sexta-feira, 7 de junho de 2013

quase miro no breu

ah, como tenho saudade
das lambidas da aurora.
os átomos das lembranças
provocam choques agora.

à sombra, num tapete no quintal,
eu a chupava e chupava manga,
ela chupava e lambia meu pau.

língua de sabedoria selvagem
e sensível, fazia malabares
com o imprevisível. dos pés
à nuca, nunca esqueceu:
mensagens elétricas,
massagens secretas,
histórias eróticas.

sempre perdíamos a hora
do trabalho, enquanto ela
cavalgava em meu caralho.

gostávamos da luz da lua.
eu pelado, ela nua,
dois espíritos animais
inundados por ancestrais.

gastávamos as fibras do dia.
eu urrava, ela ria,
dois incêndios cósmicos
narrados por mímicos.

ah, como tenho saudade
das lambidas da aurora.
entre a multidão e a maldade
o cheiro de manga me devora.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

poema sem título a partir de conversa com Lizandra Santos

o amor é grão, poeira,
cisco nos olhos, madeira
pegando fogo onde crianças
acendem as bombas de são joão.

vou fazer um barulho fantasma,
assustar o amor pelos ares
e torcer por outras eras
em que o amor viva
mais que aos pares.

terça-feira, 4 de junho de 2013

furacões passeando pelo ferro-velho,
rinocerontes bêbados de vinho tinto,
diamantes largados nas calçadas
por dias e dias e dias até serem
varridos pela chuva para o esgoto.

os filhos do ciclope bebendo chope
na esquina do jardim das delícias.

pianos, sanfonas, águias velozes
rompendo as couraças e as barrigas
das cidades fantasmas do amor.

uma guitarra na fogueira, moedas
voando, mancos pedindo cigarro
para todos os faróis dos carros.

sangue das vacas nas ruas de lama,
pombos pensativos, vitrolas vazias
do velho e gordo sol, sombras das
potências escondidas no grão, no
grou, no guru com gengivas azuis.
a eternidade é um longo cochilo,
papo de zappa com isaías,
corações dos tigres
devorados pelas
papoulas.

a eternidade é um longo cochilo,
disfarce do lobo trapaceiro,
nenhum nervosismo
dos amantes
no frio.

a eternidade é um longo cochilo,
acaso feliz & ajuda mútua,
moitas para as orgias
dos primatas
surpresos.

a eternidade é um longo cochilo,
húmus das árvores lunares,
massagem e respiração
aliviada no banho
com as águas
quentes.

mel & gafanhotos na noite deserta

e assim foi, disse.

eu vi, ouvi, revirei
os ossos entre as
cinzas da fogueira.

nove dias com a febre,
nove noites com a lebre.

a velha e o corvo, água
correndo, curva do rio.

eu vi, ouvi, revivi o fogo
enterrado no ventre do
animal de sangue quente.

mãe de mistérios, terra
da colheita do amor, nus
os olhos do vento, asas.

apesar de casado com
a filha caçula do sol,
pesava na barriga
uma lua pequenina.

a árvore não morre,
o urro do coiote é azul.

e assim foi, disse.
e voltou a nascer.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

equívocos maravilhosos

a tarde de marduk
com o leopardo.

a passagem de volta
da mão de kishar.

a audácia de javalis
com a cachaça.

a leitura do tao
da mímica.

ridendo castigat mores

ah, coração, que engano.
não me diga que nada
arrebenta a hipocrisia
e o aço.

pois minha irmãzinha sorri,
sem briga, sem embaraço.
apronta as tintas e tonta
diz: palhaço.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

não, não sou simpático
a nenhuma supremacia.

gosto do território tático
da pele dela super macia.
sensações, sensações:
que os sons nunca cessem.

sanda, sendas, sondas.

ondas que o duende compreende
calmo na cama de lama de sua alma.
a lua anda
comigo.

crescente,
cheia, nova,
minguante.

a lua, um abrigo.
irrigo devaneios,
no bingo não brigo.

numa de suas crateras,
esqueço meu umbigo.
usamos telepatia, mas
vez ou outra ainda ligo.

