse abismo que somos nós

e que é todo mundo. somos nós nosso mundo. e nos abrimos e mentimos. somos

estranhos e únicos. estamos escondidos. um dentro do outro. debaixo da pele. no

mais azul do osso. e os teus cabelos. engraçados e negros. e sinceros como o

sorriso estranho e azul, dos abismos. sinceros como coisa escrita. como coisa

vivida por acaso e vontade. essa ficção noturna. embriagada. dois corpos são dois

abismos e trezentos desconhecidos no peito. eu estou no teu silêncio e você afaga

meu tempo. estamos aqui. fora desse frio e na aurora do entre, o diálogo, a

fronteira, a conversa, esse entre-deux, entre-dois, isso nosso. e inventado como

nossos nomes e nosso futuro. e essa música baixinha e a manhã. estamos aqui e

depois. expandidos. mergulhados no outro. e no silêncio. e no azul de todo sonho.

em expansão. recriando o mar e nossos nomes. eu me chamo x. qual teu nome?

posso ler tua pele? os sinais, o afeto. esse nosso útero.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

passeio pelos campos sem me perguntar
onde vou. sei que meu passado toca a sola
de meus pés mas sigo docemente e acompanho o sol.
você sabe o que isso significa? eu não
me sinto mal. você me pergunta pela trajetória e eu digo
que meus braços são lentos e profundos
como uma alma. a paisagem me corta. o verde
sorri como uma grande criança e me arrasta dentro
dos sonhos. velozmente. os vizinhos se vestiram
para dançar. a colheita irá começar. a moça vem
com um manto e abençoa os frutos. este ano eu serei
um rei. e todos saberão meu nome. isto é um milagre
e minha filha sai do futuro e cai em meu colo. suavemente.
como a chuva. então eu vejo meu povo sorrindo
e se abraçando. essa dança difusa do amor. e as árvores
são lavadas pelas lágrimas e pela felicidade. e quando
meu pai morre. tudo ressuscita. essa é toda a verdade.
em minha aldeia.

domingo, 15 de julho de 2007

eu tenho o coração
numa gaiola e não sei
o que fazer com o brilho
cego das facas

eu apenas vivo
e me bebo
encosto
meu ouvido
em teu ouvido

pois
também quero
ouvir a noite

e os grilos
que ficam
lá dentro
as praias
permanecem (lá)

eu imagino
nossos passos (lá)
caminhando de novo

e correndo
atrás dos cometas

e fumando
todo o mar (lá)

estamos
na mesma viagem

a gente
permanece (lá)

e se aquece (lá)

todos os dias
vamos
ficar
calmo
s
esorr
i
r
estát
u
d
o
certo
outra
v
e
z
um arquivo
ao acordar
se apaga

odeio
o rio
passado

novamente.
você tem olhos pequenos e
me deixa perto de seu coração
como se colasse uns pedaços meus
junto de você.

mas eu não entendo
nada sobre você e eu.

você tem olhinhos.
a médula
o verão

a moeda
o inverno

a mudança
o outono

a moça

a primavera
fico quieto
e risco
o céu

discreto
(com as
mãos no
bolso)

depois
apago
deus

ou
cubro
com um desenho
amo
as
coisas que
se apartam


e vão pra longe.

amo

as palavras

que se afogam
no banheiro do apartamento.

amo

os dias
que são quentes

e ficam fora do quarto.

amo

o s m e u s p a s s o s
no corredor e na cozinha

amo

os jardins
fora de casa

e amo

as janelas

amo sobretudo
as janelas
eu ando por essa avenida cheia de gente rápida e feia e pergunto pelo vento que

descobre meus cabelos e me deixa e pelo sol brilhante que aquece meus passos e

desenha o chão do meu caminho e que me deixa sem fala. eu ando por essa avenida

cheia de gente máquina e foice e respondo as moças no cio que me interrrompem e

me investigam e respondo as deusas que diariamente passeiam com os mendigos e

ficam loucas. eu ando como essa dor que passeia. eu ando como um improviso. um

sem-roteiro que adentra a cidade, nu de olhos.
sem sombra
danço rápido
como um cavalo

ouço o sol
das esquinas
como um santo

incandescente

e nu.
um gato
dormente
nos olhos

me sobrevoa
e eu durmo em paz
com espinhos
deixo o corpo aberto
num rumo sem rumo

na presença do silêncio
rabisco um conto

e tiro
os passarinhos do bolso
pra pintar o vento

a noite inteira
a noite inteira
a noite inteira

e vôo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

eu escuto uma canção por teu nome nos lábios.

a mesma porta sem trinco. girando como uma lua

furando nossos olhos. nós não estamos desertos. ficamos

por perto. assim num abraço. meu amor. tudo está certo.

eu eu você e as coisas. tudo certo.