no dia que perguntei: qual
o número de teu céu, lua?
ela disse, e ainda falou: I go, contigo.
você cometeu harakiri e o show
ainda não chegou na metade.
teus amigos fodem cabras,
fabricam uísque, usam máscaras
de jorge ben 10. talvez seja
tempo de passear num carrossel,
visitar a república tcheca, deitar
no gramado nos ombros de tua irmã.

explosão nas trevas

clarão de afetos sábios,
grandes e pequenos lábios:
com mamífera no chão de casa.

brasa donde bebo, longo amor
que sinto. não nos falta pernas,
almas, tonéis de vinho tinto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

aurora & loucura,
canções de cura
a toda hora.

o passado é presente.
o futuro, um gigante:

dorme demente,
um anão entre
carvão e diamante.
passos lentos, botas velhas.
deambular, pouco labor.
sabor do vento, pétalas.
pupilas & pontes, amor.

atravessarei como ubu rei:

a travessa maravilha tristeza,
a rua da música aquática,
a avenida sol da escuridão,
a praça claridade enigmática.

terça-feira, 21 de maio de 2013

os poemas de daniil kharms
quebraram a vidraça.

o poeta, com razão louca
e coração banguelo, soprou
orações para as hienas.

stalin & seu bigode
jogaram o poeta na prisão.

o bigode faminto de stalin,
ensopado de sangue, devorou
o poeta até a carcaça,

mas nunca encontrou
os sonhos e devaneios
que hoje dão passeios
pelos ares de moscou

e que as moscas,
como se bêbadas
de cachaça, fazendo
arruaça e com piruetas,
espalharam pelos planetas.

ray charles chaplin

cego e mudo,
louco. pouco
a pouco, tudo
inundo, como
vagabundo
amoroso,
fervoroso
com música,
gesto, gozo.
nove profetas
abrigados
nas montanhas

mamando
nas tetas
de cabras
cósmicas

munindo
as teias
de vermelhas
aranhas

nove profetas
acompanhados
das onças

deambulando,
dançando
de mudança

pois sempre
jogam pedras
as crianças.

domingo, 19 de maio de 2013

o instante existe.
por que eu canto?
sou alegre, sou triste:
um pateta.

tenho febre, fobias,
não tenho neta.

alice me disse
para esquecer das palavras.

falou também da folia
e logo ficou muda, ficou
louca e beijou minha boca.

estive quieto, estive
agitado, alma vermelha
feito brasa.

alice com os olhos
me disse:

o silêncio é um colchão
no telhado de casa.
o instante gira
qual dervixe extasiado.
não conhece futuro, passado.
apenas inspira, respira.

não rumina o antes,
não mastiga o depois.
não dá nome aos bois,
nem relembra cervantes.

o instante grita, se agita
no peito, ilumina qualquer gruta.

o instante é uma fruta
que comemos com respeito,
sem medo.

o instante é um presente,
uma dádiva, um vagalume
que se enche de luz e escurece.

vê se não esquece:
o instante é mutante.

amar(temática)

preciso de duas
mulheres para uma
homenagem a três.
gerusa carregou-me
para a nau dos loucos.

aos poucos, com que encanto,
jogou longe saia, sapatos, juízos.

debaixo da blusa, tatuada
entre os seios, ela tinha
uma medusa.

por um triz, quase
virei pedra. não
cheguei a tal,
virei pau.

o lavador de pratos

nunca o vi trabalhar
sem assobios.

ria praticamente
de qualquer coisa,
principalmente
de pratos que caíam.

tinha medo de trovão,
não temia nenhum patrão.

sempre sincero
como sabão e água.

estava juntando
duzentos reais
para uma passagem
para o maranhão.

ontem me disse,
ouvi a história mudo:

gastou tudo com chocolates,
queijos e vinhos. foram nove
horas com a loira vizinha
que nada sabia de cozinha.
e de repente
eu era uma formiga
na barriga de uma deusa.

noutro instante
era um elefante nas nuvens.

só então
me transformei num gnomo,
atômico e belo, seguindo
para o cume de um cogumelo.

estranhas entranhas do acaso

uma pedra, uma hidra
um casulo, um casaco.

a flor, o cavalo, asas.
serpentes, pontes, pinturas.

um centauro, um sentinela
uma floresta, uma sombra.

um samba, um jambo
um mambo, uma manga.

monges, ninjas, poetas,
profetas, ciclistas, iogues.

bilhetes da deusa e do mendigo
no umbigo do ocaso.

hastes das ervas, desenhos
nas trevas das cavernas.

mandíbulas das nebulosas,
nuvens, insetos, patos, potes
de ouro perdidos nas íris
das multidões solitárias
e silenciosas.

amor & água

a dor ensina
um macaco cabeçudo.

o punho cerrado do cosmo
guarda um bom cascudo.

fiquei mudo, tive medo
de partir cedo
pela estrada de estrelas.

hoje rio, rio, rio.

o coração bate, late.
é um iate navegando
no sangue e no fogo.

riso franco, pupila amena,
aquele esquema:

não há problema
gigante no universo
se há peito aberto,
sem mágoa:

tudo flui,
pra lá e pra cá,
amor & água.

prosa do umbigo (16h20)

essa febre, essa febre.
garganta inflamada.
sou teimoso, nervoso.

minha mãe com enxaqueca,
segui com ela, febril, para
a emergência. depois foi
minha vez. a médica
nem me olhou no olhos.
um xamã chora pela falta
de sensibilidade e afeto.

em casa, à noite, suor frio,
peso, dor, sufoco, agonia no peito.
falo sinceramente com krsna que dança,
jesus sorridente, buda da compaixão.
sempre tive medo de meu coração.

acordo bem, até vomitar, ficar pálido,
lavado de uma cachoeira terrível e triste
de meu próprio corpo dolorido, aviso.

com braços dormentes, eletrocardiograma
esquisito, enzima cardíaca cem vezes além
do que convém, choro, medo, oração feita
na hora pela melhora do corpo e d'alma:

"cuida de mim, mamãe terra.
cuida de mim, papai sol.
beijem meu rosto calmamente.
perfuma minha mente, girassol."

eu de pé, com fé, fazendo piada
sobre alienígenas e mistérios da ciência,
estava ali, infartado. meu espanto,
espanto dos médicos com seus olhos
assustados para o sujeito risonho
dizendo que jogaria futebol
e daria cambalhota.

cateterismo feito, chegou a vez
da mente descansar dos saltos
do peito, a mente feito vespa
assustada, mãos agarradas
nas mãos de minha mãe amada.

apredizado da paciência, foi
preciso aguardar o ecocardiograma.
um dia, dois, três, o medo, quatro, cinco.
o silêncio, o conforto materno, o silêncio,
o mantra repetido baixinho, um ninho
de passarinho azul batendo, batendo, batendo.

gel no peito, sala fria, pessoas quentes
e bondosas. desta vez, médicos e enfermeiras
parentes de pajés e xamãs: me olhavam
nos olhos, sabiam meu nome, construiam
pontes de energia de compaixão, torcida,
fé, almas caridosas trabalhando muito além
dos níqueis do cassino. eu, coração ameno
desde menino, novamente menino, misturando
medo e esperança, querendo escrever e cantar,
dançar na chuva feito criança novamente nascida.

vi meu coração em preto & branco,
como um bebê no ventre da mãe.
forte, movimentado como um oceano
cheio de doce ímpeto, perto do esperto
cenário da energia bondosa, vida nova.

o tempo inteiro, a cabeça atenta, ativa.
não foi gordura, sendentarismo, ou qualquer
coisa parecida. a cannabis sativa me levou
pra muitas viagens, mas desta vez foi uma
passagem para uma morte ritual: infarto.
este foi meu novo parto, novo nascimento.
pensamento voando no firmamente, singrando
por nove céus, descendo fundo nas raízes das árvores.

infarto, parto, passagem, ritual.
uma viagem em que fui e voltei.
para andar no caminho do bem,
para ficar zen, para sorrir e chorar
para corar e pintar o mundo com
piadas e poemas, sem receio de problemas.

tudo é grão, tudo é grão. somos um.
eu continuo por aqui, comendo cajá,
acerola, carambola, jambo, caqui.

no sangue da terra viva, me movo.
meu sangue se mistura ao cosmos.

nasci de novo, agora.

definitivamente um macaco
doido e feliz movido
por amor & água.