eu danço com você na estrada, meu amor. tudo em volta está escurecendo

longe de nossa dança. somos frutas abertas debaixo do sereno ou uma rama

que se espalha pelos pêlos. um coração pra os dois. nós cabemos

nesse mesmo coração. como o amor. você escuta uma canção

por minha letra. eu escrevi mas não sei tocar. mas

você escuta o que passou e sorri. eu choro sem-fim.

sou um vagabundo sentimental.

eu vou pra longe desenhar teu nome. no chão da minha pele.

com uma brasa. vermelha como o meu coração vagabundo. esse sopro, esse cais

donde eu fico acenando pra tua lembrança. eu passo por teu sono

sem dizer palavra e descanso nos teus olhos e na canção.

e o meu coração vago anda por aí. só pra ficar longe

batendo contra o sol. guardando os passos. e a voz. tudo.

nessa canção. de andar.
o tempo e a véspera do tempo. eu trago os meus sapatos nas mãos e ando descalço.

eu lembro de ter dito que a loucura é uma grande ferramenta. mas você não

acredita em milagres e não pula. eu era um rei e era o amigo. eu era o amoroso

diamante e a chuva. um caminho expresso. eu andava descalço como se fosse uma

grande criança. eu olhava em teus olhos e podia ver o açúcar de tua alma. eu

podia te cheirar e ir ver o rio. eu refletia o sol e rodava pelas esquinas. era

como se estivesse olhando um oceano. minhas memórias favoritas. as ondas indo e

vindo. a tarde atravessando todos os corpos. um barulho. algo como um mergulho

dentro de um som. ficar coberto por um som. ou como se fosse um imã. algo

divertido. o tempo é uma grande ferramenta. não preciso ter olhos. eu tenho pele.

ando descalço e mergulho. esse jardim, esse pássaro. um vento que sopra mas não

se sabe onde. a vértebra. o desvio. uma queda. a água escorrendo nos troncos das

árvores. estamos nos dias das sábias lavagens. uma época, uma terra. eu caminho

sem medo e estendo os meus braços para as pessoas estranhas. todos olham meus

pés. eu caminho descalço. os sapatos nos bolsos e os diamantes. eu escolho a

vertigem. é como se eu corresse em direção a uma parede. e ficasse tremendo. isso

passa por minha pele. fica por debaixo. uma vertigem. o tempo de vender o que

está por detrás da tarde. as garotas que vão embora. depois de olhar o temporal.

o álcool incerto dessa noite. um diamante e um oceano. navalha. sem os dentes.

sussurrando. a história das pernas. e do caminho. é como se eu fosse uma grande

criança. nesse rio. boiando. ou corrente abaixo. parece que estou numa grande

teia. numa veia. dentro dos organismos. da vida. como numa respiração. me

sinto ligado às coisas. em seu calor. como se andasse com as mãos dadas.

e descalço. como uma chuva dentro de um quarto-escuro. como se eu tivesse as

portas para ir paraqualquerlugar. como uma corrente. descendo. por vertigem.

cobrindo as minhas costas e o meu rosto. lavando o meu caminho. eu dentro do

mundo. do mundo. guardado. em movimento. uma flecha do tempo. abrindo os espaços.

inventando o eterno. o fugaz refazendo o sol a cada manhã. um rio de diamantes

trasbordando. algo sônico. tenho as imagens na camisa. eu vejo os bichos que se

alimentam da distância. eu ando com eles. descalço. existo no dentro. no junto. e

fico me repetindo e dando voltas. pra dizer o que a respiração sugere. esse

vórtice. esse grito. toda palavra que está vibrando. sem-sentido. uma torrente

despejando seus braços sobre mim. eu tenho um jardim de cores. e cheiro tudo

perto do chão. e meu corpo é coberto pela água mansa da desordem. estou junto.

alguém fica esta noite com meu corpo. e eu ando descalço. e durmo no chão. a

grande chuva cai pelos meus antebraços. permaneço. uma fera se torcendo. seu

dorso de bicho dançando. permaneço. como um volt. rindo. animal de silêncio e

corpo. linguagem de água. o barulho primeiro. pintando as paredes de minha mente.

a canção aberta. seu ruído fundamental. um banho. essa voz sem grão. esquisita

como a de nossa infância. e como um sopro em olhos fechados. mas sem cinema. ou

linguagem. só o ruído fundamental. as pernas caminhando. e sumindo no sono. como

se o dia acabasse. e a gente fosse embora.
trago os abismos
no peito e você
se encosta em mim

queimamos nosso tempo
com os sorrisos
e nos sujamos

nas nuvens

somos raros
como um afeto
sem memória

e dançamos

l e n t a m e n t e.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

tenho dois pink floyds. eu sinto o vento gelado me cortando a espinha. é por

isso que estou aqui deitado perto de você. eu me esquento. eu cheiro o teu dorso.

um longo território de silêncio. eu tenho bastante tempo. tenho dois pink floyds.

eu comecei e não estou lento. estou só um pouco dormente. mas você me entende. é

por isso que eu estou deitado ao teu lado. você me entende? todocorpoquercontato.

eu quero tudoquesejaútero. é por isso que estou deitado ao teu lado. o calor

intra-uterino. como um grito lento. a mãe caminha suavemente e a minha pele vai

criando memória. os silêncios vão fazendo sentido. eu balanço suavemente, por

dentro. adormecido de vida. não-estou-fora. um dentro como um sonho. sem

linguagem. imagino coisa líquida como um sonho. uma coisa que flui. líquida como

um pensamento. não. menos denso. como um sonho mesmo. algo doce como a palavra

afeto e como um abraço. é justamente isso que é confortador. um abraço. essa

presença. algo doce. como a palavra afeto e teu abraço. essa intimidade. é algo

doce. é por isso que estou deitado ao teu lado. meu corpo e teu corpo. assim. um

abraço. algo doce. entre nós. somos assim: jovens e loucos como uns diamantes que

brilham. nós podemos ver os buracos negros no céu. nós somos jovens e loucos.

você sabe que é proibido crescer e desaprender o riso. é possível falar com as

estrelas quando se está assim: bilhando. como jovens. como loucos. como num

abraço. pois não é no abraço que se inventam estrelas? isto é um segredo. eu choro

para a lua. e eu sou jovem. como o esboço da noite. eu exponho meu rosto. jovem

como um diamante. um louco. eu me acompanho e permaneço por aí. eu me abrigo no

céu e em outras jovens. as. mesmo em silêncio e apartado. ou quando deito ao teu

lado. como num abraço. é por isso que eu deito ao teu lado, entende? é como no

sorriso e na palavra. como uma coisa rara. isso que não se diz nem se entende mas

que parece escrito por debaixo da pele. como a memória que se criou. o caminho

que se fez, por dentro. líquido. e por dentro. é uma coisa rara. sem linguagem.

como nosso abraço. o sorrisso é um abraço de longe. e de perto. e por dentro. ele

é algo doce. como a palavra afeto. como a repetição é doce quando sorrimos. ou

quando giramos. eu tenho bastante tempo. eu posso girar a noite toda. eu tenho

meus olhos e vejo a noite negra. eu uso os ternos feitos por minha irmã. algo

doce e negro como um corvo. ou como uma face. eu guardo meus olhos nos bolsos. e

te desejo boanoite. é por isso que eu saio do teu lado. mas estou contigo. mesmo

indo embora com a mente longe por duas semanas. eu posso te encontrar. e tenho

esquinas parecidas. como se nós fôssemos as pedras que continuam rolando. ou como

se nossos olhos se conhessecem como o instinto da pele, a memória. o útero, o

abraço. nos entendemos, não? como um sorriso e como a pele. como algo doce. e

elétrico. como uma colina com sombras. eu não preciso tomar banho sem as estrelas

nem guardar meus dentes pra noite. eu vejo o céu azul e as plantas criam a minha

mente. eu dobro as coisas e acredito que vejo. e cruzo o céu. cruzo o céu da boca.

é por isso que estou ao teu lado. elétrico. é porque cruzo o céu da tua boca. e

estou deitado ao teu lado. é por esse silêncio. por algo doce. e pelo útero. é

por isso que estou deitado ao teu lado. por teu corpo. é por você. pelo rio e a

memória que foi criada. como um útero. essa sombra. líquida e dormente. como o

tempo que não escorre. ou escorre e flui. é líquido. como uma espinha. como o

dorso. é por isso que estou deitado ao teu lado. é porque sou rio. doce e

elétrico. como um útero. é por você. sou um som. como esse rio que está dentro. o

sangue e o sonho. estão dentro e são líquidos. como o fogo pode ser líquido. é

como um sorrisso. é como sorrir. é por isso que estou deitado ao teu lado e não

choro. tenho sorrisos. é como se eu tivesse um útero. é como se fosse você. é por

isso que você está deitada ao meu lado. eu sou um útero. eu sou um rio. o tempo.

eu escorro, líquido. como um sonho. e também estou dentro. é por isso que você

está deitada ao meu lado. é como dormir. ou um sonho. algo doce. e líquido. um

útero. algo elétrico. o cio. dentro. é por isso que estamos deitados.

assimjuntos. só temos dois lados. elétricos. e doces. e sorrimos e nos abraçamos.

temos o dentro. o sangue. o rio. e o útero. tenho tempo. temos tempo. somos

líquidos. como o rio e o sangue. e elétricos. temos dois pink floyds.