gratidão, gratidão.
pois o primeiro
mágico é o amor
atraindo os seres
uns na direção
dos outros:

virtude oculta
atravessando
oceanos.
quando os meus olhos fecho
deixo acesa a águia bebendo
água na curva ensolarada
da minha alma: não pergunto
pela origem, pela vertigem,
nem me importa o desfecho.

travessia, mudança na dentição,
itinerário despreocupado com
o horário em que a águia
cospe fogo no coração.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

magnetismo animal

palavras, palavras, palavras.
que eu fuja deste mar e o ar
se tornará mais leve, breve
instante antes da subida.

giramos pela noite com o fogo
roendo nossos calcanhares.

há uma ponte cuja aparição depende
do silêncio e do cio e se estende numa
terra sem perguntas, sem respostas,
amparada nas costas de uma imensa
tartaruga erótica.

confusão sexual & estômago, cabelos
bagunçados pelo vento e pelo tempo.
estar perto, dentro da polpa da fruta,
boca aberta como gruta de aventuras.

afasia, respiração ofegante, nervosa.
a dança que a loba inventa e invade
as florestas mais verdes, conexões
e notícias do pensamento alagado
do sangue doce da tempestade.

olhar sincero, vísceras e vícios
na ponta da língua, deserto
donde surgem as sementes
que germinam dentro
de nossos umbigos.
vagarosamente:

vaga
rosa
mente.

equilíbrio

empilhando pedras
no coração, soprando
plantas na noite nua,
lembrando da lua
ao alcance da mão.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

um porto, um mapa.

sem capa de chuva,
sem cama, no chão.

num colchão, telhado,
de lado, alados, atados.

respirando, indo, tão.
gratuidade infinita da comunhão,
bom senso do monge nu, senhor
cego que pratica tai chi, gnu ágil
trazendo de longe chá e incenso
enquanto bebe suco de limão.
tímido, beijei seu nariz. com
o sorriso dela não fico sozinho,
ouço o que a noite de chuva diz
e tomo uma garrafa de vinho.
e aprender uns truques
de facas, sair de rolê
com as focas, apaziguar
os garotos e as betas,
ouvir o que dizem
minhas botas.

terça-feira, 16 de abril de 2013

sê louca por inteiro, esqueça o dinheiro,
toque fogo nos bilhetes das loterias.
arrume um mergulho, sinta orgulho
de nadar e do nada, dê gargalhada.
colocar os pés no mundo
e a fé no coração de carne
do sonho de um segundo.
carregar latões de óleo,
lavar pratos, operar
máquina de fotocópias.

que a alma encontre
em todos os lugares
o que a ultrapassa.

que a pressa não
seja mais presente
que o sorriso demente.
evidente felicidade
da respiração, movimento
dos músculos, devaneios.

não há deserdados
do supremo amor, do sopro
do vento que varre a medula.

música da luz lilás,
água e dia áereo do sangue.
ela diz: deixa estar,
num jantar eu esmago
grandes ameixas.

eu digo: vagalumes ficam
girando em minha cabeça.

talvez seja fome, outro nome
para coração na neblina.

não sei muito bem de nada,
mas quero rever esta menina.
será que ela vem, dopamina?
ameixas secas, água
gelada. nenhuma briga
com a urtiga. algumas
éguas dormem nas gavetas
das meias coloridas.
abandonar a tosse
e as repetições acrobáticas
de ideias estacionadas.

um caminhão de mudanças
leva para o cemitério as roupas
dos ossos, caixas abarrotadas
com as cinzas dos livros
escritos com sangue.

garras dos carcarás carregando
a escuridão pelo ar, energia
da planta com raízes nos
cérebros dos macacos.
ainda dou ouvidos
a esta voz, esta noz
chamada ego.

não compreendo,
mas ouço noite & dia
estes pensamentos dançarinos
feito abelhas perturbadas pelo fogo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

biografia de minha neta imaginária

aprendeu logo cedo
a entender o que o açude diz.
o nariz fareja a mais longínqua cereja.
desde nascença sabe a diferença entre o silêncio
e o silêncio. tem muitas cicatrizes, mas nenhum traço
de rancor, raiva, ânsia. descansa a cabeça sobre um
travesseiro de hortênsias. também é míope, não mente,
mastiga lentamente frutas e folhas. traduz os trovões
para um sabiá, caminha ao léu, segue para o céu a pé,
com fé e chá.

sábado, 30 de março de 2013

querida mamífera,
tudo continua como antes:
me perco em teu umbigo
e não procuro diamantes.
cuca fresca, sem grilo.
o mundo amanhece
no cochilo tranquilo
do esquilo.
sossegado
no útero
do azul-escuro,
severino escreve.
lua cheia
entre prédios
vazios.
surpresa de uva, vulva
da musa inebriada,
uma madrugada entre
cio e silêncio, cacos
de afeto e pensamento.

ele disse: ontem eu
nem te abraçava e
hoje quero fodê-la
novamente, entre
as estrelas.
gratidão, um grilo
trouxe uma canção
sobre a força do sol
e da lua. olhando para
o amor no pulmão da
tangerina, um golfinho
cuspiu ditirambos e safiras.

assim contaram duas hienas
para as tartarugas e as antenas.
fico na janela
olhando o vento
e logo nos olhos:

milágrimas, milagres.

bagres milenares
contando anedotas
em meus ouvidos.

sexta-feira, 22 de março de 2013

quadrilha, outra vez

joe amava tirésias que amava ramona
que amava marion que amava juquinha que amava lulu
que não amava ninguém.

joe foi para as ilhas salomão, tirésias para o cassino,
ramona nasceu de novo, marion virou paraquedista,
juquinha ficou em silêncio e lulu casou com Z. Pedro Franco
que não tinha entrado na histeria.
mudar os planos & os pulmões,
a acerola nos lábios e os sábios
conselhos do rio, o pio da noite
assobiando entre os seios das
açucenas, as pequenas auroras
nas horas mais improváveis,
as possíveis dobras do tempo,
as canções de ninar o vento,
visões do vazio & sublime
acordeão aceso nas asas
do fogo, sombras dos raios,
corações & sementes de tocaia.

terça-feira, 19 de março de 2013

estamos nus & perdemos dentes,
alguns pássaros pousam nos ombros.
muitas águas correm no peito, tempestade
de coices dos cavalos, imaginação das harpias.

a grama permanece verde, espírito
da mulher que ri com o canto da formiga.
atenção & tesão & o macaco que mergulha
no tanque de suco de laranja aos pés da montanha.

idiotas batendo boca contra os lírios, levitação
do rinoceronte que engole a cabana, cobertura
de chocolate no olho da feiticeira, cabeleira
do mágico subindo entre árvores até o céu.
anicca & ananda

nada me falta pois nada quero,
as mãos em concha para beber.
ossos jogados das mesas, tigelas
e colheradas de bem-aventurança.

cloro da piscina e gene da máquina
incompreendidos entre os borrões
da aurora, melodia da água correndo
feito égua selvagem no cio, no bordel
(do tempo).

boas notícias e ambulâncias a quarenta
milhas do sol, grão do ego empoeirando
a superfície do espelho da mente vazia,
peles e estilhaços do êxtase das papoulas.
improviso sujeito a escoriações

paciência & percepção tática,
mandíbula treinada no ártico,
alma curiosa do pássaro
atento ao ataque cardíaco,
bebendo um gole de absinto
com um personagem da ilíada.

delírio aquecido & acentuado
pelo jejum, confiança na onça.
mágico com saudade da aurora
e das araras, pedaços da noite
negra grudados nas gengivas,
danças de fogo & sombra.
a senda é clara: haverá sorriso
num domingo com chuva se
a alma perceber a rara conexão
ancestral entre a respiração do afeto,
o peito nu e aberto e os pés no teto
do carinho transcendental.

segunda-feira, 11 de março de 2013

ataraxia

hibernar na barriga da égua,
sem medo. jonas trouxe baralho
e passaremos o inverno jogando pôquer,
respirando lentamente, bebendo muita água.

não há mistério no ventre do caos, no esqueleto
das plantas, no planeta subterrâneo das formigas.

os dentes desconhecem as fronteiras
entre o sonho e a carne. há vinho passeando
na medula dos jardins, há cupins desenhando as bocas
das vacas enormes, há uniformes pendurados no vendaval.

um banquete de ossos, um milagre no fundo do poço,
alguns bagres voando alto colina acima, a cisma da noz
contra o silêncio, o cio dos neurônios e das pálpebras.

lucidez despreocupada do afeto, suor, deriva tranquila
debaixo do sol. percepções do estômago e suas vozes,
olhares quietos, felicidade confiante na carcaça do tempo.

porque o minuto é esquisitamente suave
samurais e alquimistas jogam futebol

ninjas andam nus e mancos
nos flancos dos cabelos do sol

tamanduás e formigas fazem carícias
nas barrigas das dançarinas egipcías

casas incendiadas e cores perdidas
enchem os bolsos das cigarras

memórias levantam voo
sem ferir os joelhos, por exemplo.
éris me trouxe aqui
para comer cajá e caqui
despreocupado, aquário
da cabeça sem peixes
azuis e vermelhos, espelhos
cobertos de musgos, sem mágoas.

éris me trouxe aqui
para construir canoas, observar
orquídeas e fungos, alma
limpa pela chuva, sem receio
da curva, morrer à míngua.

éris me trouxe aqui
para rir com ísis & osíris,
catar estrelas nos olhos de hórus,
língua séculos lambendo sapos e clitóris.
respirações tranquilas
respirações ofegantes
escrevo poemas
como quem prefere
carvões a diamantes.

que o olho desfrute do céu
como abutre e o ouvido
esteja atento ao raciocínio
lento da casca na conversa
com o universo e o esqueleto
do ego seja desmembrado, disperso
sobre as brasas e as asas de lama
misturem a alma do azul com o chão
e o coração se esfregue na árvore
que educa e a nuca esqueça o colchão.

coração fechado
pra balanço
na rede.

mente aberta
como planta
com sede.
a lua é o primeiro morto,
pólen da viagem, repouso,
flor no estômago da noite.
 
a lua é uma lanterna
dos aliens, jardim sonoro,
seiva das marés, nossa
saliva, suor & sangue. 
 
abolição da forma,
desaparecimento,
crânios arrebentados
pelos batuques.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

casaco verde do acaso,
alguns dentes quebrados
nos bolsos, os ossos de aves
e pequenas naves chinesas.

desejo e extinção do desejo,
trevas, tempestades, ventania,
rebanhos de grãos de areia
contra as retinas fatigadas.

pernas queimadas, barriga
cheia de sonhos, senhas
escritas com saliva, selva
da mente picada por vespa.
águas turvas,
curvas de mágoas,
mandrágoras cuspindo
nos olhos das capivaras.

demência,
asa lilás.

carvão
debaixo da língua:
roubamos o fogo
dos leões & chacais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ela apareceu como um raio,
rio e refez a respiração.

tinha pupilas de tamanhos
desiguais.

dizia canções, calmamente,
como quem descobre nos bolsos
de um vestido florido
a aurora.
preocupações estúpidas,
estranhas ocupações.
vértebras esmagadas
pelo sopro solar.

um homem de vidro
carrega nove pássaros
presos em suas claras
clavículas. seus cabelos
alertam sobre explosões
e chuvas de tijolos.

há um disco voador no pátio
da escola abandonada.
a língua lilás do elefante,
o tumulto de mosquitos
roubando a oferenda e
o incenso, vespas voando
alto no coração do dia.


com os dentes rasgar
a aurora, o dia que nasce
nas costas do tigre. uma
tartaruga cega ditando
poemas de amor e gentileza
para os rudes mecânicos
do absoluto, via clandestina
da visão da choupana sensível
escondida no breu do afeto.
há um lírio
no olho
da rã.

pode olhar
amanhã.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

camundongos, caramujos,
marujos de porre,
dias longos.

pupilas insensatas
cobertas pelas pálpebras
do amanhã.
 

a cãibra, o rum,
perder o rumo,
o câmbio de sonhos
e socos.
 

piadas baratas, fogueiras,
as bundas das freiras
desenhadas nas bandeiras
dos navios piratas
multiplicação infinita
do sossego.

uma vaca estelar
lambe meu esqueleto.

entre os dentes
a pérola do imprevisível.

lentidão do sonho

do lêmure sobre o fêmur.

gastronomia combinada

por telepatia.
 

loteria celeste
da viagem no tempo.

gigante utópico

desenhando esconderijos.
respiração
do cheiro
da tangerina.

um gomo
na palma
da mão
me lembra
um pulmão.

domingo, 13 de janeiro de 2013

vasto ócio
do ópio, ódio
apaziguado
pelo haxixe.

fico séculos
me divertindo
vendo besouros
e nunca fui
num boliche.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

bondade simples
da criança que cobre
com sombras a atividade
sorridente do caos.

assobios e gesto lento
do músico búlgaro
consertando a bicicleta
verde no cais.

carcará e formigas
na fila da sopa,
enquanto o navio
descarrega pólvora
nos ouvidos de caim.

debaixo das barbas de bachelard

o fogo é um animal
de sangue frio.

o rio é uma fruta
coberta de lodo.

o iodo é uma vegetal
na barriga da gruta.

***

disse-me uma cotovia:
voamos em sonho
quando somos felizes.

troca de casais

leão na cama
da camaleoa
e a leoa com
o camaleão.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

dobras de huidobro

amor e paciência,
o horizonte é um rinoceronte.
há migalhas de pão no bolso
do casaco do louco e um pouco
de sabão pra lavar a barba.

um sol nasce na pupila esquerda
e eu seguro a lua entre os dentes.

a morte que morde as entranhas
dorme tranquila na calçada.
apenas nove dúvidas espantosas
debaixo dos cabelos longos
da mulher que amo na grande viagem.

paraquedistas incendiados
ordenham as estrelas da boca do céu.

sementes abertas pelo olhar
caem no útero. a gigante
sorri ternamente e então começa
o combate singular do coração
comendo rosas e brócolis.

a alma é uma tesoura enferrujada
que repousa na voz de hiena
do inverno, sombra que uiva.
perdi
as chaves
de casa
e as asas
no último banho
de chuva
ácida.

profecia e uísque,
cabras comendo
a grama
da minha mente.

você
esquecerá meu nome,
ela disse. e assim foi.

mas ela não foi
embora da minha
cabeça.

amanhã lá na pracinha

no começo da busca
audição atenta
aos assobios
das árvores
mais curiosas.

o céu é lâmina.

ainda não conheço
a mãe de meus filhos.





caminhão carregado de mordida
e dinamites, mitos dinâmicos,
feridas abertas nas testas
dos titãs.

comunhão, corre gado
no mar doido e nas dunas,
farpas queridas das trevas
do tutano.

ouço histórias de amor,
conto histórias alienígenas.

as vibrações doidas e azuis
que cobrem de plantas sorridentes
a atividade do caos.

desastrosa esperança
que anda trôpega
no coração infernal
da luz.

trincheiras nas estradas
para casa. braços guardados
no casaco da nona guerra
pela noz e pelo diamante.

sangue encharcando
as cordas vocais da fumaça.

mergulho na pupila calma
de um bilhão de lugares
de chuva psíquica e doce
deslocamento no dorso
das fontes de energias
deliciosas.
os vizinhos ouvem
sun ra enquanto
fazem orações
para os ovnis.

não há musgo
na boca da pedra.

hálito sideral
que massageia
as lembranças
de pangéia.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

a mordida
amor
ida
sem volta.

atalho de sumé

como quem escreve na pele
desenha a caverna
com sangue e a dançar.

como um velho profeta
descendo a montanha
nas costas do ar.

como um peixe assustado
com a imensidão
dos clarões do luar.

como um viajante
sem sono descasca
as trevas, a terra, o mar.

como um cometa girando
e engolindo o cosmos
para vomitar.
a propósito das leituras críticas do fogo

improviso como circo ou palhaço
caindo na gargalhada ancestral do diálogo.
os outros, uns poucos, correndo e eu lendo
e o fogo lendo e criticando, o fogo purificando a tarde
de susto e correria, a alegria e a cegueira, chacrinha
e voz baixa da senhorinha, amolar tesoura ou ficar rouco
é pouco diante do mito ou muito louco quando as vozes sussurram o que salta no ouvido, um remédio impreciso,
a loucura, cura da alma doente do consumo, o sumo,
o suco, o poema de fogo.
ao contrário do gabriel garcía márquez

ainda
ainda não
ainda não comi
ainda não comi uma
ainda não comi uma puta
ainda não comi uma puta triste.
a lesma e o raio laser
dos olhos perdidos, o coração
e a choupana da sabedoria, gramática
do macaco distraído com umbigos, preguiçoso
bater do prego numa barra de sabão.

fábula da nebulosa, chuva irrigando
as ferrugens dos arquivos, laranjas, discos.
eu e o planeta
somos uma mente
borbulhando na água
acumulada na cavidade
que os pés dos cavalos
deixam na argila.

eu e o planeta
somos uma manticora
deitada sobre ervas

mastigando os cabelos
dos ventos que entregam
pizzas para formigas famintas.

eu e o planeta
somos plantas, lunetas,
antas e caravanas de corvos,
curvas de montanhas e carvões
colhidos nos estômagos das bactérias.

eu e o planeta
somos a soma dos sopros:
afago, atrito do infinito
com as moscas, ignição.

domingo, 25 de novembro de 2012

sabedoria da rã
taoísta e brotos
de capim entre
as costelas e o
sono sossegado
do pêssego e a
nuca da jabuticaba
onde a abelha
lambe o açúcar
sem se machucar.
homem velho
olhando a geladeira
e a vida do abutre
que circula ao redor
das árvores míticas
que perfuram a terra
com as raízes e o céu
com seus galhos e olhos

homem velho

arrancando sorrisos
da memória banguela
e costurando sobre
as costas do inverno
um terno delicado
com os rastros do sol
ainda grudados na pele

homem velho
cavando as montanhas
enquanto o oceano
cospe suaves sopros
em seu coração de ouro
banhado pelo cheiro
de alecrim selvagem
e afeto lunar.

princípios de manutenção dos estranhamentos

coice de estrela
na caixa dos peitos

carcaça de sonho
na terra úmida

beijo de aurora
na triste pupila


panfleto de fogo
na esquina da torre
de observação

coração de tigre
na vibração dos dentes

divindade de planta
na cavidade dos tímpanos

tripulação de peixes
na loucura dos olhos

boca de leão
na cabeça lúcida
do bancário.

domingo, 11 de novembro de 2012

fique quieto, disse
o orangotango miniatura
que apareceu
no meu ombro esquerdo
há nove dias

corte os cabelos
da alma, ame
a respiração
perto das laranjas

e das uvas

ouça
muitas águas.
o azul permanece azul
apesar das moscas e do tédio
através do espaço

adiante
um velho escocês
com olhos de jaguar
compõe canções lentas
para a próxima migração
das baleias azuis


o azul permanece azul
ao redor da pupila onírica
da ninfeta anarquista

zumbido
das guerras interiores:
tempestade que amanhece
no antebraço, coragem
do grão no ventre da terra
fértil e doce.

o azul permanece azul
água profunda do útero
aquecida e circulando
na medula e nas asas
da libélula.
oração que aprendi com uma tartaruga
 

que o dia seja
um diamante,
um manto coberto
de amor e amoras

que a noite seja
uma cereja,
uma cerveja gerada
pelo cosmos e gelada.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

nasceu e andou
e parou pra coçar
a barriga

observou
as pessoas
e os sapos

sorriu,
agradecido,

por existir
o infinito
e as águas

dormiu
sobre o dorso
do leopardo

sonhou
o umbigo
do elefante

sumiu
na soma
das sombras

e nasceu e andou
e parou pra coçar
a barriga.
ando exposto
à ternura
e às tesouras
(ainda caio em poços).

carrego comigo
garrafas de água
e uma mágoa ambígua.

anfíbio e filósofo:
quase sempre esqueço
o endereço e os fósforos.

domingo, 4 de novembro de 2012

comunicação da tecnologia dos deuses

beijo na alma
e a força eletromagnética
do planeta e moveremos
gigantescos blocos de pedras

energias:
os mapas são muitos cabelos.

crânios de ursos e mágicos
numa câmara
atingida pelo sol
no solstício de inverno

espíritos
numa migração cósmica
através da fenda do cisne.
osso que recobre a pele

os sumérios sumiram
com as pérolas
e a telepatia
de alta velocidade

as canções
da invasão alienígena
e os desenhos do projeto

por um teletransporte
público

a mente sonha
com tartarugas
e fogueiras anciãs

polegares
coçando os olhos
da floresta

biografias das folhas
perdidas nas ventanias.
trouxe
do supermercado
um pouco
do universo
em conserva,
mas esqueceu:

a erva,
um louco
e um verso
alucinado.